O pioneiro
O pioneiro "Daddy" U-Roy. Foto: Andrzej Liguz/ Divulgação

A não ser para os iniciados no assunto, o nome de Edward (ou Ewart) Beckford não é assim tão popular. Mas se falarmos em U-Roy, nome com que ficou mundialmente famoso, a coisa muda de figura. É o precursor do toasting, o canto falado que veio a dar no rap como o conhecemos hoje.

"Solid gold". Capa. Reprodução
“Solid gold”. Capa. Reprodução

Falecido em fevereiro passado, aos 78 anos, estava em plena atividade: só não estava em turnê por conta da pandemia, mas já havia entrado em estúdio para gravar seu novo disco, “Solid gold” – algo como “Ouro sólido” em tradução livre – disponibilizado nas plataformas de streaming na última sexta-feira (16), pelo selo Trojan Jamaica.

Um ano antes de falecer, U-Roy passou em turnê pelo Brasil, dividindo palcos com artistas como BNegão, MiniStereo Público e Russo Passapusso, Digitaldubs e os fundadores do selo Trojan Jamaica, Zak Starkey e Sharna “Sshh” Liguz.

“Solid gold” nasce clássico por vários fatores: trata-se de reggae da melhor qualidade, contribui para a manutenção do legado de U-Roy, além de, pelo desfile de participações especiais, configurar-se também num belo tributo ao artista e sua obra.

Estão no disco, por ordem de aparição: Ziggy Marley (em “Trenchtown rock”, de Bob Marley), Santigold (“Man next door”, de John Holt), Shaggy (“Rule the nation”, de Ewart Beckford e Arthur Stanley Reid), Tarrus Riley (“Tom drunk”, de Ewart Beckford), Rygin King (“Stop that train”, de Cecil Eustace Campbell), David Hinds (“Soul rebel”, de Bob Marley), Robbie Shakespeare (no medley “Queen majesty”/ “Chalice in the palace”, de Curtis Mayfield, Maxwell Barrington Grant, Ewart Beckford e Tony Robinson), Jesse Royal (“Small axe”, de Bob Marley), Richie Spice (“Wear you to the ball”, de John Holt, Tyrone Evans e Howard Anthony Barrett), Big Youth e Mick Jones (“Every knee shall bow”, de Ewart Beckford) e Scientist Dub (em outra versão quilométrica da faixa anterior, ambas com mais de 15 minutos).

A única faixa que U-Roy canta sozinho é “Wake the town” (Ewart Beckford/ Arthur Stanley Reid), primeiro single a anunciar o álbum, lançado ainda à época daquela turnê no Brasil.

Por e-mail, Farofafá conversou com exclusividade com Sharna “Sshh” Liguz e Zak Starkey, fundadores do Trojan Jamaica – ele também conhecido como baterista do The Who e filho de Ringo Starr.

Sharna “Sshh” Liguz e Zak Starkey. Foto: divulgação

ZEMA RIBEIRO – U-Roy foi o precursor do rap como o conhecemos hoje. Você conhece ou acompanha a cena rap brasileira? Que nomes chamam sua atenção?
SHARNA “SSHH” LIGUZ
– Em primeiro lugar, é tão bom ouvir você dizer isso sobre U-Roy e rap! Essa é a mensagem que queremos enviar ao mundo e dar a ele o reconhecimento que ele merece. No que diz respeito à cena rap brasileira nós sabemos um pouco sobre ela, mas sempre queremos saber mais. Obviamente, BNegão e Planet Hemp. Mas também gosto muito de Djonga, e tem um grupo de rap incrível da Favela da Rocinha chamado Covil do Flow. Na verdade, lançamos algumas faixas com Covil do Flow (“Favelatown” e “Se ela joga”). Todos deveriam dar uma olhada, os caras são realmente talentosos. Fizemos alguns shows com Daddy [apelido carinhoso do músico] U-Roy, BNegão, Covil do Flow e L7nnon quando estávamos lá no início de 2020. A vibração do povo e da música brasileira é tão emocionante. Também gostamos muito do BaianaSystem e Ministereo Público, há um verdadeiro funk neles.

ZR – São Luís, capital do estado do Maranhão, de onde falo, é considerada a Jamaica brasileira e é a única fora da Jamaica a ter um museu dedicado ao reggae. Você já ouviu falar disso?
SL
– Não posso dizer que sim, mas com certeza vou dar uma olhada. Obrigada por nos informar sobre isso. Parece haver uma conexão musical incrível com a música reggae no Brasil, é tão especial. Tínhamos uma noção real disso em todos os lugares que íamos, mas em particular em Salvador, quando tocávamos lá. Da próxima vez teremos que ir a São Luís.

ZR – Podemos dizer que “Solid gold” é uma celebração do trabalho e da importância de U-Roy para a música jamaicana? Como você acha que o U-Roy influenciou a música ao redor do mundo?
ZAK STARKEY
– U-Roy foi uma influência para toda a música jamaicana. Todos os artistas que conhecemos na Jamaica amam U-Roy por sua arte e originalidade. Mas eles também o amam como uma ótima pessoa. Sua influência atingiu o freestyle em todo o mundo até certo ponto, mesmo que por meio de outras rimas influenciadas por ele.

ZR – O disco reúne uma equipe de primeira grandeza. Como foi juntar essa constelação de super estrelas em torno do legado de U-Roy?
ZS
– Foi bom pra caralho! Todo mundo fez isso por respeito ao Daddy U-Roy. Todo mundo disse sim imediatamente.

ZR – Como vocês se uniram em torno do selo Trojan Jamaica e quais são os próximos projetos?
SL
– Fomos abençoados no sentido de que fomos guiados pela música e ela veio antes da gravadora. Fizemos alguns amigos para a vida toda na Jamaica e lá nos sentimos tão em casa e a música fluía livremente. Há muito mais por vir.

ZR – “Small axe”, uma das canções gravadas no álbum, foi traduzida pelos poetas Celso Borges e Fernando Abreu, virou “Machado afiado”, em português, e é uma ácida crítica a governos autoritários. Vocês têm acompanhado a política brasileira, o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro e, principalmente, a gestão da pandemia do coronavírus? Que mensagem teriam para passar ao povo do Brasil?
SL
– Não apoiamos nenhum tipo de fascismo. Acreditamos na liberdade e na igualdade.

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Ouçam “Solid gold”:

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