O escritor Elizeu Cardoso. Foto: Helton Alex. Divulgação
O escritor Elizeu Cardoso. Foto: Helton Alex. Divulgação

A prosa de Elizeu Cardoso tem a força da tradição oral; escritor lança o livro “Contos de quintais” nesta quinta (26) na Associação Maranhense de Escritores Independentes (Amei), no São Luís Shopping

A literatura de ficção de Elizeu Cardoso se alimenta, em grande medida, da chamada vida real, mesmo quando estamos vivendo tempos distópicos. Talvez isto explique, em parte, o poder que seus contos têm, de despertar em quem os lê, para além do prazer que a leitura em si proporciona, um gosto de café recém coado ou o sabor de farinha na boca, o cheiro de terra molhada no olfato, ou as saudades de pais e avós já falecidos.

Natural de Pinheiro, radicado há mais de 20 anos em São Luís, para onde se mudou ao vir cursar Geografia na Universidade Federal do Maranhão, Elizeu Cardoso é professor, cantor, compositor e escritor, com reconhecimento em todas as áreas em que atua, seja por seus pares, seja por prêmios que ganha aqui e acolá, embora sua única preocupação, me parece, seja fazer qualquer coisa com total entrega, o que ajuda a garantir qualidade.

O resto é talento e vivência. Ler os 31 contos reunidos em “Contos de quintais” é um convite a conhecer as paisagens de memórias afetivas do autor, entre coisas que ele viu, ouviu ou inventou. É sentar-se à mesa para degustar os citados café e farinha. Ou na porta de casa, sob a luz de lamparinas e o zumbido de muriçocas. A capa, assinada por seu irmão Napoleão Filho, já dá ideia, com suas paredes de taipa, quadros de santos, potes, rádio, pilão, bule, xícaras e lamparina.

Hábil com as palavras, Elizeu Cardoso sabe contar histórias, e é vasta a galeria de personagens, de nomes tão hilariantes quanto as peripécias em que se envolvem, entre o onírico e a realidade, inventada ou não pelo escritor.

Tudo é vivo em suas narrativas breves, tão vivo que até os mortos podem falar, mas nada está deslocado ou é de mau gosto. Os contos têm a força da tradição oral, mas soma-se à força poética de um Manoel de Barros aqui, as aventuras de um Ernest Hemingway ali, a sabedoria de um Eduardo Galeano acolá, o universo fantástico de um Gabriel García Márquez mais adiante, sem esquecer a elegância da prosa fabular de Mia Couto e um ou outro personagem de Josué Montello cujos nomes toma emprestado – autores que certamente leu e são influências, mais ou menos explícitas.

“Poeira do tempo”, que abre o volume, conquistou o primeiro lugar no I Festival Maranhense de Conto e Poesia da Universidade Estadual do Maranhão em 2015, levando o Troféu Arthur Azevedo. “A ida à lua – Fulô I” conta uma malfadada viagem à lua, embora o foguete construído no quintal tenha feito apenas fumaça – e garanta boas gargalhadas a quem lê o conto. Já “O tambor da confusão” alia personagens reais e imaginários. Todo 13 de maio acontece em Pinheiro o Festival de Tambor Ginga Zé Macaco, homenagem a um saudoso mestre que já realizava uma festa como pagamento de promessa a São Benedito; imaginem os leitores, como no citado conto, o encontro dos mestres Felipe, Leonardo e Nivô, além do anfitrião, na roda.

Elizeu Cardoso é uma espécie de bruxo (e essa era a alcunha atribuída àquele que é considerado por muitos o maior escritor brasileiro em todos os tempos) e a fervura de seu caldeirão literário, ao mesmo tempo em que diverte, tem muito a ensinar (o escritor é professor, literalmente) sobre tradições, geografias, afetos e culturas populares.

Contos de quintais. Capa. Reprodução
Contos de quintais. Capa. Reprodução
Serviço: lançamento de “Contos de quintais” [Viegas Editora, 2022, 164 p., R$ 50,00]; nesta quinta-feira (26), às 19h, na Livraria e Espaço Cultural Amei (São Luís Shopping).

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