Gilberto Gil, que completa 80 anos neste domingo, 26 de junho

Doutor honoris causa em compreensão e paciência, administrador de empresas da imaginação, poeta da periferia do Ó e dub soul brother de Trench Town, sanfoneiro tropicalista do Teatro Castro Alves, filho de doutor preto de Ituaçu, Gilberto Passos Gil Moreira completa 80 anos neste domingo, 26 de junho do pós-São João do Baião, sob o signo da sabedoria. Mais do que um carimbo da eternidade como refinado cantor e compositor, ele é reconhecido como artista ocupado em botar as utopias em marcha, dar-lhes estratégia de política de Estado, de cesta básica espiritual, de sindicalismo da alma. E são utopias que emolduram um sonho extraordinário de armistício, apaziguamento, de ecumenismo político, social e cultural, algo quase impossível de se vislumbrar nesse período de acirramento dos ódios, das confrontações.

Em uma cruzada contínua há pelo menos 60 anos (desde 1963, quando gravava jingles em Salvador tocando sanfona), Gil nos coloca no fluxo contínuo de sua reflexão artística, movida a um redemoinho de preocupações e subjects: a atividade dos hackers, o frevo e o baião, os sem terra, a consciência negra, o boi bumbá, a caipirinha, os índios de Rondonópolis, o samba de roda, a intolerância religiosa, Antonio Conselheiro e Glauber Rocha, Stevie Wonder e Batatinha, U2 e Riachão, as lavadeiras do Recôncavo, o Carnaval tecnológico, prelúdios bachianos, choros de Pixinguinha. Sua reputação internacional, hoje, é análoga à de um Tom Jobim, um João Gilberto, um Pelé.

“Na dimensão humana, das pessoas, dos homens, esses a quem a vida deu a possibilidade de especular sobre o significado dela, na vida desses homens há a dimensão individual – ‘quem sabe de mim sou eu, aquele abraço’ -, que é a pessoa com seus próprios botões, preocupações, êxtases, lamúrias”, ele refletiu. “A outra dimensão é a histórica, aquela que não pertence propriamente à pessoa: seu modo de criar, o jeito como é compreendido, aceito ou rejeitado pela sociedade. Mas são critérios da sociedade, é o jeito como o mundo o tem para si. Esse sou eu: eu, cá com meus botões de carne e osso, só eu posso pensar se Deus existe, coisas minhas que às vezes também torno públicas em minha carreira. O que sobra é o Gil do mundo, da História. Eu sou parcialmente gente e sou parcialmente ente. Histórico”, ele declarou, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, em 2012.

Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em Salvador mas cresceu em Ituaçu, no interior da Bahia, e saiu de lá em 1951, voltando apenas para a gravação de um documentário, Tempo Rei, já nos anos 2000. Oriundo de uma pequena burguesia negra, ele deu os primeiros passos naquele lugarejo (como ele chamava) que contava com apenas 800 habitantes no censo de 1950, ao pé da Chapada Diamantina, entre a caatinga e as Gerais. Gil dizia que nunca experimentou o racismo na infância. “Não havia. Primeiro, por eu ser de uma classe média elevada para os padrões, minha família pertencia à burguesia daquela cidade. Esse é um dos aspectos que marcam a questão racial, a emancipação econômica. Isso marca até mais do que raça no Brasil. Eram todos clientes do meu pai, que tratava os pobres e os ricos, os pretos e os brancos”.

Gil foi educado pela avó (que na verdade não era avó, era tia do seu pai), Lídia Moreira. Seu aprendizado das letras e dos números se deu “na mesa da sala, entre as panelas e os artesanatos de minha avó”. Só aos 10 anos iria para o colégio Marista, em Salvador. Ali, engendraria suas primeiras formações musicais, com o Bando Alegre e depois Os Desafinados, enquanto sua vocação ia aflorando, assim como suas influências. Louco por Luiz Gonzaga, o criador do baião (“Depois do samba, o baião é o maior gênero popular do Brasil”, disse, certa vez),  ele foi levado ao aprendizado da sanfona, que estudou com o espanhol Jose Benito Comenero.

Dali, passou a tocar em programas de TV. A gravadora baiana JS Discos, em 1963, lançou o primeiro compacto de Gil, prensado em cera de carnaúba. Sua especificidade já chamava a atenção do público e também dos futuros cúmplices. Ficou famosa a passagem que se conta de quando Caetano Veloso o viu pela primeira vez. Gil participava, numa emissora de TV baiana, do programa de Jorge Santos (mesmo dono da gravadora que o lançou). Caetano assistia em Santo Amaro e conta que Dona Canô, sua mãe, o chamava quando o programa começava: “Caetano, venha ver aquele neguinho que você gosta!”, diz Gil, imitando o jeito de Dona Canô falar.

