‘O Menor Palco do Mundo’: o afeto que encurta distâncias

Por que os seres humanos contam histórias? Animais não fazem isso, explica Vladimir Brichta em seu monólogo O Menor Palco do Mundo. A narrativa humana nasce da necessidade afetiva de organizar o caos, de estabelecer conexões, de estreitar relações. São pelas histórias infantis, muitas delas fábulas, que pais procuram ensinar a seus filhos conceitos tão abstratos quanto o medo, a gentileza, o amor, a felicidade e a incerteza.

Em O Menor Palco do Mundo, texto do premiado autor australiano Kim Crotty e adaptado por Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, essa pulsão fabuladora que acompanha a Humanidade é mais do que um recurso dramático. As narrativas servem como um instrumento de sobrevivência e reconstrução de laços.

A trama é baseada na história real de Crotty, um pai que, após cometer um erro grave e ser preso, recorre às histórias infantis de personagens inventados em família para não se distanciar dos filhos pequenos. Ele quer se manter presente na vida deles, mas não será uma tarefa nada fácil para quem está atrás das grades e tem de se comunicar por meio de cartas.

O que se inicia como um gesto de desespero de um pai se expande e ganha vida própria num delicado exercício de imaginação, amor e afeto, capaz de atravessar grades até chegar a uma comunicação possível.

Sob a idealização de Aura Cunha e Paula Picarelli, o monólogo joga luz sobre o silêncio da paternidade, um território marcado pela distância emocional e pela dificuldade dos homens em expressarem vulnerabilidades e afetos. Em seu primeiro espetáculo solo, Vladimir Brichta estabelece um jogo cênico direto e transparente com a plateia.

O ator, de forma hábil, borra as fronteiras entre a ficção e a sua própria realidade. Rompe a quarta parede para deixar claro que não é Kim Crotty, mas um intérprete que, isolado durante as gravações de um filme, é tomado pela saudade de seus próprios filhos ao ler o texto. Essa sobreposição entre o relato real do dramaturgo australiano e as memórias do ator brasileiro é um dos pontos fortes da montagem que ganha, cena após cena, mais intimidade e conexão.

A metáfora do “menor palco do mundo” é, afinal, sutil: este reside justamente no corpo, na exata dimensão de braços abertos em torno dos filhos, e nas relações humanas que cada um de nós carregamos. No caso da peça, é ainda traduzido no espaço de escuta e conexão entre um pai e seus dois filhos pequenos. A masculinidade é posta à prova para se concluir que a arte e o afeto carregam o dom de encurtar as distâncias física e emocional também nesse campo. O irônico é que foi preciso chegar ao extremo do isolamento, que pune, para saber que a palavra compartilhada cura e aproxima.

O Menor Palco do Mundo. Texto de Kim Crotty, com Vladimir Brichta. No Teatro Vivo, às sextas e sábados (20 horas), e domingos (18), até 13 de dezembro. Ingressos a 150 reais.

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