Cena do espetáculo Vampyr, do Chile, apresentado no 8º Mirada - Foto: Divulgação/ Fernanda Luz
Cena do espetáculo Vampyr, do Chile, apresentado no 8º Mirada - Foto: Divulgação/ Fernanda Luz

Quis o destino que chovesse em Santos bem nas semanas em que o Mirada mais precisava de rua. Tirou o gostinho do encontro despretensioso, do deslocamento entre uma peça e outra, do esbarrão acidental num espetáculo, de topar com aquilo que não se estava procurando. Ao longo dos últimos dias, o festival ficou refém de um tempo nublado, do frio e de uma sensação incômoda de que muita gente estava perdendo a chance rara de atravessar a diversidade abrigada nos palcos, praças e espaços históricos de Santos, Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente.

Há dois anos, ao fechar a cobertura do 7º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, FAROFAFÁ deixou uma pergunta no ar: a curadoria apostaria, nesta edição, em nomes novos, inovações ou repetiria a fórmula consagrada? A 8ª edição responde, em parte, que sim. O Equador como país homenageado não foi uma escolha óbvia. Mas é justo que o primeiro país do mundo a inscrever os direitos da natureza em sua Constituição, em 2008, tenha sido homenageado. E essa singularidade ecoa, à sua maneira e, como sempre acontece no teatro, em metáforas: tem a ver com um discurso sobre a natureza, mas também uma reflexão sobre o que fazemos com quem não tem voz para se defender.

Común Vacío, da equatoriana In Vitro Danza Contemporánea, com direção de Lorena Delgado E., evidencia esse risco. Sobre um tablado inclinado, os corpos buscam exprimir sensações e sentimentos (a inclinação lembra do impulso constante de empurrar para baixo tudo aquilo que ameaça alcançar o topo). Em monólogos, duos, trios, quartetos e até quintetos, algumas cenas conseguem fazer essa comunicação chegar lá; em outras, nem sempre fica evidente.

Vampyr, do Chile, com direção de Manuela Infante, leva ao palco dois atores que são morcegos. Um homem e uma mulher começam pela não-comunicação,  quase no ritmo dos próprios animais que interpretam. Esse ponto de partida ganha outro ritmo quando os diálogos surgem, e descobrimos que milhares desses morcegos hematófagos são dilacerados por hélices gigantes que cortam o vento, sem que a sociedade perceba, ou se importe. Não há revide possível, nem resistência, nem contraponto. E isso diz muito sobre o papel da América Latina, politicamente conturbada, diante do avanço da direita e de um “progresso” que segue triturando o que e quem não tem como se defender.

A peça “… ao mesmo tempo…” foi transferida para o Sesc Santos por conta da chuva – Foto: Divulgação/ Sesc Santos

…Ao mesmo tempo…, obra comissionada para os 80 anos do Sesc, reuniu dois grupos, o Clowns de Shakespeare e o Lume Teatro. A peça, sob direção-geral de Georgette Fadel, codireção de Fernando Yamamoto e dramaturgia de Dione Carlos, não teve a chance de ganhar as ruas em sua totalidade (no dia 3, rolou). Concebida como banquete cênico para praças, mas a chuva a impediu, a peça funcionou no espaço de convivência da unidade Sesc Santos. Em cena, um banquete surreal simboliza a passagem de nossas vidas. Vimos o tempo se esvaindo, os anos se repetindo, as transformações sociais chegando e impondo relações cada vez mais fluidas, num ciclo sem fim que os dois grupos traduziram poeticamente. Tudo acontece “…ao mesmo tempo…“, mas como essa simultaneidade é impossível de reproduzir em cena, as ações se sucedem em ritmo acelerado, sempre conectadas, dando a sensação de continuidade. No fim, o espetáculo mede a dimensão do quanto somos grandes e pequenos, ao mesmo tempo.

A 8ª edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, com 41 espetáculos de 15 países, entre 3 e 13 de setembro, chega em ano de celebração dos 80 anos do Sesc, e isso se reflete na programação. Pela primeira vez, o festival recebe a Guatemala, amplia a presença caribenha e organiza-se em quatro eixos (Mostra Equatoriana, Internacional, Nacional e Ações Formativas). A comemoração ganha corpo mais adiante, na Extensão Mirada, que leva parte da programação a São Paulo e, pela primeira vez, a Taubaté, entre 8 de setembro e 15 de novembro, com duas gratuidades simbólicas: Mi Madre y el Dinero (México), no Sesc 14 Bis (11 e 12 de setembro), e Cariño Malo (Peru), no Sesc Consolação (12 e 13 de setembro).

Para quem estiver na Baixada Santista, ainda há o que conferir: o espanhol Seppuku, de Angélica Liddell, sobre o centenário de Yukio Mishima; Macbeth, reencenado por drag queens da paulistana Cia Extemporânea; e Casa do Norte, do Grupo Clariô de Teatro, no encerramento, em 12 e 13 de setembro.

Papakuna, da Colectiva Yama, apresenta (Teatro Guarany, 10 e 11 de setembro) como o Equador valoriza a diversidade de tubérculos nativos, que são considerados patrimônio cultural e alimentar do país. Para construir a dramaturgia da peça, o coletivo ouviu e vivenciou a realidade de agricultores locais. No palco, três atrizes se misturam a batatas, aos campesinos e aos seres míticos da tradição milenar andina. A mensagem tem tudo a ver com a ferida aberta da América Latina: a colonização e o capitalismo que impõem uma lógica predatória.

A cada edição, o Festival Mirada impõe um desconforto sadio e necessário: nós, latino-americanos, ainda enxergamos os vizinhos por um olhar torto, quase sempre voltado para os grandes centros e para as mesmas referências de sempre. De dois em dois anos, somos convidados a provar o contrário. Há um continente inteiro de estéticas, urgências e cosmologias que segue por ser conhecido, bastando a disposição de atravessar a chuva para chegar até ele.

Cena de “Papakun”, peça sobre a relação com os tubérculos que são a base alimentar do povo andino – Foto: Divulgação/ Matias Canale

Extensão Mirada. Nas unidades do Sesc Belenzinho, Campo Limpo, Consolação, Pinheiros, Pompeia, Vila Mariana e 14 Bis, na capital, e no Sesc Taubaté, no interior. Até 15 de novembro. Ingressos e datas em sescsp.org.br/extensaomirada.

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