A cantora Ceumar em frame de
A cantora Ceumar em frame de "O salto". Reprodução

A parceria de Ceumar e Caco Pontes em “O salto” bem traduz o espírito destes tempos estranhos. A realização do videoclipe foi contemplada pelo prêmio Funarte Respirarte – o edital uma espécie de mergulho no afogar que tem sido a destruição sistemática de tudo o que diz respeito à cultura pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

“A terra em silêncio revela-se um ponto em mutação/ nenhum de nós aqui será o mesmo/ sem medo, saltemos, então”, começa a letra. Todo em preto e branco, as imagens caseiras do videoclipe foram captadas em Itanhandu, interior de Minas Gerais, cidade natal da cantora, e São Paulo, onde Caco Pontes nasceu e vive – imagens de arquivo da Nasa completam o clima de pós-fim do mundo que, afinal de contas, estamos vivendo.

Foi a fotógrafa e videomaker Manoela Rabinovitch quem sugeriu a cada um captar imagens nos lugares em que estavam reclusos, respeitando o isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 – algumas tentativas anteriores não foram satisfatórias para ambos os artistas. O clipe conta ainda com a produção e finalização de áudio de Tiê Coelho Todão, filho de Ceumar.

“Eu já conhecia o trabalho da Ceumar, inicialmente através de parcerias e participações dela em projetos de amigos meus, como Celso Borges e Gero Camilo, e com o tempo fui sacando suas criações vez por outra, até que em 2019 ficamos mais próximos a partir do Festival Líricas Paulistanas, um tributo à Vanguarda Paulista, no qual atuei como curador e diretor artístico, e por termos afinidades em comum com diversos artistas participantes passamos a trocar mais e a partir de então rolou uma aproximação natural, os primeiros motes compartilhados e assim foram nascendo nossas parcerias. Além desta que estamos lançando existem outras em processo”, revelou Caco Pontes com exclusividade ao Farofafá.

Ele continua, falando sobre a concepção e realização do videoclipe, durante a pandemia: “A concepção inicial se deu quando começou o processo de isolamento social ano passado. Ficamos trabalhando à distância, eu em São Paulo e Ceumar em Minas, realizando registros caseiros, a princípio de áudio, passando por algumas tentativas de executar vídeos amadores, que após muita investigação e persistência nas possibilidades, não ficávamos satisfeitos com os resultados na tentativa de montar um duo sincronizado na tela. Então mostrei a faixa musical para a minha amiga e parceira de audiovisual Manoela Rabinovitch, excelente fotógrafa e videoartista, que ficou muito encantada com o material e fez a proposta de um roteiro, no qual ela teve ótimos insights de trabalhar mesclando atmosferas obscuras e interplanetárias, com utilização de imagens de arquivo da Nasa e entre julho e agosto [de 2020] captamos algumas imagens externas em São Paulo também, mas em dias e horários alternativos de pouco fluxo nas ruas, devidamente protegidos, assumindo inclusive os apetrechos como conceito estético, remetendo a astronauta ou viajante do tempo, algo do tipo, na figura que represento no filme, refletindo uma perspectiva urbana e distópica, enquanto Ceumar produziu suas imagens com um viés mais voltado à natureza, criando uma oposição complementar. A edição e finalização do áudio foram feitas pelo Tiê Coelho Todão, que agregou bastante valor técnico em nossa gravação caseira, além de contribuir com algumas captações de vídeo em celular, no convívio com Ceumar”.

Numa época plena de incertezas, censuras, violências e todo o tipo de retrocessos é sempre bom celebrar os que teimam em demonstrar que vale a pena viver – e mais que isso, fazer arte, já que a vida não basta, como bem disse Ferreira Gullar. O poema, a música, o videoclipe, enfim, a parceria de Ceumar e Caco Pontes termina esperançosa: “tudo que se pode viver/ ainda é porvir/ enquanto colapsa/ o planeta em convulsão/ uma luz no fim do túnel / da nossa serena prisão”. Como ensina, em latim, a inscrição da bandeira mineira: liberdade ainda que tardia.

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Assista o videoclipe:

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