Não é um casaco de general, mas tem muito mais autoridade. É com ele que Arnaldo Dias Baptista toca piano na capa de seu lendário disco Singin’ Alone, primeiro lançamento do igualmente lendário selo Baratos Afins, de 40 anos atrás.

Pois bem: precisando levantar recursos para sua subsistência, um dos mais importantes e originais artistas brasileiros da música, cérebro da formação clássica do grupo Os Mutantes, está colocando à venda seu casaco inglês battle dress.

“Num sentido, de comprar e trilhar; eu compartilho, uma ‘Battle-Dress’ inglêsa. Para, desapegar; ‘das coisas materiais’, que me dão prazer”, escreveu Arnaldo sobre a rifa. Além de ter sido usado na capa do disco Singin’ Alone e no clipe original de lançamento do seminal álbum “Loki?”, com a música Será Que Vou Virar Bolor, o casaco também fez parte da exposição Transmigração, na qual Arnaldo exibiu as telas que pinta há décadas, na Caixa Cultural São Paulo, em 2016.

Segundo informa sua assessoria, Arnaldo comprou o casaco em Portobello Road, famosa rua de comércio de quinquilharias ao ar livre e lojas de antiguidades de Londres, quando em viagem com Os Mutantes para comprarem instrumentos na Inglaterra. Carrega mística e história. O modelo é inspirado nos uniformes de setores do exército inglês (marcados pela cor vermelha e tendo como base os figurinos de 1840). Os Beatles usaram casacos semelhantes, só que longos, na capa do disco conceitual Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967).

“A ação de rifar uma das poucas peças daqueles tempos que Arnaldo conseguiu levar consigo pós 1982 é uma necessidade, uma necessidade de sobrevivência… Daí a ideia de propor uma troca – os fãs e admiradores de Arnaldo têm a oportunidade de ajudá-lo, com a possibilidade de possuir essa raridade, que Arnaldo acredita será muito bem cuidada por quem tiver a sorte de ganhá-lo”, diz nota do artista.

A rifa tem 2 mil números a R$ 50,00 por número. O sorteio acontecerá quando pelo menos 80% dos números forem adquiridos. A plataforma de sorteio, bem como a data, serão anunciadas nas mídias sociais de Arnaldo uma semana antes do sorteio.

Link para a rifa:

https://botanarifa.com.br/arnaldobaptista-memorabilia

Boa sorte! #compartilhe #AjudeoArtista #DecolandoTodasAsManhãs

Qualquer dúvida sobre esta ação, favor entrar em contato direto com a equipe de Arnaldo pelo email:

movimentoarna[email protected]

