“Um lamento triste sempre ecoou/ desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro e de lá cantou/ negro entoou um canto de revolta pelos ares/ no Quilombo dos Palmares, onde se refugiou”, proclama desde 1976 o Canto das Três Raças, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, eternizado pela mineira Clara Nunes.

Na madrugada chuvosa de sexta-feira, brilharam no palco paulistano do Beco 203, na Rua Augusta, uma índia paraense do bairro pobre do Jurunas, em Belém, e um negro paulista do quilombo do Cachoeira, região montanhosa na zona noroeste da capital. A dona do show (e rainha do tecnobrega), Gaby Amarantos conta no fim, cheia de orgulho, que um “brega” paraense defendido por sua voz será tema de abertura da próxima novela das 7 da Rede Globo.

Para reencenar com ela o Canto das Três Raças, Gaby chama ao palco o rapper paulistano Emicida. Ela tece loas à “nova música brasileira”, capaz de congregar num mesmo espaço a descontração do tecnobrega paraense e a concentração do rap paulista. Ele improvisa rimas de protesto contra a ocupação policial do bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, e da Cracolândia, no centro da capital, e contra os governantes paulistas.

O público jovem de classe média alta, que já vinha abaixo diante dos comandos pop e das luzes de aparelhagem grudadas ao figurino de Gaby, vem abaixo com as provocações de Emicida. “Pinheirinho! Pinheirinho!”, entoa a plateia no fim do Canto das Três Raças, juntando ao coro um slogan-palavrão direcionado, algo erroneamente, ao prefeito Gilberto Kassab. Estamos diante de uma cena símbolo das transformações vividas pelo Brasil e por aquilo que Gaby chama de “nova música brasileira”.

Texto publicado em 27 de janeiro de 2012 no “Estado de São Paulo”. Leia na íntegra aqui.

 

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