quarta-feira, setembro 2, 2026
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Lady Macbeth, um ensaio sobre o preço do poder

Na imagem, a atriz negra trans Aretha Sadick interpeta Lady Macbeth, e está dentro de uma banheira.
Aretha Sadick expande Lady Macbeth de uma forma original - Foto: Cacá Berrnardes/ Divulgação

A sala intimista do Sesc Ipiranga, destinada à peça Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder, nos impõe uma condição quase obscena. Atriz e público estão forçosamente conectados. Não é uma questão de espaço, mas de intenção. A atriz Aretha Sadick está prestes a entrar numa banheira, um convite para conhecer sua privacidade. Ela se despe e, enquanto se banha, começa a divagar consigo mesma sobre pensamentos nefastos. Essa intimidade se repetirá em outros momentos, explicitando uma cumplicidade que é alma deste espetáculo.

Lady Macbeth, vilã icônica de William Shakespeare, não teve uma peça para chamar de sua. Seria justo, mas a história tratou de alçá-la ao panteão dos grandes personagens do bardo inglês. Ela é casada com Lord Macbeth, que irá assassinar o rei da Escócia, Duncan, por sugestão dela e assim eles assumirão o poder. Fria e calculista, assume o comando diante do desespero do marido: depois de matar Duncan, é ela quem recolhe das mãos dele o punhal ensanguentado.

A adaptação a cargo de Rodrigo França, que já interpretou Eu sou um Hamlet, trilha a lógica de criar atritos e fricções necessários para deslocar a peça para um outro lugar não imaginado por Shakespeare. Aretha Sadick é uma mulher trans negra, e, como ela própria diz, uma exceção no meio artístico. Em uma cena, diante do espelho, Lady Macbeth nos convida a mergulhar não só na frieza de seu personagem, mas também na incômoda questão das relações históricas de uma sociedade excludente: como pode um corpo ocupar um espaço de poder que sempre lhe foi negado?

A montagem não facilita em dar respostas sintetizadas em palavras. Diante do espelho, Aretha aplica maquiagem branca sobre o rosto e veste uma peruca loira. A crítica é explícita: uma mulher negra se transforma, na nossa frente, em outra coisa para poder ocupar o trono. É presenciar, ao vivo, um corpo sendo apagado para caber num lugar de poder.

É esse mesmo corpo, e não o texto de Shakespeare, o verdadeiro centro da direção de Tainara Cerqueira, que trabalha com Aretha uma transformação física ao longo de toda a peça, o que dá para notar nos gestos contidos do início até a rigidez de quem já governa. Ou no figurino de Luiz Claudio Silva, que marca essa trajetória de Lady Macbeth em três tempos, do preto íntimo, passando pelo azul da realeza, até a alfaiataria do poder consolidado. Essas pequenas sutilezas chamam a atenção e cobram um preço alto.

Depois da coroa, quem sobra não é mais a mulher nua da banheira do início, mas alguém que passa a olhar para trás e medir o preço do que fez. É a pergunta que fecha a peça e reabre a do início, e talvez seja essa a razão de a banheira aparecer logo na primeira cena. Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder trata do que um corpo é obrigado a pagar para deixar de ser espectador da própria história.

Lady Macbeth: Um Ensaio Sobre o Poder. De William Shakespeare, tradução e adaptação de Rodrigo França, direção de Tainara Cerqueira. No Sesc Ipiranga, sextas-feiras (21 horas), sábados e domingos (18h30), até 13 de setembro. Ingressos a 50 reais.

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