LEIA ABAIXO TEXTO SOBRE OS 40 ANOS DE SINGIN’ ALONE, ESCRITO A CONVITE DE ARNALDO
SINGIN’ ALONE
Ao longo dos últimos anos, os avanços na tecnologia de gravação de sons tornaram a tarefa de gravar o chamado “one man band record”, ou o disco da banda de um homem só, relativamente descomplicada. Mas, nos anos 1970 e 1980, um artista da música fazer um disco sozinho, tocando todos os instrumentos, dominando as artimanhas de estúdio, tudo isso era algo delirante, quase inimaginável. Poucos se atreveriam a tal façanha. Paul McCartney ousou, e foi dessa forma seu primeiro disco pós-Beatles, o álbum McCartney (1970). Mike Oldfield, quando tinha apenas 19 anos, gravou sozinho o espantoso Tubular Bells (1973). Steve Winwood gravou sozinho Arc of a Diver (1980), assim como Prince fez Dirty Mind (1980) e John Fogerty, ex-Creedence Clearwater Revival, arriscou fazer em Centerfield (1985).
Evidentemente, aventurar-se em tarefa desse porte sempre foi coisa para artistas com um formidável domínio da composição, com talentos de multiinstrumentista e, mais do que isso, com uma formulação estética precisa e arrojada. Não bastava dominar as artes da concepção e da execução, mas sonhar um sonho de premonição, adiantar-se aos eventuais desafios de estúdio e palco, antever o futuro. Arnaldo Dias Baptista, ex-frontman da revolucionária banda Os Mutantes, foi um dos raros artistas brasileiros a conduzir tal sorte de delírio com seu disco solo Singin’ Alone, gravado por volta de 1980 e lançado pela primeira vez no Brasil em 1982, pelo selo Baratos Afins (foi o primeiro lançamento deste selo alternativo). Arnaldo, obviamente, conhecia e tinha se maravilhado com as pérolas que Paul McCartney tinha lapidado sozinho, como Maybe I’m Amazed e Every Night. Mas Arnaldo tinha uma meta diferente: a de projetar o próprio espírito em uma pequena coleção de canções, ou, como ele definiu, abranger “linguagens, espectros, pensamentos, entidades” em um artefato artístico.
Na virada dos anos 1970 para os anos 1980, Arnaldo vivia no coração da gigantesca metrópole São Paulo, na Avenida Angélica. A viagem mística dos Mutantes tinha acabado e ele tocava, como todos os rock stars, com uma banda de turnê, grupo que até o acompanhou no desenvolvimento de alguns dos temas desse disco. Mas, um dia, após uma viagem aos Estados Unidos, Arnaldo entrou sozinho no estúdio acompanhado apenas do engenheiro de som Helder Marques e da companheira de então, Suzana Braga (que fez vocais de apoio nas canções The Cowboy e Corta Jaca), e gestou esse maravilhoso Singin’ Alone, o mais planetário de seus discos, com quase todas as letras em inglês. Algumas canções, contou o engenheiro de som, Arnaldo gravou em apenas um único “take”.
Inicialmente, apenas 3 mil cópias em vinil desse disco foram produzidas no Brasil e hoje são raridade. Foi relançado em CD em 1995 pela então Virgin-EMI. O álbum tornou-se disponível em streaming a partir de 2013 e em 2015 saiu em uma caixa CD, junto com outros quatro solos de Arnaldo pela A Loja de Discos. Em 1982, no ano em que o álbum foi lançado, Arnaldo estava convalescendo de um grave acidente. Era como se tivesse projetado a sua consciência para fora do corpo, depositado suas visões em uma obra aberta. “Decolando deste chão/E no vôo submerso/Meu carro se desdobra, corta/E alcança o tempo atrás de mim”, ele canta, em Ciborg, uma das 12 canções do disco. O conceito do espaço-tempo de Einstein, as viagens no tempo de Stephen Hawking, os paradoxos da Física, a consciência cósmica e os mistérios da mediunidade: tudo estava embalado na mesma viagem.
Nas 12 canções, Arnaldo sedimentou uma travessia existencial que ia adiante de sua produção anterior, permeada pela multiplicidade de vontades e sentimentos das criações coletivas. Em Singin’ Alone, ele se volta para uma vertiginosa viagem interior, à moda de um monge que se isole no alto de uma montanha para sentir as vibrações do universo (embora a sensação de ouvir o disco seja a de ganhar um ticket exclusivo para a experiência humana, num trem só de ida).
Manuseando os temas-chaves da universalidade (morte, vida, amor, perda, solidão), Arnaldo testou seus próprios limites. Foi à bateria, foi à guitarra, foi ao contrabaixo. Filho da pianista, concertista e compositora Clarisse Leite Dias Baptista e do jornalista, poeta e cantor lírico César Dias Baptista, Arnaldo sempre teve o piano como o instrumento de partida. “O lado piano me dava mais liberdade no sentido de emoção. Na guitarra não consigo tanta inspiração de paixão, coração, como no piano”. Mas ele transcendeu até essas artimanhas da predileção, lançou mão de sutis artesanatos (uma gaita, um pandeirinho, uma caixinha de música), e o resultado é espantoso.
