Capa do disco Edu canta Zumbi, de 1968

De alvo simbólico, o Quilombo dos Palmares virou hoje alvo geográfico do governo Bolsonaro. O presidente editou nesta terça-feira, 29 de junho, um decreto no qual institui um comitê de gestão da Serra da Barriga, em Alagoas, o local que abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares (no passado, foi ali que se instalou o lendário Quilombo dos Palmares, foco de revolta dos negros contra a escravidão, liderados por Zumbi dos Palmares).

O decreto 10.732/2021 de Jair Bolsonaro tem uma peculiaridade: dá a Sérgio Camargo, da Fundação Cultural Palmares, toda a primazia de definir a elaboração de um plano de gestão na serra e no seu entorno, tanto presidindo o novo comitê (que é formado só por gestores do governo e um representante da Universidade Federal de Alagoas), quanto escolhendo os membros do colegiado. Mas o decreto vai além: os remanescentes das comunidades quilombolas da região (dois de matriz africana e capoeirista, além de dois moradores do município de União dos Palmares) poderão acompanhar as reuniões do tal comitê, mas não terão direito a voto.

Curioso colocar Sérgio Camargo à frente de um plano de desenvolvimento do santuário que celebra a resistência de Palmares. Ele chama Zumbi de “filho da puta que escravizava pretos” e xingou o movimento negro de “escória maldita”. Para atacar Zumbi, Camargo também tem misturado suas diatribes com homofobia, publicando um artigo no qual diz que o líder quilombola era gay (como se isso fosse depreciativo, algo também revelador das bandeiras de intolerância da extrema-direita), gestado pela esquerda, e passou a celebrar a figura da Princesa Isabel, branca, como ícone da data simbólica do movimento negro, o 13 de Maio.

Após matar Zumbi dos Palmares, a coroa brasileira exibiu sua cabeça numa estaca por várias cidades, na tentativa de acabar com as crenças quilombolas que diziam que Zumbi era imortal. De certa forma, tinha razão: até hoje os grupos racistas estão tentando acabar com seu raio de influência e mito libertador.

Tombada pelo patrimônio histórico em 1986 e registrada como patrimônio cultural do Mercosul desde 2017, a Serra da Barriga, em Alagoas (uma área de aproximadamente 28 km2) é um monumento simbólico da luta das pessoas escravizadas no Brasil. Foi ali que, no século XVIII, estabeleceu-se, no Quilombo dos Macacos, a sede do Quilombo dos Palmares. Na paisagem natural e edificada, observam-se, ainda, grande quantidade de palmeiras que, segundo historiadores, deram origem ao nome Palmares. Entre as características da Serra da Barriga estão as nascentes que alimentam um açude e uma lagoa. Esta última, denominada Lagoa dos Negros, é um dos lugares sagrados da Serra, onde os religiosos de matriz africana realizam rituais.

Gilberto Gil canta a Serra da Barriga na bela canção Indigo Blue (Desde a Serra da Barriga/às grutas do coração), e o território do seu entorno, em Alagoas, passou a ser área de celebração das religiões, deuses, mitos, objetos sagrados de cultos, artefatos de uso cotidiano, alimentos, expressões culturais e alguns espaços geográficos mantidos pelos descendentes das pessoas negras trazidas cativas da África.

 

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