Manifestação de 15 de março de 2015 - foto Eduardo Nunomura

Em dois anos, o cartaz do filme mudou para disfarçar o teor propagandístico, mas já era tarde para apagar as pegadas

 

“Ótica conservadora” é um eufemismo. O filme Nem Tudo Se Desfaz, do diretor olavista Josias Teófilo (codinome de Josias Saraiva Monteiro Neto), que foi programado no ciclo Cinema & Política do Petra Belas Artes e estreia nesta quinta-feira em exibição para o público em São Paulo, é uma produção inequivocamente bolsonarista. Para saber disso com clareza antes da estreia, basta examinar sua trajetória de financiamento público.

O orçamento aprovado para o filme que estreia hoje é relativamente baixo, 156 mil reais, dos quais 78 mil reais são fruto de renúncia fiscal (Artigo 1º-A da Lei 8.685/1993, a Lei do Audiovisual); outros 31.930 reais foram aprovados para renúncia pelo Inciso X. Art. 39 (MP 2228-1/2001), mas o filme não captou esse valor; e 46.070 reais entraram como contrapartida da própria produtora.

Dois dos principais empresários que aportaram recursos no filme são ligados ao sistema de irrigação das atividades ilícitas do bolsonarismo. Otávio Oscar Fakhoury, que foi convocado pela CPI das Fake News e é alvo de dois inquéritos no STF, tirou 20 mil reais do bolso para colocar na produção. Jorge Feffer, da Suzano Papel e Celulose e que colocou 50 mil reais, é acusado de venda superfaturada para a Petrobras e visto como um elo entre Carla Zambelli e o ex-ministro do meio ambiente Ricardo Salles, além de financiador de outras agremiações de extrema direita.

O diretor Josias Teófilo tinha sonhos altos no Politburo bolsonarista. Pretendia ser o número dois de Regina Duarte, mas queimou a largada e acabou não ganhando a sonhada vaga na gestão que tanto bajulava. Os valores aprovados inicialmente para sua produção em 2019 eram bem mais altos, previam 530 mil reais via renúncia fiscal, mas foram alterados em 2020 para que ele conseguisse a liberação dos 78 mil reais já captados.

Com a repercussão da notícia de que um cineasta faria um filme usando dinheiro público para lustrar a imagem de Jair Bolsonaro, o presidente se manifestou, em 25 de julho de 2019, para desautorizar a empreitada: “Não queremos filmes de políticos com dinheiro público. O poder público não deve se meter a fazer filme. O Estado vai deixar de patrocinar”. Não é bem verdade: o Estado, pela via da Ancine, autorizou a renúncia fiscal, que também é feita de recursos públicos.

Ignorado desde então pela elite burocrática do bolsonarismo, Josias Teófilo resolveu encarar os trâmites normais do financiamento audiovisual e repaginou seu filme. A Ancine não viu problema de exaltação política no projeto, mas ao mesmo tempo enxergou proselitismo em um documentário sobre Fernando Henrique Cardoso, da Giro Filmes, ao qual negou autorização para captar recursos.

O diretor então passou a ser um crítico sazonal do governo, colocando seu agora antagonista Mário Frias na berlinda – no convescote de extrema direita que promoveu na pré-estreia do seu filme, nesta semana, em São Paulo, não convidou o secretário especial de Cultura e ainda discursou contra o abandono do setor na atual gestão.

Olavo de Carvalho chegou a defender o discípulo (Teófilo fez um filme sobre o astrólogo, Jardim das Aflições) quando se noticiou que esse pretendia capturar meio milhão para presumivelmente fazer um filme laudatório sobre Bolsonaro. Carvalho chegou a declarar nas redes sociais, na ocasião, que “a Ancine não deu, nem vai dar um só tostão ao Josias. Só deu a autorização legal para ele tentar obter patrocínio privado. Os patrocinadores é que vão decidir se dão o dinheiro ou não”. O cineasta Cacá Diegues até tirou um sarro no astrólogo da extrema direita bolsonarista, dizendo que ele finalmente parecia compreender como funcionam as leis baseadas na renúncia fiscal, que antes chamava de “mamata”.

Ciclo Cinema & Política. No Petra Belas Artes (www.cinebelasartes.com.br). 22 reais.

 

 

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