André Janones
André Janones enlouquece e milita no segundo turno – fotos Instagram @andrejanones

Aconteça o que aconteça, as eleições presidenciais de 2026 ficarão marcadas pela presença de um personagem chamado André Janones, que, voluntariamente ou não, mudou paradigmas de modo irrevogável ao fazer política e militar por Luiz Inácio Lula da Silva em forma de arte.

Não é apenas que o deputado federal natural de Ituitaba (MG), recém-reeleito pela Rede, tomou para si a tarefa de contrariar o algoritmo e desafiar o poderio das big techs transnacionais (e, consequentemente, da sinistra figura alaranjada de extrema direita que preside atualmente os Estragos Unidos da América). Sobretudo neste segundo turno, Janones tem feito isso com requintes simultâneos de ator e de dramaturgo.

O ponto culminante até hoje (há sete dias pela frente para acontecerem mais e melhores momentos) foi o sábado, 17 de outubro de 2026, o dia em que um deputado federal de gestual explosivo e sotaque mineirinho enlouqueceu o algoritmo e sabotou a sabotagem operada sem trégua pelos hoje francamente trump-bolsonaristas Meta (Instagram, Facebook, WhatsApp, Threads), Google (YouTube), Twitter-X etc.

No mesmo dia em que celebrava a conquista de 5 milhões de seguidores em seu canal no WhatsApp (o chamado “Exército do Lula”), @andrejanones (que, em constante crescimento, hoje acumula 5,8 milhões de seguidores no Instagram) conclamou a população lulista a ir às redes sociais vestida de verde e amarelo e fazendo o L de Lula. A estratégia revelou-se um sucesso avassalador, apesar do potencial suicida (basta lembrar que em 1992 Collor chamou a população a ir às ruas de verde e amarelo em sua defessa e tomou em revide um oceano de brasileiros vestidos de preto e um impeachment).

Ao cabo de 13 anos de predomínio digital da extrema direita e de sequestro das cores da bandeira brasileira pelo neofascismo à brasileira, as redes passaram o último fim de semana coalhadas de verde e amarelo – não mais o verde-amarelo bolsominion furibundo, mas o verde-amarelo faceiro, solto, leve e livre com L de Lula.

“Nós primeiro tomamos deles as ruas, depois as redes, agora tomamos até o verde-amarelo, a camisa da seleção. Não sobrou nada para eles“, maximizou um vitorioso Janones, na tarde de sábado. Na verdade, não é que tenhamos “tomado” nada do exército neofascista – 2026 tem se tornado antes um momento de retomada, de resgate de ruas, redes e símbolos nacionais que vinham reféns de um longo sequestro, inclusive com persistentes sintomas de síndrome de Estocolmo por parte das esquerdas.

Janones ainda não chegou perto da excelência artística de um José de Abreu, mas a dramaturgia e a atuação que ele tem desenhado reveleram-se eficazes, notáveis e fascinantes no fim de semana verde-amarelo. O tom que adota tende invariavelmente para o empolgado-histérico-estridente e incomoda não apenas a direita, mas também militantes de centro e da velha-guarda esquerdista (às vezes por bons, às vezes por maus motivos).

Urgente! Explode!!!

Amparado pelo bordão “explode!!!”, Janones machuca ouvidos mais sensíveis ao gritar sem descanso em postagens como aquela em que celebrou a marca de 5 milhões de seguidores, gravada no meio de uma rodovia, em trajes de seleção brasileira: “Pessoal, grita nos quatro cantos do país que nós somos 5 milhões de soldados no exército do Lula! Que nós somos o maior exército democrático do mundo!”. [Na manhã de segunda-feira, 19, o “exército” comandado por André Janones se aproximava velozmente dos 5,5 milhões de seguidores.]

