Caricaturista há 46 anos, o carioca Cássio Loredano, de 71 anos, é um dos maiores artistas do traço. Seus desenhos, uma desmontagem do ser humano, como definiu Millôr Fernandes, já ilustraram páginas de jornais como O Globo, O Estado de S.Paulo e revistas como Veja. Em 1995, ele ganhou uma bolsa para estudar um pioneiro da charge e da caricatura, o carioca J.Carlos (1884-1950), gênio do art déco, e desde então ele se tornou o maior especialista na obra do desenhista. Está há 24 anos esclarecendo aspectos e produzindo livros sobre aquele que considera um dos maiores talentos do mundo no desenho. “Eu não sabia nada sobre ele quando comecei a pesquisar. Era uma vergonha. Todo médico sabe a história dos patronos da medicina, todo advogado sabe de onde veio o Direito. Mas a gente, cartunistas, não sabia nada sobre nosso maior nome”.

Nesta sexta, Loredano vem a São Paulo para acompanhar a montagem de uma das maiores exposições já organizadas com a arte de J.Carlos, exibindo 300 originais do artista. A mostra J.Carlos – Originais abre no próximo dia 17, às 18 horas, no Instituto Moreira Salles (Avenida Paulista, 2424) e merece um termo de uso raro: é simplesmente imperdível. As caricaturas de Stalin, Hitler, Churchill, Getúlio Vargas estão entre as grandes radiografias da alma humana já produzidas. Conversamos com Loredano sobre esse grande mito dos desenhos, José Carlos de Brito e Cunha, precursor da consciência crítica nacional.

 

Na exposição de J.Carlos, chama a atenção o perfeito estado de conservação dos originais que estão expostos. Como é que esses originais mantiveram essa qualidade?

Isso aí é devido ao apostolado do filho dele, Eduardo Augusto. Ele cuidava todo dia, olhava. Algumas coisas do acervo são revistas com mais de 100 anos, é inacreditável, parecem novas. E ele vivia em Petrópolis, uma região úmida, com muita cerração. Foi um trabalho heroico. Eu cheguei à coleção dele por acaso. Tive a grande felicidade de ganhar uma bolsa, em 1995, para fazer um trabalho sobre a obra de J.Carlos, mas estava quase desistindo. Não encontrava nada, e o que havia nas grandes coleções, como a da Biblioteca Nacional, estava muito maltratado pelo manuseio. Foi quando alguém me disse: “Você já foi a Petrópolis? O filho do J. Carlos tem um material lá muito bem guardado”. Eu fui e custei a acreditar. O filho do J. Carlos já estava também muito idoso, achei que devia haver uma continuidade do trabalho de manutenção e levei até a casa dele o diretor do Instituto Moreira Salles, o Flávio Pinheiro. Mostrei a ele o tesouro e disse da minha preocupação daquilo se dispersar depois, e o instituto resolveu abraçar a causa. Assim, o pesquisador do futuro continua tendo a sorte que eu tive.

A mostra já esteve no Rio e agora chega a São Paulo. Qual a diferença das duas?

A diferença é o catálogo. Aqui em São Paulo haverá um magnífico catálogo com as reproduções dos desenhos. É algo que me deixou babando.

Vamos agora à parte controversa: olhando as caricaturas, as charges, os cartuns de J. Carlos, a gente nota que o tratamento dado aos negros é um tanto preconceituoso. Há um cartum de um bonde em que há meninos negros de carona na rabeira do veículo e todos parecem um só, estandartizados, simiescos, maltrapilhos e quase estúpidos. Isso era um espírito de época?

É lamentável, obviamente. Mas tem que se compreender o seguinte: J. Carlos dialogava com os poucos brasileiros que podiam ler, todos brancos e a maioria racista. Quando eu nasci, em 1948, e J. Carlos morreu em 1950, 50% dos brasileiros eram analfabetos. A imagem que se vendia do Brasil ainda era de um Brasil branco, português, e o País fingia não saber que seu maior escritor, Machado de Assis, era negro, que Lima Barreto era negro.  O brasileiro não enxergava a evidência, como ainda não vê, da grandiosa presença intelectual, atlética, cultural do negro no País. O próprio negro não sabe e, naquela época, menos ainda, porque eram quase todos analfabetos. Os desenhos mostram essa unanimidade em relação ao negro, em relação às mulheres. Mas é um aspecto de circunstância histórica. A obra é brilhante. As perguntas que eu me faço são: como surgiu um desenhista desses no Brasil? Um talento desse porte?

É possível ver uma correspondência muito grande entre os desenhos de J.Carlos e os movimentos artísticos europeus…

Ele era um leitor voraz de revistas, de artigos sobre a arte europeia.

E é possível pensar que ele tivesse uma forte inspiração de Toulouse-Lautrec…

Deve ter. Todos tinham. Aqueles caras todos tinham, como (Aubrey) Beardsley.  A questão é: como um malandro desses, aqui no Rio, sem jamais ter posto os pés fora, podia ser tão antenado e original? Um observador da obra dele viu os cartuns sobre a Guerra Civil Espanhola e não se conteve, não podia imaginar como J. Carlos podia ser tão minuciosamente informado sobre um conflito que nunca presenciou. Você veja por exemplo caso do Tratado de Versalhes, que Keynes interpretou como um caso de a França escrotizando a Alemanha ao ponto do insuportável. Quinze anos antes da Segunda Guerra, J.Carlos fez um cartum no qual ele desenha a Germânia (Alemanha) amarrada num pelourinho sendo açoitada pela França e prevendo que, em 20 anos, aquilo poderia voltar como um espírito de revanche. Tinha uma antevisão inacreditável.

Naquela época, as fotografias não eram ainda um elemento do jornalismo cotidiano, os cartunistas é que preenchiam essa função da imagem, não?

Foto não tinha. As oficinas eram ótimas, podiam reproduzir coisas fabulosas, mas somente depois da Segunda Guerra é que a imprensa passou a usar a fotografia, que as capas da revista Cruzeiro passaram a conter fotos. O desenhista era o grande cronista visual daquele tempo. E nós tivemos a sorte de ter dois dos maiores, Belmonte e J. Carlos, os dois humanistas, os dois antinazistas. A publicidade era toda desenhada, tudo era desenhado. Num País analfabeto, tinha que se falar pela imagem.

E J.Carlos nunca pisou na Europa mesmo?

Nunca. O máximo que viajou foi até Buenos Aires para uma semana, em 1907, numa excursão de jornalistas. Ele era o principal desenhista da revista Careta e, uma vez, por causa de alguns desenhos sobre o marechal Hermes da Fonseca, então presidente da República, que o desagradaram, ele mandou invadir a revista e prender o seu diretor. J. Carlos se refugiou em São Paulo, o outro lugar mais distante onde esteve, e ficou algumas semanas escondido. Ele voltou a São Paulo depois para uma exposição de 50 de seus desenhos em uma galeria.

Uma das seções da exposição mais inesperadas é a dos quadrinhos para crianças que ele fez. Tem tiras sequenciais de 1928, o que mostra um avanço em relação à época.

São tiras ultramodernas, algumas circulares, outras ovais. Ele adorava criança, tanto que teve seis crianças. Tinha um espírito meio moleque, sacana. Tem um cartum que um personagem pergunta porque um moleque está chorando e um outro responde: “Bateu com a cabeça numa pedra”. “Que pedra?”, retruca a mãe. “Uma que eu atirei”.

 

 

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