Ilustração de Elifas Andreato para a peça "A morte do caixeiro viajante", de Arthur Miller, que acabou indo parar na cozinha do dramaturgo

“Faço parte de uma geração de músicos, intelectuais, jornalistas, atrizes e atores que produziu coisas muito importantes. Quando trabalhava ao lado deles, meu serviço, de certa forma, era criar um convite para que o público conhecesse obras muito maiores que as minhas”, conta o artista gráfico, desenhista, cenógrafo e ilustrador Elifas Andreato no livro Vai, DJ! O intrigante caso dos discos perdidos (Palavras Projetos Editoriais, 2022), escrito pelo estreante João Rocha Rodrigues e ilustrado pelo Estúdio Lorota. Elifas Andreato, que ilustrou capas para Elis Regina, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Martinho da Vila, Criolo, entre centenas de outros, morreu hoje de infarto, aos 76 anos.

Lançado em fevereiro, com a participação do artista gráfico em live de lançamento, o livro é uma ficção juvenil que tem como personagem central o trabalho de Elifas Andreato, uma espécie de biografia ilustrada que ocorre nos interstícios da saga de Rosa, uma jovem negra e moradora do Grajaú, em São Paulo, que sonha em ser DJ mas não tem dinheiro para comprar vinil. Até que um dia encontra uma caixa cheia de capas de discos ilustrados por Elifas Andreato – no final da história, ela começa a entrevistar o desenhista por email e termina conhecendo o artista.

No livro, Elifas comenta muitas das suas obras e das circunstâncias em que as produziu, revela capas pouco conhecidas para livros como A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector, e fala do painel A verdade ainda que tardia, que produziu sobre a tortura e os crimes da ditadura entre 1964 e 1985, com cinco metros de comprimento. “Sabe que eu levei meses para pintar aquelas telas? Dormia mal, acordava cedo, trabalhava até tarde da noite”, contou. “Nunca sofri tanto para concluir um trabalho porque, além da dificuldade de usar aquela técnica numa escala tão grande, o tema era muito duro”.

Para fazer o pôster da peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973), Elifas se pôs a aprender a arte da tatuagem – mas de um jeito insólito. Impactado pela canção Tatuagem, de Chico, que integrava o espetáculo, ele comprou uma pele de porco e dedicou-se a fazer a tatuagem central do pôster nela; em seguida, aplicou o resultado sobre um desenho de atlas de anatomia humana.

Para fazer o cartaz de Rezas de Sol para a Missa do Vaqueiro, ele criou uma escultura de mais de dois metros com uma ossada de cavalo real, produzindo uma espécie de Cristo da caatinga. “A imagem causou mal-estar entre os católicos mais radicais, mas conseguimos tocar o barco”, contou. O artista comentou a reação de Adoniran Barbosa ao descobrir, na parede da sala do produtor Fernando Faro, que ele o tinha desenhado de uma forma, mas que a gravadora recusou a proposta e lhe pediu um Adoniran mais alegrinho, e o artista cedeu. Ao descobrir o desenho original, que fora presenteado a Fernando Faro (que por sua vez o pendurou na parede), o sambista paulista lhe disse: “Elifas, eu sou esse palhaço triste que tá aqui, não o alemão que você colocou na capa…”. Elifas comentou que nunca mais iria subestimar a sensibilidade de um artista.

Já o cartaz de A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller (1915-2005), foi enviado pelo diretor brasileiro Flávio Rangel para o dramaturgo norte-americano, que deveria vir para a estreia. Miller não veio, tinha outra estreia na Broadway na mesma semana, mas contou à produção que tinha pendurado o cartaz de Elifas na cozinha de sua casa.

O artista também revela que fez uma de suas ilustrações mais famosas, de Noel Rosa (acendendo um cigarro com a cabeça formando uma sombra estrelada) para a capa de uma revista japonesa chamada Latina, para a qual desenhou durante 32 anos. Fez cerca de 380 capas para a publicação, mas contou que nunca a leu porque era editada em japonês.

O artista gráfico também falou sobre a capa que fez para o Livro Negro da Ditadura Militar, publicado clandestinamente em 1972. Contava com colaborações de Bernardo Joffily, Carlos Azevedo, Divo e Raquel Guisoni, Duarte Pereira, Jô Moraes e Márcio Bueno Ferreira. “Minha companheira na época, a fotógrafa Iolanda Huzak, se encarregou de datilografar o texto todo. A mim coube fazer a capa”. Somente em 2014 é que o livro teve uma reedição.

Ao final, há uma linha do tempo biográfica de Elifas Andreato, que começa com seu nascimento em Rolândia, Paraná, em 1946, o primeiro emprego na fábrica de fósforos Fiat Lux, o trabalho na imprensa alternativa, a oposição ao regime militar, as primeiras entre as mais de 600 capas de discos (A Dança da Solidão, de Paulinho da Viola, e Batuque na Cozinha, de Martinho da Vila), a obra de cenografia, o teatro, a TV, a produção de exposições. Elifas foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural em 2005.

Anúncio do lançamento do livro “Vai, DJ!” com a presença de Elifas, seu inspirador, em fevereiro
Vai, DJ! O intrigante caso dos discos perdidos. De João Rocha Rodrigues. Ilustrações: Estúdio Lorota. Palavras Projetos Editoriais, 196 páginas, 85,50 reais.

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