Um Judas na cabeceira da Ponte do São Francisco. Foto: Guta Amabile
Um Judas na cabeceira da Ponte do São Francisco. Foto: Guta Amabile

A tradicional malhação de Judas, realizada no sábado de aleluia, também foi prejudicada pelo confinamento imposto pela pandemia de coronavírus. Realizada em bairros da periferia de São Luís, onde em geral, vizinhos aporrinham-se uns aos outros, a mais popular na ilha é a realizada na Rua Jansen Müller, em frente ao casarão 42 da rua, no Centro da cidade, onde fica a sede do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte.

Fundador do Laborarte, em 1972, o jornalista e compositor Cesar Teixeira escreveu os testamentos de Judas para a casa entre 1990 e 2005, acervo reunido pelo editor Bruno Azevêdo, com organização do historiador Wagner Cabral, professor da UFMA, em “Os testamentos de Judas” [Pitomba!, 2019].

Ano passado Cesar Teixeira reassumiu a tarefa, tendo sido possivelmente o primeiro a registrar a ligação da família Bolsonaro e as milícias de sua entourage com o assassinato de Marielle Franco. Anotou, nos versos de há um ano: “Todo crime tem mandante,/ eu deixo aqui o meu faro./ Primeiro a arma, a bala;/ depois o dedo, o disparo./ A sombra bate na porta,/ Marielle está morta/ a mando de Bolsonaro”.

A malhação do Judas este ano deve ter ficado confinada ao ambiente virtual, embora este repórter tenha visto um, na cabeceira do lado do Centro da ponte do São Francisco, paramentado com a faixa verde-amarela no peito, só utilizada fora da cerimônia de posse por duas pessoas: Hubert, humorista da trupe do Casseta & Planeta que imitava o então presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, e o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Confinado, ao ser indagado se este ano haveria testamento, Cesar Teixeira me respondeu: “Não sei se terei tempo suficiente (muitas tarefas caseiras). Mas assunto não falta…”. Hoje ele enviou por e-mail o Testamento de Judas 2020, que Farofafá publica em primeira mão.

O jornalista e compositor Cesar Teixeira. Foto: Aniceto Neto
O jornalista e compositor Cesar Teixeira. Foto: Aniceto Neto

TESTAMENTO DE JUDAS

Cesar Teixeira

Com mão trêmula escrevo
meu Testamento apressado,
peguei o Coronavírus
antes de ser enforcado.
Também fui traído um dia,
o tal de Jair Messias
me apontou como culpado.

Deixo para o Bolsonaro
um caminhão Lava-Jato
pra lavar tanta sujeira
do cabelo até o sapato.
Incendeia feito Nero,
se o Brasil perde de zero
lava as mãos feito Pilatos.

É assim que a Pandemia
no rendez-vous brasileiro
fez cordeiro virar lobo
e lobo virar cordeiro.
O povo vai pra janela
bater na sua panela,
sendo do Pinico herdeiro.

Esse Lobo disfarçado
com um lenço no focinho
logo será devorado
pela Vó do Chapeuzinho,
e vai entrar pelo cano
com os seus milicianos
arrastando os três porquinhos.

Deixarei pro Paulo Guedes
o Fundo de Investimentos
para esconder no bolso
do seu próprio empreendimento.
Esse banqueiro sagaz
aposentou Ferrabrás
pra mode enganar jumento.

Na estrofe que eu deixo
pro ministro Luís Mandetta
quase escapa outra rima
desta minha azul caneta.
Ele foi contra o aborto,
levou a Dilma pro Horto
e os Mais Médicos pra sarjeta.

A máscara da vergonha
deixo pro ministro Moro,
para cobrir o seu rosto
nesta falta de decoro.
E para a cegueira branca
da Justiça, que empanca,
deixo a luz do desaforo.

Para o general Heleno
deixarei as ataduras
que foram do Bozovírus
na facada que não fura.
É o sarcófago letal
que promove o general
a múmia da ditadura.

Na Zona do Meretrício
vou deixar meu violão.
Já botei Rodó no bolso
e a chita do fofão.
Para matar esse vírus
da família dos vampiros
já estou de pau na mão.