Na sexta-feira, 19, o irrefreável militante convocava panelaço contra o adversário de Lula, como vingança em honra de Dilma Rousseff contra o golpismo de direitistas, centristas e esquerdistas traíras unidos em 2015-2016. A propósito, sempre é bom lembrar: o primeiro panelaço aconteceu no dia 8 de março de 2015, durante pronunciamento da presidenta pelo Dia Internacional da Mulher, quando ela, entre outras medidas, anunciava a sanção da lei que reconhecia o feminicídio como crime hediondo.

Ainda às voltas com o panelaço, Janones entregou-se a uma tarefa maior na sexta-feira. Com camiseta da seleção brasileira e o mesmo tom esquizofrenético de sempre, convocou a mobilização do “exército” de Lula a se pintar de verde-amarelo nas redes sociais, pontualmente, às nove horas da manhã do sábado. Em outro vídeo, explicou didaticamente os conceitos por trás do flashmob verde-amarelo-vermelho: “Por que 9h em ponto? Porque o algoritmo vai entender que aconteceu alguma coisa muito grave naquele momento, uma notícia muito importante (…). Aí a gente fura a bolha. Qualquer assunto que não for isso vai flopar”.

Dito isso, foi dito e feito: o sábado foi invadido por uma massa antifascista formada por anônimos e famosos que faziam o L de Lula vestidos de verde-amarelo. A combinação colorida verde-amarelo-vermelho enlouqueceu o algoritmo protofascista e de quebra extravasou para as ruas durante todo o fim de semana.

As aulas de lógica algorítmica estavam apenas começando.

Constatado o êxito da estratégia, o próximo vídeo começou como um verdadeiro balde de água gelada. Vestido de preto-luto, com semblante grave, gestual controlado e voz serena, Janones anunciou o surgimento iminente de uma bomba contra Lula: “O presidente vai sofrer hoje o ataque mais baixo da história brasileira”.

A orientação janonista contra o tal ataque, repassada de dedo erguido em direção ao nariz do espectador, era de escandalizar o antigo testamento do marketing petista de campanha: “Cê não vai! Cê não vai defender o presidente! A não ser que você for bolsonarista. Se você quer que o Lula seja reeleito, você não vai defender o presidente”. Póim!!!

A lógica por trás de tal atitude era a mesma que formiguinhas antifascistas de vanguarda tentam emplacar há anos nas redes sociais, sem sombra de sucesso, e que Janones traduziu finalmente em linguagem pop, utilizando todas as letras do alfabeto: “Você não vai engajar em nada negativo ao presidente. A hora que cês verem essas notícias cês não vão comentar”.

A recomendação foi mais além, chegando a extremos que nem jornalistas dos mais experimentados quiseram até hoje compreender: “Outra coisa, cê não vai nem ler a matéria. ‘Ah, Janones, eu vou ler rapidinho ali, mas não vou engajar’. Ler já é engajar o algoritmo. Se você ficou dois ou três segundos ali, o algoritmo já identifica, ‘opa, esse conteúdo é interessante, o cara quis ler, eu vou mandar pra mais pessoas’. Se você passa direto, se viu e já passa, ele vai entender assim: ‘É, ninguém quer saber sobre esse aqui, não’. Ele vai entregar cada vez menos e isso aqui vai ficar preso dentro da bolha deles. Vai ser um traque, igual quando saiu o áudio falso lá na Veja, lembra? (…) Não virou nada”.

Eis a dramaturgia desenvolvida por Janones: uma fisgada grave, negativa e pessimista (tipo “o apocalipse está próximo” ou, mais velho que caminhar para frente, “falem mal, mas falem de mim”), seguida por uma aula prática, simples e direta sobre lógica algorítmica. As big techs corroídas pelo câncer da extrema direita não devem estar nada satisfeitas com a saída de armário patrocinada pelo mineirinho.

