“Você acha que eu pensaria estar com essa idade cantando? Imagina, eu achava que não teria mais voz”, diz Claudette Soares, 85 anos essa noite.

Ela canta desde os 10 anos de idade, então são 75 anos de cantoria. Começou no antigo Clube do Guri, um show infantil, acompanhada por ninguém menos que Baden Powell.

Claudette Soares é carioca, mas vive em São Paulo desde os tempos da bossa nova, gênero que ela também embalou no nascedouro. Ronaldo Bôscoli a “exportou” para São Paulo. “Lá você vai criar sua história”. Tinha 24 anos quando veio, e não voltou mais.

Grandes pianistas a acompanharam pela vida afora: Luiz Eça, Johnny Alf, João Donato, Walter Wanderley, César Camargo Mariano, Pedrinho Mattar (com quem ela cantou na Baiúca, ao chegar a São Paulo), Dick Farney (de quem foi parceira em discos fabulosos e de frequentou a casa em São Paulo). “Todos os grandes pianistas de jazz que passavam por São Paulo terminavam na casa do Dick no final da noite. Bill Evans foi, Oscar Peterson foi. Pena que naquela época não tinha um celular”, conta.

Frank Sinatra beijou a mão dela no hall do hotel Maksoud. Tony Bennett também.

Quando Sérgio Mendes precisou de uma cantora para acompanhá-lo nos Estados Unidos, o produtor Armando Pittigliani convidou Claudette. Ela não quis. No lugar dela, foi Gracinha Leporace, que acabou se casando com Sérgio Mendes.

Em 1968, Claudette lançou um disco mítico, cantando Chico, Caetano e Gil. Pensa em refazer o lendário Gil-Chico-Veloso com o trio em 2021.

Em 1971, Roberto Carlos lhe prometeu uma música. Mas ele estava demorando muito, faltava uma semana para seu show estrear e nada. Foi quando ele apareceu com De Tanto Amor. “Ah, eu vim aqui amor, só pra me despedir/E as últimas palavras desse nosso amor…”. Não queriam que ela incluísse, mas ela bateu o pé e a canção se tornou o maior sucesso de sua vida. Ele deu à canção o nome de Despedida, mas não estava gostando. Ela mudou o título.

Ao longo da carreira, disse NÃO muitas vezes e com muita serenidade. “Queriam me empurrar coisas ridículas para gravar”, conta.

Uma vez, nos anos 1950, a Boate Plaza anunciou que Claudette participaria de um grito de Carnaval para cantar as marchinhas de Momo de 1959. “Era tudo truque. Para atrair turistas. A Claudette não, ela não canta Carnaval. Acho o Carnaval maravilhoso, mas não sou carnavalesca”.

Suas frases são na linha Mae West. “A minha maior vingança é estar viva”, ela brinca. “TV é caras e bocas, é muito coisa de atriz. Cantar é mais livre”, prossegue.

Claudette só não acorda cedo. “A vida da gente sempre foi a noite”, ela explica, com mais uma de suas grandes risadas maravilhosas. São Paulo devia lhe estender um tapete vermelho por todas as ruas por onde sua diminuta figura passa.

A live dela hoje, acompanhada do jovem pianista Alexandre Vianna, começa até cedo, 21 horas, pelo YouTube: “Hoje é Dia das Bruxas. Não podia ser em outra data!”, ela ri. Tem convidados: os cantores Ayrton Montarroyos e Alaíde Costa.

“Vou Cantar De Tanto Amor, claro. Se eu não cantar, não sou a Claudette”.

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