A atriz Helga Nemetik em cena em "Fafá de Belém, o musical", no palco do Teatro Arthur Azevedo, ontem (20) - foto: Weber Bezerra/ divulgação
A atriz Helga Nemetik em cena em "Fafá de Belém, o musical", no palco do Teatro Arthur Azevedo, ontem (20) - foto: Weber Bezerra/ divulgação

“Fafá de Belém, o musical” estreou ontem (20) em São Luís, com casa cheia, e segue em cartaz, de quinta a domingo, até o próximo dia 30, no Teatro Arthur Azevedo

A cantora Fafá de Belém é uma das artistas que melhor traduziu a máxima do escritor russo Leon Tolstói (1828-1910), “se queres ser universal canta tua aldeia”. Sem trocadilhos de mau gosto, ela literalmente peitou executivos para não sucumbir à imposição de gravadoras e fazer discos de seu jeito, cantando o que tivesse vontade e achasse bonito.

Queria uma carreira, não o sucesso. Ou melhor: queria ambos, mas não o segundo de qualquer jeito, instantâneo, a qualquer preço, o que acabou aprendendo também em embates com Roberto Santana, produtor de seus primeiros discos.

Caçula e única mulher entre os quatro filhos do casal Joaquim e Eneida, Maria de Fátima Palha de Figueiredo — que completou 70 anos de idade no último dia 9 de agosto —, seu nome de batismo, foi criada em meio a acalorados debates políticos, o que viria a redundar, por exemplo, em posicionamentos públicos como sua simpatia pela causa LGBTQIAP+ e, antes, a campanha das Diretas Já!, quando o povo brasileiro foi às ruas pelo direito de voltar a votar para presidente: Fafá de Belém participou dos 32 comícios realizados pelo Brasil, sem receber cachê. 

As atrizes Lucinha Lins, Helga Nemetik e Laura Saab revezam-se para dar conta das diversas fases de uma trajetória, literalmente encarnando Fafá: a gargalhada expansiva, que, a princípio, incomodava a mãe (e a moral e os bons costumes então vigentes), a menina de “temperamento difícil”, que antecipava o feminismo ao reagir aos conselhos de “bom comportamento” dados pela mãe (também interpretada pela primeira), certa falta de noção juvenil ou excesso de segurança de si, ao zoar pretensos produtores.

Desde a infância, o receio ao tentar a vida no Rio de Janeiro — à época de sua estreia em disco, com “Tamba-Tajá” (1976), este era um caminho obrigatório para artistas oriundos das regiões Norte e Nordeste —, o início do sucesso, com “Filho da Bahia” (Walter Queiroz) na trilha sonora da novela global “Gabriela” (1975), o êxito em Portugal — terra de sua origem: sua avó chega à Belém vinda de lá, de navio —, em que a torcida do Benfica transformou “Vermelho” (Chico da Silva), um dos maiores sucessos de sua carreira, em hino, tendo a artista sido agraciada com a medalha do Turismo, honraria do governo português, a relação com a religiosidade (desde ter sido batizada com nome de santa até a presença constante no Círio de Nazaré, um dos maiores eventos do catolicismo no Brasil), nada escapa ao roteiro bem costurado, inclusive com alívios cômicos, por exemplo a cena em que tranca um executivo no banheiro, porque este era contrário a ela gravar uma música que considerava brega. Ou a briga com uma gravadora que queria retirar à força a participação (já gravada) da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó de “Nuvem de lágrimas” (Paulinho Rezende e Paulo Debetio), outro estrondoso sucesso.

“Fafá de Belém, o musical” tem texto e roteiro musical de Gustavo Gasparini (direção artística) e Eduardo Rieche, idealização e produção artística de Jô Santana (“Marrom, o musical”) e pesquisa de Rodrigo Faour. A cenografia é de Ronald Teixeira.

O repertório musical é executado ao vivo pelo maestro Glauco Berçot (regência), Rhuan Nunes (bateria), Michel Maia (baixo), Felipe D’Lélis (percussão) e Frank Russo (cordas), sob direção musical de Marcelo Alonso Neves.

Serviço: o espetáculo fica em cartaz no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) até o próximo dia 30 de agosto, de quinta a domingo. Os ingressus custam entre R$ 25,00 e 220,00 no site Ticket Bolt. A circulação é uma produção da Fato Produções, realização do Ministério da Cultura (MinC), com patrocínio da Petrobras, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet.

*

A reportagem assistiu ao espetáculo a convite da produção.

Precisamos de um quilo de farinha pra fazer FAROFAFÁ!

Mascote FAROFAFÁ Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não somos donos bilionários e não corremos atrás de cliques a qualquer custo. Isso significa duas coisas:

1. Farofafá trata do que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores.

2. Praticamos jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu a música, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Você pode ajudar a deixar Farofafá mais forte e vibrante! Escolha sua forma de contribuir e vamos farofafar juntos!

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome