Eis um novo exemplo (talvez banal, mas ainda assim bisonho) do grau de turvamento entre valores públicos e interesses privados que vem sendo praticado pela atual gestão do Ministério da Cultura, sob a responsabilidade da presidenta Dilma Rousseff.

Como se fosse uma propaganda de artista ou de gravadora de discos, e não a página de uma instituição de governo, o site oficial do Minc republicou com destaque, ontem, um grande trecho de um artigo assinado pelo jornalista José Nêumanne no Estado de S. Paulo. Reproduzido na seção “Na mídia” do site do MinC, horas depois de o jornalão paulistano ter ido às bancas, o artigo faz franca e explícita defesa da gestão de Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque, contra o espólio de Juca Ferreira e Gilberto Gil, que ocuparam o ministério no governo Lula.

Enquanto uma disputa de bastidores Chico x Gil fica cada vez mais evidente para os olhos públicos, FAROFAFÁ faz questão de indicar a íntegra do texto de Nêumanne, batizado “A velha luta entre o talento e a tutela“. É, por enquanto, dos poucos meios disponíveis para que nossos leitores acessem concepções opostas às que temos divulgado – instituições como o MinC e o Ecad (a corporação dos compositores) seguem se recusando ao diálogo e ao contraditório, a não ser pelo posicionamento de editorialistas e colunistas em veículos como o Estado e O Globo.

Consideramos que há aspectos respeitáveis na argumentação de Nêumanne, mas nos causa espécie e repulsa o fato de o texto vir eivado de preconceitos de classe (entre outros, referentes a gênero e identidade sexual e racial), como os que mal se ocultam atrás da contraposição entre o “pedigree” da família Buarque de Hollanda e o “lumpemproletariado” que, supomos, seria representado por “viralatas” como Gil e Juca. Destacamos dois trechos nós também (com nossos próprios grifos), um sobre a “supremacia” branca e outro sobre o levante negromestiço na “senzala”:

a) “Pois o diabo é que a ministra da Cultura tem, digamos, pedigree para o posto: é filha do professor (da USP) Sérgio Buarque de Hollanda, autor de Raízes do Brasil, obra clássica que ilumina o entendimento histórico e sociológico de nosso país, e de Maria Amélia, Memélia, que virou uma espécie de padroeira do PT de Lula em suas primeiras derrotas para a Presidência. E, convenhamos, a moça é irmã do maior ícone vivo da cultura brasileira, Chico Buarque de Hollanda”.

b) “Casas lotadas por Chico Buarque no HSBC Brasil não tiram fãs dos shows de Criolo. O mercado garante o moço bonito que virou unanimidade nacional e o poeta de vielas das favelas. Ao Ministério e às Secretarias Estaduais de Cultura não cabe tutelar o lumpemproletariado, mas incentivar orquestras sinfônicas e produções de vanguarda“.

(Estranha-nos profundamente que Nêumanne conheça a obra de Criolo, mas deixemos isso para lá, por ora.)

O título concebido por Nêumane remete diretamente a uma composição de Gilberto Gil, “A Luta Contra a Lata ou A Falência do Café”, lançada em 1968 num compacto dividido com os Mutantes , de apreciação e compreensão adiadas desde então pela chamada MPB e suas elites.

O velho rock tropicalista cita Chacrinha, guerra, “plebeias chaminés”, “um velho dono de terras roxas de uma vasta região em nome das grã-finas tradições plantadas em seu coração”, “aristocracia do café”, “navios de café calafetados”, “rasgados velhos sacos de aninhagem”…

Avisando que as “latas” vieram tomar conta dos “balcões”, a canção de Gil arremete então contra “a grã-finagem” que “limpa seus brasões” e “protege com seus sacos de aninhagem velha linhagem de quatrocentões”: “Os sacos de aninhagem já não dão/ a queima das fazendas também não/ as latas tomam conta do balcão/ vivemos dias de rebelião“.

E vem a conclusão, em legítimo bombardeio retórico baiano contra o eixão da aristocracia escravocrata Rio-São Paulo que os Buarque de Hollanda nunca deixaram de representar: “Enlate o seu café queimado/ enlate o seu café solúvel/ enlate o seu café soçaite/ enlate os restos do barão/ a lata luta com mais forças/ adeus, elite do café“.

Com vocês, “A Luta Contra a Lata ou A Falência do Café” (e, mais abaixo, um breve bônus), e que cada um de nós chegue às próprias conclusões.

 

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Toda a turma do Ecad, principalmente os aristocratas do século passado, continuam com uma visão exclusivista da música, é lamentável constatar, mas essas pessoas não querem a popularização de suas músicas, ainda acreditam que a reputação do cantor-compositor esta vinculada a um pseudo-elitismo supostamente presente no público restrito, ou mesmo, de uma qualidade sacralizada, e portanto, não passível de crítica.

  2. A coisa já está ficando surreal. O apoio do Neumanne é coisa pra envergonhar qualquer ministro de um governo progressista. No MINC, é motivo de orgulho…Socorro!

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