O que vem a seguir é uma inversão total de expectativa para quem foi fisgado pelo espírito carniceiro suscitado pelo início fúnebre: Janones despeja um algodoal doce de mensagens otimistas, garantindo que o adversário já sabe que perdeu as ruas, as redes, os símbolos nacionais e a eleição: “Eu vou contar uma coisa que não contei ainda. A eleição tá decidida. O presidente Lula já está reeleito, ponto. Não desmobilizem, mas ele já está reeleito. Sabe qual é o único modo de isso mudar? Se vocês desmobilizarem. Se vocês fizerem o que eu estou falando aqui, não tem como o presidente Lula perder esta eleição. Passa esta informação adiante”.

O arco dramatúrgico está completo. Após ridicularizar o tão conhecido medo da derrota, divide com cada espectador a responsabilidade pela vitória que se aproxima – contra a extrema-direita, contra as milícias, contra o gangsterismo transnacional, contra as big techs, contra o presidente dos Estragos Unidos da América.

Num último vídeo no sábado, Janones sapateou sobre o leite fascista derramado, em autêntico idioma mineirês: “Eles comemora! Eles tá comemorando o 24º lugar de uma hashtag, os caras que dominava tudo. A gente tirou tudo dos cara. Primeiro, tiramos eles do poder em 22. Depois nós fomos lá, tomamos as ruas. Tomamos as redes. Agora tomamos o verde-amarelo, a camisa da seleção, a bandeira do Brasil. Não sobrou nada pros cara. Eles têm que ter o direito pelo menos de espernear”.

Janones: um foguete para Rússia, Nova York, Cuba, Tóquio, pra qualquer lugar bem longe

Já transformado em meme, Janones entregou em parte nesse vídeo o jogo da estratégia de enfrentamento à armação mais recente, mais uma aula instantânea de lógica algorítmica, sempre em idioma mineirês-dilmês: “O negócio lá, tá bom, eu exagerei um pouquinho. Chamei de bomba o que era um traque. Mas porque se não for assim cês não entendem, cês vai lá defender o Lula em postagem, vai comentar, vai engajar, e aí tá vocês de novo dando repercussão ao que eles quer. Mas era só um traquezim. Já pode ir preparando, pode ficar no jeito aí que dia 25 o tetra vem e nós vamos comemorar todo mundo junto”. Promessa de final feliz, Oscar de melhor roteiro para André Janones.

No fio da navalha, o militante extra-petista pode e deve ser questionado e contestado por vários ângulos, como faz por exemplo o historiador Luiz Fernando Horta, autor do novo e elucidativo livro Fascismo e Neofascismo de Hitler a Mussolini a Trump e Bolsonaro (com o perdão pela citação de quatro nomes tão nefastos), ao pontuar que certas palavras de ordem do deputado mineiro, como “exército do Lula” e “soldados do Lula”, também pertencem ao léxico fascista e/ou fascistoide. É assunto para debatermos em profundidade, mas só depois do dia 25.

Por ora, o feito promovido por Janones e seu, vá lá, “exército” de 5,5 milhões (e contando) é maiúsculo e vai além de uma simples eleição presidencial num país da América do Sul. Se as profecias desse Nostradamus fora de hora (e fora dos círculos do inferno do pessimismo) se materializarem, talvez estejamos diante de uma façanha lulista com potencial de mudar o curso da história da humanidade.

Talvez estejamos diante da pedra filosofal capaz de neutralizar ao mesmo tempo a renitente ameaça fascista e o poderio cancerígeno das big techs (que neste momento significam sinônimos absolutos).

Nas redes, André Janones mistura atuação cênica, dramaturgia, política e arte. Nas ruas, o verde, o amarelo e o vermelho se remisturam em ritmo despolarizante, quiçá pacificador. Não é banal o que está acontecendo nas redes, nas ruas e dentro do cérebro de cada um de nós.

P.S.: A história corcoveia a passos largos e depois do debate presidencial na Bandeirantes André Janones foi internado com arritmia cardíaca. Não é tarefa fácil carregar o Brasil nas costas.

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