Na era dos cancelamentos sumários, o que restará do velho Robert Crumb?

A resposta, meu amigo, não está soprando com o vento. Será aberta na próxima quinta-feira, 10  de fevereiro, em Paris (uma galeria na rua Vieille du Temple, 108) a maior exposição já montada reunindo a mítica Família Crumb – Robert Crumb, ícone da contracultura e papa dos quadrinhos underground, sua mulher Aline Kominsky-Crumb e a filha do casal, Sophie Crumb, todos cartunistas. A família, norte-americana, vive na França há 30 anos.

A exposição, que permitirá mais uma vez a reavaliação de Crumb, chama Sauve qui peut ! (Run for Your Life), o que significa Salve-se quem puder! (Sauve é o nome da cidade na França onde vive a família, e que significa “salve”, em francês, favorecendo o trocadilho).

Todos os artistas da família Crumb têm trabalhos em coleções de museus fundamentais, como o Brooklyn Museum e o MoMA, de Nova York, o Carnegie Museum of Art de Pittsburgh; e o Museum Ludwig de Colônia, Alemanha.

Casados desde 1971, Robert Crumb e Aline Kominsky-Crumb têm carreiras consolidadas e são igualmente respeitados no meio das artes gráficas. Aline fez história com sua participação na antologia feminista Wimmen’s Comix, e Crumb definiu as fronteiras do gênero com seus quadrinhos dos anos 1970, como Fritz The Cat e Mr. Natural. Um tem colaborado com o outro em histórias incidentais, como Aline and Bob’s Dirty Laundry Comics (1974) e Bad Diet & Bad Hair Destroy Human Civilization (2020). Sua filha, Sophie Crumb, nasceu em 1981, e é reconhecida como uma digna herdeira do sarcasmo, do talento e do espírito confrontativo dos pais.

A família vive desde 1991 no Sul da França, para onde foram (a exemplo da cantora Nina Simone) por motivos políticos – o avanço do reacionarismo em sua terra natal, os Estados Unidos, e da então cultura yuppie dos anos 1980, dinheirista e hedonista, os angustiava. Dizem que, após sua chegada, a região começou a receber uma grande quantidade de novos expatriados voluntários, artistas e pessoas de objetivos alternativos. Sophie, que nasceu em Woodland, Califórnia, nos Estados Unidos, em 1981, hoje vive entre Nova York e Paris, mas está sempre na casa dos pais.

Além de trabalhos já clássicos da família, a retrospectiva que será exposta também traz a produção recente dos cartunistas, como a série Crumb Family Covid Exposé (2021), de 10 páginas, que reflete sobre como a Covid-19 tem impactado o comportamento da família e suas reflexões sobre a pandemia. Um dos trabalhos gráficos de Robert Crumb é Fear the Invisible (2021), um desenho que mostra um vírus de Covid com aspecto humano e expressão de doido varrido.

Nascida Aline Goldsmith em Long Island, Nova York, em 1948, Aline Kominsky-Crumb formou-se pela University of Arizona, Tucson, em 1971, e se destacou na antologia Wimmen’s Comix em 1971. Foi também fundadora da série Twisted Sisters, com Diane Noomin, em 1976, e, nos anos 1980, foi editora da lendária revista alternativa Weirdo.

Nascido na Filadélfia em 1943, Robert Crumb vive hoje a revisão de sua própria contribuição aos comics, coalhada de excessos típicos da época, de fetiches sexuais e fantasias, em que queria chocar o mundo, como hoje argumenta. Em 2010, ele foi um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, no Rio de Janeiro, causou com seu célebre mau humor, e veio a São Paulo com o colega cartunista Gilbert Shelton.

A fama de misógino, machista, racista e abusivo de Robert Crumb, hoje com 78 anos, não chegou bem aos anos 2000. Em uma nova era, ele passou a ser frequentemente questionado por suas atitudes de predador sexual, abusivo e violento da era hippie. Na França, o trabalho de Crumb é objeto de revisões constantes. Em 2012, o Musée d’Art Moderne de Paris lhe dedicou uma grande restrospectiva. Em maio do ano passado, em uma entrevista a uma garota chamada Reilly, de 22 anos, em seu blog ele falou francamente sobre essas questões e das ameaças de “cancelamento” que sofre.

“Okay, fui sugado um pouco por aquela coisa de chocar as pessoas. Foi uma coisa que aconteceu também, por exemplo, no movimento punk. Sabe, quando você é jovem, aprecia a ideia de chocar seus pais ou pessoas com atitudes rígidas, ou de classe média, sobre tudo, para dar uma sacudida nelas. Eu fui sugado por aquilo, o que foi algo estúpido… Foi divertido, mas estúpido. Mas acima e abaixo daquilo, havia sempre uma parte de mim que estava se revelando, uma parte do que eu sou, ou era. Eu tive um bocado de raiva contra mulheres. Eu tive. Todos que não admitem a raiva contra o sexo oposto estão mentindo. E se tive um comportamento raivoso contra as mulheres, havia uma parte da minha psique que estava amarrada àquilo, e que se libertava por meio do meu trabalho; se para melhor ou pior, eu não sei. No final, não posso julgar se o que eu fiz trouxe benefícios ou se foi de alguma utilidade para as pessoas ou não. Eu simplesmente não sei”.

Crumb, Aline Kominsky-Crumb, and Sophie Crumb: Sauve qui peut ! (Run for Your Life). David Zwirner (108, rue Vieille du Temple, Paris, 75003, France)

 

 

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