Filipe Catto
Filipe Catto

“Jesus era chave de cadeia”, provoca a cantora gaúcha Filipe Catto já nos primeiros minutos da videoperformance Metamorfoses, cantando uma versão brasileira interiorana para “Walk on the Wild Side” (1972), de Lou Reed, transcriada pela militante travesti paulistana Claudia Wonder (1955-2010). Imaginada para acompanhar a exposição de mesmo nome no Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo, Metamorfoses convoca a, digamos, porção feminina de Filipe, que reinterpreta temas caros à visibilidade trans brasileira ao lado dos pioneiros Maria Alcina Ciro Barcelos (um dos criadores do grupo Dzi Croquettes) e da drag queen Alma Negrot, performer residente da festa Mamba Negra.

Com curadoria de Gonzalo Aguilar Samuel Titan Jr., a exposição no IMS inaugura o projeto Instantâneas: A Música em Foto, que entrelaça imagem e som sob curadoria de Juliano Gentile. Parte do trabalho fotográfico de Madalena Schwartz (1921-1993), que registou a cena alternativa de travestis e transformistas na São Paulo dos anos 1970 (veja fotos ao final), registrando o imaginário andrógino de artistas como Ney MatogrossoElke Maravilha, Dzi Croquettes, Rogéria Patrício Bisso. Nos vídeos dirigidos e roteirizados por Juliano e Filipe (com cocuradoria e produção artística de Rodrigo de Araújo), as imagens antigas de Madalena ganham releituras audiovisuais livres, modernas e apaixonadas de um cancioneiro diverso que vai de Secos & Molhados Pabllo Vittar.

“A pandemia trouxe uma questão que é como manter uma programação, mesmo que enxuta, neste contexto, com a classe artística extremamente fragilizada, sem palco e sem perspectivas, em se tratando de Brasil”, o curador Gentile explica Metamorfoses e a série Instantâneas. “A gente optou por não fazer lives, porque, por melhores que sejam, acabam criando uma sensação de ‘bom, legal, mas eu queria estar lá para ver’. Tentamos ao máximo sair da ideia de um show que não rolou, inverter isso”.

Ele reflete sobre as motivações da performance: “Trata de um tema muito caro a nós neste período fascista, vamos dar nome aos bois. Madalena fotografou travestis e transformistas nos anos 70 com a trajetória que ela tem, de ter tomado conhecimento da fotografia tarde – ela trabalhava numa lavanderia. Ciro contou que ela chegava cedinho nos espetáculos do Dzi Croquettes e depois saía com eles, ficava até de madrugada com eles no Piolin. Metamorfoses fala sobre a saída do confinamento a que eram submetidas”.

Na sequência de “Vem pra Barra Pesada” (o título da versão cabocla do manifesto transmaginal de Lou Reed), Filipe canta “Seu Crime”, numa versão lenta, densa, concentrada e amorosa do até aqui hino dance de Pabllo – a inspiração é evidente, conforme O Filipe se transforma em A Filipe, tal qual O Pabllo vira A Pabllo para se tornar uma das artistas mais populares da música brasileira atual.

A voz segura de Filipe brilha em “Do Fundo do Coração” (1985), de Julio Barroso Taciana Barros na paulistana Gang 90 (com citação para “Xingu”, 2006, do duo eletrônico Noporn); “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, de João Bosco Aldir Blanc, lançada em 1972 pela gaúcha Elis Regina e aqui transposta ao imaginário trans;  a póstuma “Canção de Engate” (1997), do português António Variações (1944-1984); em versão lancinante da já lancinante “Amor Marginal” (2015), do contemporâneo pernambucano Johnny Hooker; e, em inglês, “Rebel Bebel” (1972), rock inaugurador da fase andrógina de David Bowie.

“É um mistério isso, sinceramente, porque o Metamorfoses foi um encontro de várias pessoas em um timing perfeito”, afirma Filipe a FAROFAFÁ sobre a transformação que vem vivendo. “Desde 2017 eu venho numa desconstrução de gênero constante, que é a narrativa toda do meu último disco (Catto, de 2017) e serviu como uma porta de entrada para eu experimentar qual seria meu espaço dentro dessa imensa e rica gama de identidades que o ser humano pode ter.”

