Uma cidade, dois países

O cinema na cidade de São Paulo circula entre dois países imaginários que coexistem, um chamado Shopping Center e outro chamado Periferia. A empresa denominada Spcine, criada há dois anos sob os moldes da política cultural do prefeito Fernando Haddad (PT) trouxe a olho nu esses dois países que se desencontram num mesmo espaço público-privado. A definição é do gestor...

Encontrados na tradução

"A gente fala a língua da natureza do mato. Foi sabiá que ensinou pra gente." O sabiá canta na voz de Morzaniel Iramari Yanomami quando ele explica seu jeito quebrado de falar, que traz uma sonoridade nova aos ouvidos da plateia do Centro Educacional Unificado (CEU) Pera Marmelo, situado no Jardim Santa Lucrécia, no distrito do Jaraguá, extremo norte da capital do...

Mas existe cinema de índio?

A selva de pedra volta a ser floresta por alguns dias, de 7 a 12 de outubro, quando desembarcam em São Paulo 53 produções indígenas realizadas com o olho mecânico a que chamamos câmera cinematográfica. Orquestrada pelas mãos de música do líder krenak Ailton Krenak, a Aldeia SP - Bienal de Cinema Indígena aporta na "maior cidade" da América Latina, ameríndia...

A fronteira invisível

Subindo o rio Muru e o rio Humaitá por três dias (no verão são cinco dias, porque os rios estão secos), logo após percorrer 400 km desde Rio Branco até Tarauacá, no noroeste do Acre, chega-se à Terra Indígena Kaxinawá. Ali, há 33 anos, nasceu, formou-se e vive o cineasta Nilson Tuwe Huni Kuin, filho de um cacique tradicional...

O que assobiava Y’oi quando pescou o povo Tikuna? (*)

Meu nome é Djuena, "a onça que pula no rio". Sou filha do Alto Solimões, nasci na aldeia Umariaçu, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. Vim com os meus pais para a capital ainda pequena, vim para morar em uma comunidade Tikuna chamada Wotchimaucu, na periferia de Manaus, no Amazonas. Aqui foi onde cresci. Tenho 31 anos,...

Os índios que abalaram Brasília

Vincent Carelli mora em Olinda há 16 anos. É um dos mais atuantes documentaristas brasileiros - na verdade, é francês: nasceu em Paris, em 1953, filho de um artista plástico brasileiro e uma professora francesa, e chegou ao Brasil com 5 anos. Seu novo filme, Martírio, exibido na semana passada no Festival de Brasília, virou o epicentro de um grande...

A mãe d’água levou

Estamos no meio do rio São Francisco, olhando para o horizonte. Estamos, mais precisamente no município de Cabrobó, em Pernambuco, na Ilha da Assunção, uma reserva de indígenas da etnia truká com 5.000 habitantes. João Amaro é um pescador truká que convive com o Velho Chico, com o lixo trazido às margens da ilha pelas águas e com a dificuldade de alimentar a...

A era de Aquarius

ELA está morando sozinha num condomínio um pouco histórico, um pouco deteriorado, chamado Aquarius. Um empreendedor imobiliário voraz sonha em destruir o velho condomínio com vista para o mar do Recife à base de dinamite, de machadadas, mas sabe que no mundo moderno o uso da força bruta nem sempre pega bem. ELA é o empecilho que atravanca o progresso da...

O medo do pênalti diante da goleira

Segundo relatou um jornal, na cobertura da votação recente no Senado com vistas aos afastamento de Dilma Rousseff, uma repórter teria se queixado para o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), da dificuldade de manter conversas reservadas. “Sempre que busco um off, tem um microfone gigante na minha cabeça”, teria reclamado. Um radialista teria apelidado o microfone direcional em...

A censura que não ousa dizer seu nome

Jotabê Medeiros comenta a classificação para 18 anos do filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, não por acaso, cineasta que se manifestou contra o golpe no Brasil Há 30 anos, acontecia a última estrepitosa censura do Estado brasileiro a uma obra de arte. Tratava-se, naquela ocasião, do filme Je Vous Salue, Marie, do francês Jean Luc Godard, e a censura...