Ontem à noite, lá no Twitter, meu @pdralex fez uns comentários talvez um tanto embebidos em vinho sobre o especial de Roberto Carlos no Maracanã.

Mas, revendo hoje, creio que posso repeti-los todos, os comentários, sem muitas vírgulas ou reparos.

O reencontro com Erasmo Carlos foi absolutamente emocionante, à parte os clichês à la “Amigo”. “Sentado à Beira do Caminho”, lançada quando Roberto desembarcara da jovem guarda e quando o principal (e fundamental) parceiro deu uma descarrilada por não saber que caminho tomar, sempre foi o tema de Erasmo, por excelência. Mas, quando Roberto foi vencido pela emoção (isso não é assim tão frequente, à parte os clichês de “Emoções”) e se deixou desmontar e desmoronar (é raro, raríssimo, isso acontecer, não?), ele ficou de repente com uma expressão de “Sentado à Beira do Caminho” que eu nunca havia visto no rosto (e no corpo) dele. Arrepiante (e muito adequada de notar, nestes dias de frisson-Michael-Jackson), a mecânica da solidão e do abandono no rosto (e no corpo) daquele(s) que tem bem mais de 1 milhão de “amigos”.

Mas, “Sentado à Beira do Caminho” à parte, o momento matador, para mim, foi a sequência formada por “Aquela Casa Simples” (uma maravilhosa e bem pouco percebida canção de 1986), “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo” (1979, para o pai) e “Lady Laura” (1978, para a mãe). Fusão das memórias dos pais e da casa de origem, aquele bloco foi mais ou menos o que viria a desaguar depois em “Sentado à Beira do Caminho”: a retórica da solidão e do abandono condensadas e sublimadas no rosto (e no corpo) do homem com o olhar mais triste que já existiu.

(Ai, e não me vem com aquele nhenhenhém de “especial de RC já basta o de Natal”… É tão fácil mudar o canal, e são tantos os canais. Mas, como o Twitter bem demonstrou, quase ninguém saiu de casa – nem da tela da dona Globo – ontem à noite. Seja sob sorrisos ou muxoxos, pouquíssimos de nós ficam incólume à passagem da história em frente de nossos metálicos narizes. E eu, apesar de ter demorado horrores para aderir, amo o Twitter!)

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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