Ele começa justamente pela aura do piano e pelo envolvimento com a figura feminina (a mãe e a mulher), em I Fell in Love One Day, um tema pungentíssimo, entre a ruptura e a reconectação, entre o Liebesträume de Franz Liszt e um solo de Rick Wakeman no Yes. “My time is running slow down/And all she has to say is ‘sing your song, boy’”, canta Arnaldo, como se assinalasse um rito de passagem.
Sitting on the road side está envolta numa atmosfera de puro Lou Reed, um clima Perfect Day, mas com um stride piano que remete às paisagens que Arnaldo tenta nos trazer do profundo Sul norte-americano, à maneira de um beatnik desregrado. “Vou pro Sul de carona/Queria ter uma moto/Montanhas parecem funcionar bem/Pra me ajudar na longa viagem”. O título da canção parece ser uma alusão divertida a um grande sucesso popular brasileiro, Sentado à Beira do Caminho, de Roberto e Erasmo Carlos.
Um blues acaipirado, uma moda de viola, um bluegrass de salão: a faixa Corta Jaca é um híbrido de gêneros, uma canção na encruzilhada cultural, na fronteira de muitas influências. “Estão pensando que isso é rock’n’roll?”, canta Arnaldo, debochado. “Estão pensando que isso é cha cha cha?”. Mas a confusão que ele busca é também a própria diluição da identidade nacional que ele confessa: “Aonde foi parar minha boiada/Meu sertão, meu preto velho, me oriente, por favor”, conclui o artista, finalizando com uma gaita pungente, dylanesca, folk.
Há um sentido de investigação estética contínuo no álbum. Coming Through the Waves of Science (“Penetrando pelas ondas da ciência/Achei meu jeito de ver você”) pode ser vista como uma manifestação de extremado romantismo, mas também como uma visão do espírito da modernidade – a comunicação entre os seres humanos mediada pela tecnologia, potencializada pela tecnologia, diluída pela tecnologia.
Jack Bruce, baixista do lendário grupo britânico Cream, que Arnaldo Baptista ama, dizia que tinha escolhido tocar o baixo para “segurar a música no topo”. É exatamente isso que Arnaldo faz ao tocar o baixo como instrumento de frente na canção Cowboy, um desafio de mostrar as aberturas melódicas do contrabaixo e permitir que a estratégia jazzística da improvisação tome conta da canção.
Munido sempre das armas da ironia e do bom-humor, Arnaldo cria uma doce boutade musical em Jesus Come Back to Earth, relacionando a fé no retorno do Messias às dádivas de seus predecessores no rock’n’roll, como Elvis Presley e os Beatles, que gravaram Blue Suede Shoes, de Carl Perkins, respectivamente, nos anos 1950 e 1960. “Jesus, bring bring rock’n’roll, and gett off from my blue suede shoes!”, brada o cantor.
Train e Youngblood (na qual Arnaldo arrisca um maravilhoso solo de guitarra) dialogam com a música de todos os tempos, desde o Delta do Mississippi até os ruídos dos pinballs da Rua Augusta, em São Paulo. Youngblood vai da atmosfera épica das canções e alegorias de Elton John, seus batons com gosto de mel, aos blues excomungados dos Rolling Stones. Train, buscando alguns eflúvios entre Leadbelly e Muddy Waters, fecha o disco com uma amosfera de estrada permanentemente aberta.
Talento admirado em todos os quadrantes do planeta, por seu visionarismo, a música de Arnaldo Baptista foi saudada por artistas de diferentes esferas, como Kurt Cobain, Sean Lennon, Tame Impala, Beck, David Byrne, Radiohead, Stereolab, Tortoise, High Lamas e Wondermints. O maestro, violoncelista e arranjador Rogerio Duprat, figura de proa da Tropicália, declarou sobre a inserção de Arnaldo Baptista em seu tempo: “Os Mutantes foram a coisa mais importante do Tropicalismo. E ninguém conseguiu deixar isso claro. Mas eu sei bem disso, que a cabeça de tudo, a cabeça dos Mutantes, era o Arnaldo Baptista. Digo e repito: o Arnaldo Baptista é responsável por tudo que aconteceu de 1967 pra frente”.
Apesar de ter produzido clássicos inquestionáveis da música pop mundial, o que inclui o álbum solo Lóki (1974), um dos mais influentes na música brasileira, Arnaldo não tem dúvidas em colocar Singin’ Alone como o seu álbum favorito entre os que legou ao futuro. Era, como quase toda sua produção, um trabalho à frente do seu tempo. “Nele eu me satisfaço porque sou só eu. Por mais que eu tivesse me envolvido com músicos bons, sempre havia um senão que eu não gostava”, ele explicou. Nem precisava explicar nada, a música que ele decantou é um manual para a liberdade.
(Album liner notes by Jotabê Medeiros,Brazilian journalist and writer, bestselling author of Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano and Raul Seixas – Não diga que a canção está perdida)

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