Enquanto cursava a improvável disciplina de Administração na universidade, Gil trabalhava como fiscal da alfândega portuária na Bahia. “Lia O Capital, de Karl Marx, de olho nos navios, para detectar contrabando”, contou. Na universidade, a militância estudantil já não o via com bons olhos. “Eu não era propriamente alinhado com aquela turma. Eles tinham uma denominação específica para esse tipo de gente: linha auxiliar. Eu tomava conta da Escola de Samba Unidos do CPC. Eu dizia: não acredito nessa utopia”, contou. Para Gil, nem a extrema esquerda nem a direita eram atraentes porque não permitiam a nuance, a sutileza. “O justo meio está na igual possibilidade dos extremos”, disse.

Depois de formado em Administração pela Universidade Federal da Bahia, migrou para São Paulo, ingressando nos quadros da empresa Gessy Lever como administrador de empresas. O componente das metrópoles, das especiarias industriais, começava a entrar na sua corrente sanguínea. Resultado: na mesma década, o cenário artístico testemunharia seu formidável encontro com Os Mutantes no palco do Festival da Record, destroçando certezas estéticas e inseguranças paroquiais com Domingo no Parque.

O que era manhã colorida também trazia em seu bojo a contraparte sombria. Na manhã do dia 27 de dezembro de 1968, agentes da polícia federal acordaram Gil e sua alma gêmea Caetano Veloso, os enfiaram em uma camionete e os levaram para o Rio de Janeiro, para a prisão – de onde Gil escreveria Aquele Abraço. Ficaram encarcerados dois meses, depois mais quatro meses sob vigilância em Salvador, depois exilados em Londres por dois anos e meio.

O pacífico garoto de Ituaçu sendo tornado subitamente inimigo declarado de um regime autoritário, truculento, sem lastro. Pior:  tudo sem acusação, primeiro momento kafkiano de sua vida do qual deixaria um testemunho de doçura em vez de rancor, sentimento eternizado em seus versos de Back in Bahia: “Lá em Londres vez em quando me sentia muito longe daqui”.

O marco tropicalista, ele contou, começou com um desafio: “Caetano, vamos lá, vamos fazer algo diferente! Olha como os Beatles estão mexendo com a canção popular de uma forma inventiva”, exortou Gil ao seu maior parceiro. Convocaram então os colegas da MPB para uma reunião, mas a reação às novas ideias não foi entusiasmada como esperavam. “Não íamos formar um coletivo tropicalista ali”, constatou Gil. “Aquela reunião já dava a ideia do tipo de problema no qual a gente estava se metendo.” Num momento de afirmação do nacionalismo, tinha cheiro de traição aquilo que Gil propunha. “Esse era o pano de fundo estético-ideológico: um ambiente de rejeição a tudo que estabelecesse links com a música pop internacional.”

Mas isso não os desanimou. Caetano foi à Bahia, conversou com Tom Zé. “Gil tá inventando essa história aí, eu já tô dentro”, garantiu. Em seguida, o maestro Rogério Duprat aderiu, trouxe consigo os Mutantes O negócio encorpou. Foram ouvir até o pai de Gil, José, para saber o que achava das ideias tropicalistas do filho. “Tropicalista aqui sou eu, meu filho!”, respondeu jocosamente o pai de Gil, que era médico de doenças tropicais. Segundo Gil, os “ecos dessa dificuldade que o tropicalismo criou” (ou que criaram para o tropicalismo) acabaram criando rejeição a projetos como os Novos Bárbaros, que o Pasquim – lembrou Jorge Mautner – chamava de “baihunos”, uma mistura de baianos com hunos (termo que acabou batizando um disco de Belchior).

As contradições se constituíram em emboscadas perfeitas no trajeto. “Fui à passeata contra a guitarra elétrica por compaixão, porque eu não só não acreditava naquilo como estava providenciando as minhas próprias guitarras elétricas”, contou. “Mas Elis me chamou e eu não tinha como dizer não. Eu fui por ela, eu não tinha coragem de dizer não a ela.”

A teia de relações que Gil estabeleceu com o espectro integral da música brasileira e internacional nunca cessou, e isso desde quando, recém-saídos da cadeia, estavam em Salvador esperando o exílio e foram procurados por um conterrâneo de outro destino revolucionário, Raul Seixas, que tentou animar Gil mostrando-lhe um disco de rock psicodélico do Vanilla Fudge.

A consolidação do mito de Gil tem sido como a acomodação de camadas tectônicas naturais ao longo do tempo. O sotaque baiano carregado tornou seu inglês uma espécie de esperanto cheio de ondas & abraços, tornando-o instantaneamente capacitado para o ofício de bandleader de diplomatas do ritmo como Kofi Annan, manda-chuva da ONU. Em 2004, a casa de Gil em Salvador, ali nas funções de ministro e carnavalesco, ficou tomada por um grupo de irlandeses famosos, o quarteto da banda U2, que ele convidara para conhecer a Bahia.

