Elifas Andreato diante de totem de exposição sobre sua obra, em 2010. Foram expostos mais de 100 trabalhos seus, entre cartazes e capas de discos. Acervo Memorial da Resistência de São Paulo. Reprodução
Elifas Andreato diante de totem de exposição sobre sua obra, em 2010. Foram expostos mais de 100 trabalhos seus, entre cartazes e capas de discos. Acervo Memorial da Resistência de São Paulo. Reprodução

Faleceu hoje o artista gráfico Elifas Andreato, autor de capas icônicas da música popular brasileira

O artista gráfico Elifas Andreato (1946-2022) é um daqueles personagens cuja dimensão é incalculável. Acostumamo-nos à sua presença desde sempre, invariavelmente sem nos questionarmos acerca de sua origem – nasceu na pequena Rolândia/PR, na região metropolitana de Londrina – e longevidade – este repórter mesmo acreditava que ele tivesse bem mais que os 76 anos com que faleceu hoje, quando se recuperava de um infarto, talvez justamente pela grandeza de sua obra: como pode ter feito tanto em tão pouco tempo?

Vindo de uma família humilde, só foi alfabetizado já adolescente. Com o pendor para a ilustração, conseguiu um contrato com a editora Abril, para onde ilustrou diversas coleções de música, em vinil e cd. Antes da fama, no entanto, foi operário de fábrica, tendo tomado consciência da situação política que o Brasil atravessava a partir do golpe de 1964 com a decretação do AI-5, em 1968 – até então se considerava um alienado. Por sua atuação de combate à ditadura militar e consequente perseguição pelo regime dos generais, foi homenageado pelo Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos em 2011. Foi também professor de artes na Universidade de São Paulo (USP).

A folha de serviços prestados por Elifas Andreato à música popular brasileira é tão vasta e importante que ele parecia estar há mais tempo no ramo, embora sua atuação não se restrinja à música, com contribuição em outras áreas, entre as quais o Almanaque Brasil, revista de bordo de uma companhia aérea, encharcada de cultura, curiosidades e brasilidades, além de trabalhos como cenógrafo e compositor bissexto – é parceiro de Jessé e Tom Zé.

Se hoje a música popular brasileira é reconhecida no exterior por seu padrão de excelência, a contribuição de Elifas Andreato para o feito é inestimável: foi ele quem melhor embalou a alma brasileira traduzida em notas musicais, não apenas para exportação.

Vida (1980). Capa. Reprodução
Vida (1980). Capa. Reprodução
Nação (1982). Capa. Reprodução
Nação (1982). Capa. Reprodução
Clementina (1979). Capa. Reprodução
Clementina (1979). Capa. Reprodução
Espiral de ilusão (2017). Capa. Reprodução
Espiral de ilusão (2017). Capa. Reprodução
Elis vive (1984). Capa. Reprodução
Elis vive (1984). Capa. Reprodução
O sorriso ao pé da escada (1983). Capa. Reprodução
O sorriso ao pé da escada (1983). Capa. Reprodução
Bandalhismo (1980). Capa. Reprodução
Bandalhismo (1980). Capa. Reprodução
Rosa do povo (1976). Capa. Reprodução
Rosa do povo (1976). Capa. Reprodução
Nervos de aço (1973). Capa. Reprodução
Nervos de aço (1973). Capa. Reprodução
Confusão urbana, suburbana e rural (1976). Capa. Reprodução
Confusão urbana, suburbana e rural (1976). Capa. Reprodução

Apesar de desenvolver trabalhos em outras áreas, foi como capista que ele se tornou mais conhecido. Assinou capas de mais de 360 discos, incluindo algumas das mais icônicas da história da MPB, de álbuns de Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Criolo, Elis Regina, Gildomar Marinho, Jessé, João Bosco, Martinho da Vila, Paulinho da Viola (é dele a capa de “Sempre se pode sonhar”, disco mais recente do artista, lançado em 2020, com a gravação de um show realizado em 2006), Paulo Moura, Tom Zé, Toquinho e Vinicius de Moraes, entre inúmeros outros.

25 de outubro. Detalhe. Reprodução
25 de outubro. Detalhe. Reprodução

O acervo do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo abriga sua famosa pintura “25 de outubro”, acrílico sobre tela de 120x100cm, de 1981, que aborda, com clara inspiração em Pablo Picasso (e particularmente sua “Guernica”), o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nos porões da ditadura militar brasileira – suicídio, nas versões oficiais, até que em 2012 a Comissão Nacional da Verdade conseguiu recompor os fatos e corrigir o atestado de óbito com sua verdadeira causa mortis: maus-tratos. O título do quadro se deve à coincidência: na data, o espanhol Picasso nasceu, em 1881; e no mesmo dia, em 1975, o iugoslavo naturalizado brasileiro foi barbaramente assassinado.

Entre seus últimos trabalhos estão a capa de “Missão do cantador” (2021), da Banda de Pau e Corda, além de diversos desideratos desenvolvidos para artistas vencedores do Prêmio Grão de Música, importante reconhecimento a artistas brasileiros, pelo conjunto da obra, realizado anualmente pela compositora e produtora cultural Socorro Lira. “O verdadeiro prêmio da música popular brasileira. É um prêmio que representa esta diversidade e grandeza da música popular do Brasil”, chegou a atestar o criador de seu troféu. Neste seu último projeto ele fez o caminho inverso daquele a que estava acostumado: a partir das imagens criadas por Elifas Andreato, alguns artistas compuseram temas musicais.

Porta sentidos (2021). Capa. Reprodução
Porta sentidos (2021). Capa. Reprodução

Um dos agraciados com o Prêmio Grão de Música em 2019, o maranhense Gildomar Marinho está prestes a lançar, em formato físico, quatro álbuns (todos já disponíveis nas plataformas de streaming): “Mar do Gil”, “Estradar”, “Sé7imo” e “Porta sentidos”. A capa deste último, desenhada por Elifas Andreato, será a mesma da caixa contendo a tetralogia.

O corpo de Elifas Andreato está sendo velado hoje (29) no crematório da Vila Alpina, na zona leste da capital paulista.

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Leia também:
As 1001 capas de Elifas Andreato, entrevista inédita a Fabio Maleronka.
Na última colaboração, Elifas Andreato foi “padrinho” de livro, e sua obra personagem, por Jotabê Medeiros.

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