Apesar de até utilizar uma vistosa arroba em seu logotipo, a [email protected] Sombrás (Associação de Arranjadores, Músicos e Regentes-Sociedade Musical Brasileira), uma das várias pernas do sistema Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), manifesta não gostar MESMO da internet.

A edição 44 de seu boletim, distribuída em 10 de abril de 2012 (e reproduzida abaixo, na versão enviada pela sociedade por e-mail), veio em duas páginas, sob os emblemáticos títulos “O incrível mito da internet livre” e “Direito autoral sem autor”.

O informe não é assinado, mas anuncia a publicação, “dentro de alguns dias”, de um estudo elaborado por seu presidente, o maestro e compositor Marcus Vinícius de Andrade, a respeito do “mito da internet livre”. Em seguida, põem-se os argumentos que, supõe-se, foram elaborados pelo maestro-presidente e falam pela sociedade inteira:

A Amar Sombrás é dirigida por gente ligada a gêneros que fizeram do nacionalismo parte de sua glória, como o samba e o choro: Marcus Vinícius, Paulo César Pinheiro (vice-presidente), Nei Lopes (diretor-secretário), Maurício Carrilho, Luciana Rabello , Pedro Amorim (diretores).

Curiosamente, a pretexto da defesa intransigente dos criadores musicais (e do ataque , com o qual concordamos, a “informações inexatas, delitos de opinião, preconceitos e abusos de toda ordem” jogados perigosamente na rede-mito “livre”), o texto se alinha completamente a modelos norte-americanos ultracapitalistas de conceituação de “propriedade intelectual”.

Ninguém duvida de que se trata de tema de máxima relevância, que poderia mobilizar debate público vigoroso e acalorado – a partir, imaginaríamos, do Ministério da Cultura de Ana de Hollanda (cujo disco mais recente, de 2009, foi lançado por gravadora dirigida por Marcus Vinícius, a CPC-Umes, de nome inspirado nos ideais nacional-populistas do Brasil pré-ditadura civil-militar).

Discurso à parte, a interdição do debate é praticada por todas as partes envolvidas (inclusive, obviamente, aquelas representadas por Amar-Sombrás-Ecad) (pergunta [email protected] [email protected]: estaria FAROFAFÁ colaborando para interditar o debate?)

Não chega a estranhar que a associação oriunda de retóricas e utopias nacionalistas reconheça o diabo no avanço transnacional do bicho de sete cabeças chamado internet. Enlouquecedor é que, para fazê-lo, tenha de se alinhar com interesses econômicos, capitalistas, que de brasileiros não guardam nem o balanço nas ancas.

“Propriedade intelectual”, no mundo hipercapitalidta, equivale sem tirar nem pôr a patente farmacêutica, logomarca de empresa multinacional, grife não pirateada de roupa ou CD, perfume Chanel, o deus ex machina das religiões mainstream, e assim por diante. Arautos nacional-socialistas do sistema Ecad (o cego-surdo-mudo Chico Buarque à frente, ou pior, na retaguarda-lanterninha simbólica) defendem a sacralidade, a preservação e a “pureza” da obra de arte e dos artistas como se eles fossem araras, tatus-bola, jaguatiricas, sanguessugas, matitas-perês, tinhorões, tucanos, micos-leões-dourados, demônios-da-Tasmânia, grous-coroados. Alguma coisa derrapou e caiu fora da pista no longo caminho entre o A e o Z. Alguma coisa está fora da ordem, como diria o velho guru nacional-tropicalista.

Ainda que ajude a interditá-lo, FAROFAFÁ sonha arejar o debate, e por isso publicamos os dois tópicos anteriores, assinados por Tim Rescala e Alexandre Negreiros. Embora francamente desfavoráveis ao Ecad (que, de resto, tem se recusado a dialogar com este site), são esclarecedores a respeito das implicações multinacionais e ultracapitalistas do sistema Ecad como ele funciona hoje em dia.

Enquanto o debate olho no olho não vem, seguimos com o boletim da Amar  Sombrás, no infralink denominado “Direito autoral sem autor”.

Nesse trecho, o texto se insurge contra Hermano Vianna, de sabida influência informal nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC. A intenção, nobre apesar de atrapalhada, é se contrapor à visão radical de Hermanno – que, de fato, ao que dá a entender o trecho eleito, parece propor uma volta da humanidade aos tempos em que não existiam direitos autorais ou propriedade intelectual. De volta aotempo em que araras e ariranhas corriam soltas pela pradaria?

O problema começa na matriz que a Amar Sombrás elege para declarar guerra a Hermano, Gil, talvez Regina Casé (com quem Hermano trabalha no chacriniano programa global de inclusão sociomusical “Esquenta”), quem sabe o eternamente indeciso Caetano Veloso.

Entre as “muitas vozes” que “têm se levantado”, elege a de José Nêumanne, articulista conservador-reacionário-emtreguista d’O Estado de São Paulo, especificamente no artigo “A velha luta entre o talento e a tutela“, uma cachoeira cerebral feita sob encomenda para a defesa explícita e supostamente apaixonada do elitismo e do, como ele diz, “pedigree” na música brasileira. Do tempo em que os cachorros viralatas planavam soltos por planícies e planaltos.

“A Amar está com Nêumanne e não abre”, encerra expediente, retumbante, o boletim. Sim, a Amar está com Nêumanne. O Ecad está com Nêumanne. E o MinC de Ana de Hollanda também está com Nêumanne – como evidenciou ao republicar seu artigo de opinião unilateral em seu SITE oficial, de governo, de Estado – FAROFAFÁ apontou este estudo na réplica “A luta contra a lata (e a falência do café)“.

Eis, aí, o grande nó cego-surdo-mudo que tem levado nosso SITE a questionar diuturnamente as atitudes de Ana de Hollanda (e de sua preceptora, Dilma Rousseff) na condução do Ministério do Ecad Em vez de se colocar como árbitro minimamente equidistante entre os lados em disputa, o órgão máximo da cultura brasileira elegeu postar-se intransigentemente ao lado de um dos lados. É isso que nos leva a dizer e repetir, em tom de lamúria, que o MinC 2011-2012 não consegue (ou não quer) distinguir valores públicos, repúblicanos, de interesses privados, corporativistas, entreguistas, que nunca nem visitaram os Estados Unidos (da América), mas já voltaram de lá norte-americanizados.

O Brazil está matando o Brasil?

Ou (em leitura mais otimista-realista) seria o inverso?

 

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