Criolo
Criolo - foto Helder Fruteira, @afilmbyme_

Em seu quinto trabalho de estúdio, o artista paulistano Criolo reaparece mais furioso que nunca em Sobre Viver, ao ponto de parecer que “Não Existe Amor em SP” (2011) se desdobra em um álbum inteiro, cujo nome poderia ser Não Existe Amor no Brasil. Sobre Viver é Criolo após a morte de sua irmã Cleane Gomes em 2021, aos 39 anos, de covid-19. Transpira o choque entre vida e morte e entre amor e ódio por cada poro, e por isso mesmo reflete com precisão o lugar e o momento em que foi gestado.

“Pequenina” é o nome do rap que dá sequência ao tema do single “Cleane” (2021), com participações vocais de Liniker (no refrão soul) e MC Hariel. “Mãe é mãe, e a minha chora num caixão/ cês não sabem o que é favela, cês nunca moraram nela, cês vivem as suas vidas e ainda criticam elas” e “cuidar da minha irmã agora só em prece, ela não tá mais aqui, é que esse mundo não te merece”, lamenta Criolo, enquanto sua mãe, Maria Vilani, declama frases como “o que pra vocês é vitimismo pra nós é nossa vida”. A alma de “Não Existe Amor em SP” está de volta em “Pequenina”, sob arranjo do maestro jobiniano Jaques Morelenbaum: “Cês não sabem o que é amor, cês só sabem o que é rancor”.

A situação atual do Brasil conduz vários momentos de Sobre Viver, em especial no rap vociferado “Sétimo Templário”, que aborda o casamento da pandemia com a gestão Bolsonaro na levada da guitarra de Guilherme Held e mais uma vez se dirige a ouvintes com quem o narrador está brigando: “Assassinato em série/ cês votaram na morte/ não existe amanhã se a Amazônia morre”. Entre discursos pelo desarmamento e contra o desmatamento e o extermínio indígena, a assinatura do responsável pelo caos é nítida: “O presidente que diz plau, depois pergunta ‘isso é matança?'” e “slogan do governo é ‘vou cuidar dessa criança’/ mas se tem a pele preta, vai matar essa criança/ milícia é milícia, bacana é bacana/ o Estado é só uma criança sentada chupando manga”.

Embebida em amor e ódio, “Sétimo Templário” chora dores sanguíneas: “Eu sou a lágrima, eu sou o ódio”. Criolo, percebe-se, está disposto a dar nome aos bois que coordenam a matança: “Quando o racismo vira voto, a morte dropa na infância”. O final é explícito: “Só o palco me leva aonde eu possa respirar apenas por mais um dia/ de solidão aqui jaz Kleber, na depressão Criolo caminha”. Kleber Cavalcante Gomes é o nome de batismo de Criolo.

Exemplar da motivação do artista em tornar a fala mais concreta que metafórica, o título “Pretos Ganhando Dinheiro Incomoda Demais” é inequívoco. “O xis da questão é que pretos ganhando dinheiro incomoda demais/ sociedade que só respeita o que o dinheiro traz”, diz, em consonância com o refrão “eu vou ganhar dinheiro, mãe/ porque é só assim que eles respeitam a gente” de “Pequenina”. Nem tão direto é o título “Me Corte na Boca do Céu a Morte Não Pede Perdão“, e aqui Criolo põe o herói do canto e da canção Milton Nascimento a exclamar palavras como “soldado morre na guerra do tráfico” “por que nobre não manda seu filho pra morrer com anel de doutor?”, “na biqueira” e “é que aqui só morre pobre, isso a TV não mostrou”.

