Sérgio Sant'Anna na intimidade da escrita, em seu quarto, no apartamento em Laranjeiras. Foto: divulgação
Sérgio Sant'Anna na intimidade da escrita, em seu quarto, no apartamento em Laranjeiras. Foto: divulgação

Mas devia.

Tido por muitos, quando de sua morte, como o maior contista brasileiro em atividade – há controvérsias: Rubem Fonseca morrera quase um mês antes e Dalton Trevisan está vivo, isto para citar apenas dois gigantes das formas breves –, Sérgio Sant’Anna foi uma das até agora mais de 530 mil vítimas fatais do coronavírus no Brasil, em 10 de maio do ano passado.

Como anotam André Nigri e Gustavo Pacheco, organizadores de “O conto não existe”, em sua apresentação, “Sérgio Sant’Anna estava na estrada a toda quando teve sua vida interrompida pelo coronavírus”, referindo-se ao fato de que o bruxo de Laranjeiras escreveu literalmente até morrer – deixou ao menos um livro inédito.

Dividido em duas partes, “O conto não existe” reúne entrevistas que Sérgio deu a jornalistas diversos, publicadas em veículos idem, e ensaios, em que o escritor percorre as obras de seus pares – além dos dois citados no primeiro parágrafo, estão lá nomes como Machado de Assis e Murilo Rubião, entre muitos outros.

“A obra que ele deixou é mais importante do que as besteiras que disse. Nelson Rodrigues participou de uma justificação da ditadura, o que acho inconcebível. Sua obra, no entanto, não sofreu nada. De qualquer maneira, como pessoa, ele vacilou naquele momento”, afirma, sobre o autor de “O beijo no asfalto”, para citar outro escritor (e eles desfilam em profusão, ao longo das páginas de “O conto não existe”), numa das entrevistas reunidas no livro.

O título do livro toma emprestado o de um ensaio, publicado em junho de 1973 no Suplemento Literário do Minas Gerais, em que anota Sant’Anna: “Estes críticos que ainda produzem teorizações do tipo “o conto é isso”, “o conto é aquilo”, não estão com nada. O conto não existe”. O citado ensaio é, inteiro, uma saborosa coleção de aforismos, bastante lúcidos e atuais, valiosas lições – também de lá roubo o título deste texto.

É uma introdução profunda à obra e às ideias de Sant’Anna, que certamente acrescenta algo mesmo a quem já era seu admirador ou o lia com certa regularidade. Estão lá as obsessões do autor, como o sexo e a violência, suas predileções no campo da literatura e das artes em geral – o diálogo de sua obra com o teatro e as artes plásticas, por exemplo, é constante –, além de confissões, como ter abandonado vícios como o álcool, o tabaco e o turfe em nome do ofício de escritor, a seu modo.

No ensaio-título já saltava aos olhos a fina ironia, uma das marcas de sua fecunda produção. O livro funciona também como uma coleção de lições de escrita criativa – em 1970, o escritor participou do International Writing Program, da Universidade de Iowa (EUA), que reúne escritores de todo o mundo ao longo de nove meses –, além de cumprir o propósito de homenagear Serjão no ano em que ele completaria 80 anos de idade (no próximo 30 de outubro).

“Há milhares de problemas quanto ao livro: poucos leitores e, consequentemente, a timidez dos editores. Sem uma profissionalização adequada não floresce uma literatura vigorosa. Aos novos, por exemplo, não lhes é dada qualquer oportunidade editorial. O sujeito só continua escritor quando é muito teimoso”, diz Sant’Anna a Humberto Werneck e Carlos Roberto Pellegrino, na primeira entrevista compilada no volume, publicada em agosto de 1969, no Suplemento Literário do Minas Gerais. De lá para cá, pouca coisa mudou, mas desde ali, Sant’Anna já se revelava um grande leitor, condição sine qua non para ser um grande escritor.

Sant’Anna era um autor consciente, longe de qualquer falsa modéstia. Sabia da importância de sua obra, mas não gostava de subestimar qualquer capacidade de influência – dela ou sua em si. Brincava, a sério, dizendo ser pouco lido, calculava ter cerca de quatro mil leitores fiéis, a tiragem média de suas obras. “E ando vivendo. Aos trancos e barrancos. Minha preocupação maior é a de que as pessoas, com a barra em que estamos, não se deixem murchar”, disse em 15 de setembro de 1975, em Movimento, a Luiz Fernando Emediato. Poderia ser hoje.

As entrevistas e ensaios perpassam todas as fases da vida e obra de Sérgio Sant’Anna; temos uma visão panorâmica de um dos nomes mais importantes de nossas letras. Em “Resenha-diálogo, um novo gênero”, o autor literalmente conversa com a crítica (mal-humorada e de má-vontade) de Renato Pompeu – no texto publicado pela Folha de S. Paulo em 19 de setembro de 1982: o escritor “tem espaço na própria resenha para apresentar seus pontos de vista e defender seu trabalho”, um formato no mínimo inusitado.

É interessante notar, ao longo do trabalho, as reiteradas manifestações de Sant’Anna contra a ditadura militar brasileira e as motivações pelas quais escreve(u até morrer): “A resposta mais sincera que eu daria atualmente, aos 46 anos, é a seguinte: escrever hoje dá uma sensação de luta contra a morte. Esta sensação, na verdade, é fútil, porque ninguém vai escapar; tanto faz ter escrito ou não. Mas o ato de escrever me dá a sensação de realizar alguma coisa” é sua resposta à pergunta “Por que você escreve?”, com que Geneton Moraes Neto encerra a entrevista publicada em 13 de agosto de 1988 no Jornal do Brasil.

E não deixa de comentar o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, a atual ditadura, de que afinal, foi vítima, na última entrevista compilada: “Consegue ser muito pior do que a ditadura de 1964. A ditadura de 1964 foi horrível por causa das prisões, torturas, assassinatos, mas economicamente aqueles militares tinham um projeto de Brasil. Esse cara não tem nem projeto para o Brasil. Nada. Ele só ferrou os pobres”, declara a Isabel Lucas, em entrevista publicada postumamente no português Público, de 13 de maio do ano passado, num link com aquela concedida a Geneton Moraes Neto, em que afirma: “É até difícil falar assim, não tenho nenhuma saudade da ditadura. Sob hipótese alguma. Deus me livre que volte!”, roga, mesmo sem ser religioso. Utilizava com frequência as redes sociais para manifestar sua indignação, posicionar-se politicamente.

“Tudo é de certo modo ficção (uma frase de Manfredo Rangel). E dar entrevistas é também uma forma de se fazer ficção. Uma imagem arbitrária e nebulosa que eu tenho do mundo em determinado instante”. Torno ao ensaio-título para dizer que reunir o que disse (em entrevistas) e o que escreveu (em ensaios) que sobreviveram (e sobreviverão) ao tempo, por assim dizer, é a mais bela forma de homenagear o grande ficcionista – não deve ser mero acaso seu livro de estreia, publicado em 1969, chamar-se justamente “O sobrevivente”.

O conto não existe. Capa. Reprodução
O conto não existe. Capa. Reprodução
Serviço: “O conto não existe”. André Nigri e Gustavo Pacheco (orgs.). Cepe, 2021, 228 p.; R$ 45,00 no site da Companhia Editora de Pernambuco.

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