Obra do grafiteiro italiano Tvboy

Exposição no Museu de Arte Contemporânea, no Ibirapuera, mostra como os artistas visuais já reagem à tragédia do coronavírus

 

A Itália foi um dos primeiros países a sentirem com angústia a pandemia do coronavírus, em 2020. Por isso, é uma decorrência natural que boa parte de seus artistas visuais reagissem à circunstância com um esforço de decodificação simbólica do impacto daquilo em suas vidas, em suas percepções. Um bom lote dessa produção desembarcou no final do mês no Museu de Arte Contemporânea (MAC), da Universidade de São Paulo, no 3º andar do seu edifício-sede, no Ibirapuera. A coletiva Além de 2020 – Arte italiana na pandemia tem curadoria de Teresa Emanuele e Nicolas Ballario e apoio do Consulado Geral da Itália em São Paulo e do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo. 

Da pintura à instalação, do grafite ao audiovisual, da dança à escultura, as obras que ficarão expostas no MAC até 22 de agosto, para visitação presencial, refletem uma dupla dificuldade: como retratar algo no qual a gente está imerso e do qual não tem ideia da extensão, e como fazer isso ao mesmo tempo em que aquilo parece estar crescendo, engolfando uma projeção de futuro?

O desenho expressionista de Maurizio Salvini (Disegno per una quarantena, 2020), aves autofágicas, alimentando e sendo alimentadas de si mesmas, contém essa ideia de que a solidariedade não será a marca decisiva dessa crise humanitária, mas sim o comportamento predatório da humanidade. Com cristais de sulfato de cobre recobrindo, como uma “ferrugem” progressiva, cadeiras vintage de madeira nobre, a artista Francesca Romana Pinzari vê, em sua obra It was just an accidente: vol. 2 (2021) um outro aspecto da pandemia na elucidação da natureza humana: a inércia e o “lapso” de consciência deliberado.

Uma das vedetes da exposição é o “Beijo da Pandemia”, como os espectadores estão chamando um óleo sobre tela do grafiteiro e pintor italiano Tvboy, uma espécie de Banksy de Roma, expoente da street art. Em Love in time of coronavirus, Tvboy faz uma releitura de uma tela do romântico veneziano Francesco Hayez (1791-1882), Romeu e Julieta, pintada em 1859, só que pontuada pelos signos da pandemia (álcool em gel, máscaras e falso distanciamento).

Uma escultura de madeira com um homem cuja parte da frente está totalmente esfolada, tecidos com fuligem, uma tenda da Cruz Vermelha no gramado do museu (a qual, embora interativa, o segurança não deixa entrar porque veem risco): os materiais parecem refletir sobre a própria fragilidade da existência frente a algo que nivela todos os países, uma ameaça invisível. Para dialogar com as obras que vieram da Itália, a diretora do MAC, Ana Magalhães, convidou o grupo brasileiro Projetemos, uma rede de projecionistas que se destacou nos últimos 15 meses com criações exibidas nas empenas de edifícios. Essa sala, no final da exposição, mostra a conexão brasileira mais política do momento.

 

 

SERVIÇO:
Além de 2020 – Arte italiana na pandemia. Museu de Arte Contemporânea (MAC), em São Paulo. De terça a domingo. Grátis. Até 22 de agosto.

 

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