Pai de 8 filhos, Gil é visto atualmente desempenhando com admirável desenvoltura o papel de patriarca e avô coruja, fazendo duetos e atuando em vídeos com a neta Sol de Maria. Foi sempre assim: a vida cotidiana, os filhos, os amores, os embates, tudo sempre rendeu canções memoráveis. A relação com os pais, o médico José Gil Moreira e a professora Claudina Passos, ele estamentou em uma música fundamental do álbum Refazenda, de 1975, feito pouco após regressar do exílio: Pai e Mãe:

“Como é, minha mãe?/Como vão seus temores?/Meu pai, como vai?/Diga a ele que não se aborreça comigo/Quando me vir beijar outro homem qualquer/Diga a ele que eu quando beijo um amigo/Estou certo de ser alguém como ele é/Alguém com sua força pra me proteger/Alguém com seu carinho pra me confortar/Alguém com olhos e coração bem abertos/Para me compreender”.

Preso por porte de maconha já na volta ao Brasil, foi internado compulsoriamente num hospício para “tratar o vício”, e foi salvo da intolerância pelo carinho, pela arte, pela prevalência do humanismo. Esse episódio também rendeu ao menos uma grande canção maravilhosa, Sandra, de 1977: “Carmensita, porque ela sussurou: Seja bem-vindo no meu ouvido/Na primeira noite quando nós chegamos no hospício”.

Seu songbook é impossível de dar conta num fôlego só. Gil sempre teve como meta gravar discos de suas três grandes influências: Luiz Gonzaga, Bob Marley e João Gilberto. E assim o fez. Também ganhou duas vezes o maior prêmio da indústria americana de música, o Grammy. Questionou os clichês da sexualidade (em Super-Homem, a Canção), exortou a herança africana (Lune de Gorée), abraçou o sertão com Dominguinhos e a tradição soul com Stevie Wonder.

Sobre sua passagem pela política, disse que, embora tivesse por um momento desacreditado dela, a disputa por um cargo a vereador em Salvador foi estimulada pelos ares de redemocratização que a Perestroika e Gorbachev trouxeram à cena política mundial. Já o Ministério da Cultura, que ocupou entre 2003 e 2008, foi mais complicado – houve até uma reunião de aconselhamento com os amigos mais próximos, Caetano, Chico, Mautner e Wally Salomão. Chico disse: “Para você, poderá ser uma complicação. Para nós, vai ser ótimo.”

O “momento iniciático” de o País ter um operário no poder o convenceu. “Mas também os significados colados em minha própria pessoa, tropicalista que já tinha arrastado essas correntes todas”, ele revelou.  Como homem público, Gil intuiu que existia uma “terceira cultura” que não era levada a sério pelo Estado, uma cultura ausente da esfera do poder público e do radar pragmático da indústria: as expressões tradicionais, parte das culturas populares, as manifestações das comunidades, das periferias, dos guetos, das tribos, dos quilombos. Tais setores eram considerados estranhos às atribuições governamentais no setor, que tinha uma visão da cultura como ornamento.

“Quando se sai do útero, quando se deixa a caverna, quando o macaco do filme 2001 atira o osso em direção ao céu, quando se dá rumo à curiosidade, enfim, tem-se a cultura. A vida exige entusiasmo diante do novo, do diferente, do diverso. E este sentimento de entusiasmo, que significa originalmente trazer Deus em si, deve estar presente também na ação do poder público. Estou, portanto, entre aqueles que identificam no estímulo ao pensamento, à reflexão, uma tarefa do Estado. Trata-se de dar aos cidadãos, aos habitantes da Polis, os instrumentos, as condições, para lidar com as incertezas, para aceitar os riscos, para, assim, entregar-se à aventura do novo, realizando a sua pulsão natural de conhecer. Uma aventura que é, basicamente, aventura de pensamento”, discursou.

Como ativista, sempre pareceu habitar um território de transição e transação entre Gil Scott-Heron e Abdias do Nascimento, entre os Panteras Negras e Duke Ellington, uma região de aproximações, mais do que de distensões; de abordagens soft, amistosas. “O Brasil é o que é hoje porque é negro, porque é amarelo, porque é branco, porque é plural. A brasilidade, embora muitos ainda não admitam, é o que é hoje porque é principalmente negra. O negro nos deu resistência e coragem para sermos o que hoje somos, mas também nos deu ginga, cadência e generosidade para permitir que os outros também sejam”, discursou ele, quando ministro da Cultura.

Gil chega aos 80 anos abrigado pelo Google Arts & Culture, a plataforma internacional, em um projeto de museu virtual (O Ritmo de Gil) que disponibiliza 41 mil itens de seu acervo pessoal para o uso da posteridade. Não é algo insólito para um artista que sempre teve fascínio pela tecnologia, que abordou em canções como Cérebro Eletrônico e Futurível (1969), Cibernética (1974), Parabolicamará (1991), Quanta (1997) e Banda Larga Cordel (2008). A mobilidade de Gil se assenta em sua própria capacidade infatigável de detecção do movimento, do avanço da linguagem. Por isso, é quase um fenômeno natural vê-lo num palco com o Baiana System ou num video do discípulo Emicida, da novíssima geração, repartindo refrões como os da canção É Tudo pra Ontem. Cujos versos, metalinguisticamente, o denunciam nessa tarefa de ser ao mesmo tempo reverenciado e reverenciador, que parece eterna:

Viver é partir
Voltar e repartir
Partir, voltar e repartir

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