O rap-canção com Milton é produzido pela dupla Tropkilazz, formada por André Laudz e Zé Gonzales (ou Zegon), com acabamento de cordas em estilo afro-samba, à maneira de maestros negros como Moacir Santos, Abigail Moura, José Prates e Letieres Leite. Os Tropkillaz produzem (e compõem melodias para) a maior parte do álbum, inclusive outras faixas no modo rap-canção, como “Diário do Kaos” (“aqui quem fala é um sobrevivente”), “Pretos Ganhando Dinheiro Incomoda Demais” (é sempre salutar escrever o título por inteiro), “Moleques São Meninos, Crianças São Também” (“moleque sangra, moleque morre”, “dói de ver aquеle menino amarrando outro no poste/ eles só tinham 7 anos, quem tem 7 não escolhe”), “Yemanjá Chegou” (“enquanto isso a elite aplaude seus heróis”, “mausoléu de ouro e prata pra aquele que rouba tudo”) e “Quem Planta Amor Aqui Vai Morrer”. Alguma pasteurização nos arranjos por vezes fazem lembrar a dupla Lincoln Olivetti Robson Jorge nos anos 1980.

Desta vez Daniel Ganjaman Marcelo Cabral, produtores de Nó na Orelha (2011), Convoque Seu Buda e Espiral de Ilusão (2017), só aparecem em “Ogum Ogum“, um dueto com a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, dividindo a função com os Tropkillaz, e Ganjaman divide com a dupla a produção da quase terna “Aprendendo a Sobreviver”, de belos retoques africanos.

“Ogum Ogum” e “Yemanjá Chegou” carregam nomes de orixás, e não é por acaso. A primeira centra fogo na intolerância religiosa endereçada, como sempre, pela sociedade branca à comunidade preta. “Intolerância religiosa, ignorância maliciosa”, associa, acertando a testa dos ignorantes (mais uma vez o narrador brigando com os ouvintes). “Às quatro da manhã lota uma van/ depois pegar um trem sentido Vietnã/ batеr cartão, olhar a cara do patrão/ como um loki desse aí vai mandar nos meus irmãos?”, diz “Yemanjá Chorou“, em achados perturbadores, “quer falar mal dos pretos, lave a boca com Pinho Sol/ nas redes comentários e unfollow now now/ eu não vim pra te agradar, eu sou favela lol lol”.

Terceira faixa-símbolo de Sobre Viver, ao lado de “Pequenina” e “Sétimo Templário”, “Quem Planta Amor Aqui Vai Morrer” volta a supurar a dor, com Criolo declamando em voz agressiva, sob fundo dançante ora oriental, ora candomblecista: “Brasil não é playground”. Fica a dúvida evocada em 2006 e agora remodelada para tempos mais insanos: Brasil não é lugar de plantar amor? Existe amor no Brasil?

“Onde o Estado não chega, a maldade traça o norte”, declama Criolo em “Moleques São Meninos, Crianças São Também”, mirando a periferia e acertando também o coração do neoliberalismo, sob refrão em reggae que derrama nos ouvidos nossa desigualdade social e racial: “Moleques são meninos, crianças são também/ nascer pra ser tratado bem”. Ao final de Sobre Viver, “Aprendendo a Sobreviver” é mais uma letra que bambeia na corda entre ódio e amor, depressão e alegria. “Existe um mundo que você não vivencia/ eu canto vida onde a morte aqui se faz rotina”, canta o rapper-cancionista, chamando a morte pelo nome para tentar afastar a morte do dia a dia. “Aprendendo a Sobreviver” é bipartida entre “hoje cês vão receber todo o ódio de Kunta Kinte” e “hoje cês vão receber todo o love de Kunta Kinte”, em referência ao herói negro da minissérie estadunidense Raízes (1977). “Sétimo Templário” reage ao dilema de morte: “Morrer, só se for de amor na voz de Alcione“.

Também bipartido entre o rap e a canção, Sobre Viver fala alto sobre o ódio e o amor que o construíram, mais alto ainda nos raps inconformados de “Pequenina”, “Sétimo Templário”, “Yemanjá Chegou” e “Quem Planta Amor Aqui Vai Morrer”, que arremetem a música de Criolo de volta aos tempos do começo, de Ainda Há Tempo (2006), ainda como Criolo Doido. “Amor, precisamos de amor/ precisamos nos abraçar pra acabar com a dor”, prega “Pequenina”, mesmo náufraga de tanta destruição. Falando de peito aberto sobre pandemia e política, Sobre Viver ficará como testemunho dos anos de chumbo de bala e morte em que foi criado.

"Sobre Viver" (2022), de Criolo

Sobre Viver. De Criolo. Oloko.

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