Filipe relaciona a própria metamorfose ao conteúdo programático da performance: “O show é tão representativo, com toda a carga histórica e política que traz, que eu precisaria estar segura no meu lugar de me compreender como trans para poder mergulhar nessa ideia de forma absolutamente pessoal também. O Metamorfoses aconteceu comigo no momento exato, porque eu estava pronta para fazer aquilo”. (Leia ao final depoimento de Filipe Catto sobre transição de gênero.)

Outras vozes representativas vêm se somar à de Filipe. A gaúcha Alma Negrot revisita a androginia rudimentar de “Androginismo” (1978), composto por Kledir Ramil para a espetacular banda gaúcha Almôndegas. O também gaúcho Ciro Barcelos cuida da performance em samba eletrônico de “Invocação”, do DJ Jojô Lonestar.

A mineira Maria Alcina inverte os gêneros andróginos e injeta rock e carnaval em “Sangue Latino” e “Amor” (1973), obras-primas do primeiro LP dos Secos & Molhados de Ney Matogrosso. Adiante, ela volta com um pot-pourri carnavalesco de sucessos antepassados da portuguesa acariocada Carmen Miranda, madrinha avant la lettre de dez entre dez travestis, transformistas e drag queens locais. Ciro, Filipe e Alma fazem vez de coro coreográfico, seco & molhado, para Alcina.

Juntas, as quatro artistas aparecem em cenas de camarim, cantando à capela “Esse Cara” (1972), que Caetano Veloso compôs e Maria Bethânia gravou. No encerramento, Filipe Catto canta “Dê um Rolê” (1971), hino hippie dos Novos Baianos androginizado por Gal Costa no mesmo ano, no mitológico show Fatal. Qual num espelho, Metamorfoses termina com a balada “Walk on the Wild Side”/”Vem pra Barra Pesada” reproduzida ao contrário.

O diálogo entre a geração do desbunde (em vigência de uma ditadura pilotada por militares) e a mais nova música queer brasileira (que se impõe à revelia do autoritarismo bolsonarista) é arrematado pelas imagens históricas loquazes de Madalena Schwartz, como nos exemplos abaixo.

Foto Madalena Schwartz
Fotos de Madalena Schwartz
Ney Matogrosso
Ney Matogrosso nos Secos & Molhados

Foto de Madalena Schwartz

Foto de Madalena Schwartz

FILIPE CATTO, ELE OU ELA?

Filipe responde, em primeira pessoa:

“Para mim internamente não mudou nada, só esclareceu. Eu me considero não-binária. Na verdade eu sempre me senti assim desde criança, e toda essa experiência e também a terapia etc. me fizeram entender que eu não me encaixo no gênero pré-estabelecido, e que isso é uma posição válida porque eu não desejo necessariamente modificar meu corpo para ocupar uma posição binária. Eu estou bem com meu corpo, e também com ser chamada de ele ou de ela por enquanto. Eu não esquento com isso porque a palavra não é a coisa. O que eu sou é muito além da palavra, da definição. Eu prefiro viver como algo acima de qualquer definição para mim mesma, porque eu gosto de estar aberta para o novo. O corpo é meu veículo, é minha obra de arte nesta Terra, está a serviço do meu prazer e aprendizado. E minha alma é feminina, minha voz é feminina. Para mim isso está em completo equilíbrio por enquanto. O meu trabalho como artista desde o meu primeiro EP sempre foi falando dentro do universo feminino, com uma carga de dor que hoje eu reconheço como meu próprio feminino gritando dentro de mim pedindo para sair antes que eu me destruísse. Eu jamais fui um cantor. Eu sempre fui uma cantora dramática, desde pequena quando me montava escondida de toalha na cabeça e batom vermelho. Era tudo”.

Metamorfoses. Com Filipe Catto, Alma Negrot, Ciro Barcelos, Maria Alcina. No YouTube.

Metamorfoses – Travestis e Transformistas na São Paulo dos Anos 70. De Madalena Schwartz. No IMS (Av. Paulista, 2424). Terça a domingo, das 12h às 18h. Gratuito. Até 26 de setembro.

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