A sunga de Patativa,
neste torneio profano,
dá pra fazer uma máscara
pro amigo Corinthiano.
Mas, se fosse da Faustina,
dava pro time da China
e ainda sobrava pano.

Pros amigos cachaceiros
deixo essa “gripezinha”,
mas proponho isolamento
com a sogra e a cachorrinha.
Sem boteco, a gente inventa:
meu barril de álcool 70
já virou caipirinha.

Vejo índios e posseiros
sendo mortos na floresta,
e, enquanto os fazendeiros
fazem do vírus a festa,
restam aos filhos da terra
as balas e motosserras
de uma fúnebre orquestra.

Na televisão, nas redes
sumiram numa semana
os casos de Marielle,
Brumadinho e Mariana,
enquanto um navio afunda
no Maranhão feito bunda,
pensando que a merda é plana.

Lá no relógio quebrado
da Praça João Lisboa
batem as mudas seis horas
da morte que em mim ressoa.
Todos sabem que o caixão
do Diabo vai de avião
e o do Judas de canoa.

Sei que Ribamar Moraes
não precisa de Álcool em Gel,
ele foi pro Paraíso
tirar foto de Noel.
Dar-lhe-ei esse meu terno
quando eu for lá pro Inferno,
que fica depois do Céu.

Esse breve Testamento
só me deu consumição,
é difícil fazer versos
sem dizer um palavrão.
Pra sair na internet
fui no Dicionário Aulete
antes da execução.

Deixo, enfim, a Cloroquina
pra quem é anjo e tem asa,
o Trump e o Bolsonaro
vão num foguete da NASA.
Mas, recomendo aos amigos
pra não correrem perigo:
é melhor ficar em casa.

FIM?

5 COMENTÁRIOS

  1. Eu já tinha pensado numas máscaras de fôrro de calcinha, as de Faustina dava pra fazer um bocado. Lembrou o nome de um cabaré das estradas, Maria Limpinha, oferece o opcional usada ou lavadinha.

  2. Boneco exposto em áreas frequentadas por trupes ” engajadinhas”. O mundo dos ” engajadinhos” , dentro da Ilha, vai da Federal até o Centro, chegando à Praia Grande e passando pela Madre Deus. Nas perifas, regiões onde pessoas precisam vender seus cafés e dirigir caminhões, compreende-se muito mais a questão do chamado isolamento vertical.

  3. Sou crítico de algumas falas do Presidente? Sou! Acho que ele viaja na maionese muitas vezes. Quarentena é algo sério e deve ser cumprido ao máximo , mas sejamos críticos: há forças nefastas a querer manter o povo permanentemente nesta situação. E FORÇAS SEDIADAS NO HEMISFÉRIO NORTE. E assim: não compreender a situação de pessoas que carecem trabalhar no meio deste caos, atesta duas coisas: 1- a ESQUERDA enxerga o pobre dentro de caricaturas ( Mano Brown deu a real sobre isso ), 2- a ESQUERDA não possui NENHUMA SENSIBILIDADE SOCIAL COM O POBRE, enxergando-o apenas como parte de uma máquina estatal socialista e confiscatória.

  4. O PRESIDENTE tem falas vacilantes, de facto. A Quarentena deve ser cumprida, mas sob olhares críticos: FORÇAS POLÍTICAS SEDIADAS NAS DEMOCRACIAS CAPITALISTAS E NA CHINA desejam prolongar esta quarentena para além do CORONAVÍRUS.

  5. Por fim: o descompasso existente entre o “Pensamento Artístico Engajado” das classes alternativas e socialistas e a mentalidade das pessoas mais pobres é gritante. O pensamento engajadinho dos alternativos e das esquerdas mobilizadas seria motivo de pilhéria e desconforto caso fosse apresentado, sem máscaras, na periferia social.

    O povo das periferias sociais da Ilha é conservador, portanto nada tem a ver com a bolha “alternativo-ufmiana”, que se espraia da Federal até os points vermelhos do Centro Histórico.

    “Tá okey”?

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