
“O tempo também tem gavetas. É onde a gente guarda tudo que deixa pra depois”. Esta talvez seja a grande mensagem de “Ceci e os fantasmas do armário”, espetáculo a que assisti hoje (29), em sessão vespertina lotada principalmente por estudantes, mas não só, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton — o elenco (Feh Marques, Luciano Ferrgar, Emanuele Paz, Polli Nadine, Mariana Madeira e Tha Maria) volta a subir ao palco às 19h30, com ingressos grátis.
Este, aliás, outro aspecto que merece destaque no espetáculo de Nicolle Machado (que interpreta Leona, a mãe): a capacidade de dialogar com pessoas de todas as idades. Em trama bem construída, com elementos de comédia, circo, nonsense e drama, em um momento ou outro a gente se vê ou vê alguém conhecido refletido em quem está atuando.
Em determinada altura do espetáculo o medo passa a se chamar curiosidade. Estamos diante de crianças que brincam — há críticas ao uso excessivo de telas, feito sem qualquer panfletarismo —, de fantasmas escondidos no armário, da mãe que, exausta da lida fora e dentro de casa, chora de cansada. A crítica política também comparece, na sutil citação à escala de trabalho 6×1 e na figura autoritária do domador, não à toa representado por uma sombra.
Quem nunca guardou aquele sonho com medo de ser visto como ridículo? Quem nunca deixou um prazer para depois em nome da correria cotidiana vestida de sobrevivência? Quem nunca abandonou ou adiou um hobby por temer ser imperfeito?
Circos são ambientes em geral familiares e ao entrecruzar o comum de uma família circense e o circense de uma família comum em um mesmo núcleo, com destaque para a personagem surda que traz a inclusão e a igualdade para o centro do debate ao longo de todo o espetáculo, “Ceci e os fantasmas do armário” torna-se um espetáculo necessário para nossos tempos.
Realização da Poli Cultural, a peça é densa, bem montada, com doses certas de alívio cômico e uma mensagem de liberdade e acolhimento que será facilmente compreendida pelos espectadores.
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