Um ataque hacker derrubou nesta segunda-feira, 12, o Sistema ANCINE Digital (SAD), plataforma oficial da Agência Nacional do Cinema (Ancine) para o registro de agentes econômicos e a gestão de serviços do setor audiovisual brasileiro. O SAD abriga o Cadastro Único de Projetos, plataforma digital que integra, atualiza e digitaliza os sistemas da agência e os proponentes de projetos audiovisuais, com suas carteiras de projetos. Estão agrupados ali todos os projetos relacionados a uma mesma obra audiovisual em um só cadastro, com um código exclusivo para facilitar o gerenciamento das informações.

Os invasores, inicialmente, postaram uma página fake no local do SAD com ataques xenofóbicos ao Nordeste, ameaças de queimar universidades públicas e com alusões a uma capa da revista VEJA, amplamente desmentida, que buscou atribuir um patrocínio falso do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao documentário de 2024 sobre o presidente Lula. Além da negativa oficial da produção e do cineasta Oliver Stone, que dirigiu o filme sobre Lula, sobre qualquer financiamento de Vorcaro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal desmentiram qualquer delação ou depoimento do ex-banqueiro que fizesse relação com o filme sobre Lula. A polícia investiga uma possibilidade de armação criminosa. Na quarta-feira passada, houve um incêndio na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também suspeito de ser criminoso. Veja abaixo o material que os invasores de extrema-direita postaram no site da Ancine:

O risco do acesso alienígena é de que o invasor tenha acesso a informações relacionadas a produtoras, produções, documentação, prestações de conta e histórico de captação de recursos. Os dados expostos podem ser usados para fraudes ou quebra de sigilo. O SAD concentra e gerencia a apresentação e o fomento de projetos audiovisuais. A Ancine tirou a plataforma do ar após o ataque, para reparos.

O site oficial da agência não foi derrubado provavelente porque é gerido pelo Gov.br, mais robusto e seguro. O SAD é administrado totalmente no ambiente da Ancine. O fato de a existência da Ancine ser questionada pelo bolsonarismo, que tem um projeto de lei em tramitação para extingui-la, levanta suspeitas sobre os mandantes do ataque. O projeto é o 994/2026, proposto pelo deputado Capitão Augusto (PL-SP) com o argumento de “racionalização institucional”. O Capitão Augusto é do partido do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

As solicitações de aprovação para captação, aprovação para execução, redimensionamento e remanejamento de projetos passam pelo cadastro presente no SAD. E, pelo Portal de Serviços da Ancine, é possível acompanhar em tempo real a tramitação das solicitações, o que garange a transparência na prestação dos serviços.

Ataques dessa natureza têm atingido órgãos da administração pública desde o início da campanha eleitoral. No dia 4, dia do primeiro turno da eleição, houve um ataque ao Portal de Incentivos Fiscais do BRDE, agente financeiro do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), fundo que operacionaliza recurso para fomentar a produção de cinema no Brasil. Há uma estranha coincidência nos casos: aparentemente, os terroristas que atacaram o site do BRDE no dia 4 também postaram a mesma página de rosto no local do site oficial. Como a página já fala em ataque às universidades públicas e compara os financiamentos entre os filmes de Bolsonaro (todo feito com dinheiro ilegal) e o de Lula, isso foi feito ANTES das capas de VEJA e do ataque à UFPE, o que pode configurar um caso de polícia, um crime a ser investigado pela Polícia Federal.

O cinema brasileiro é um atento defensor das regras democráticas no País, além de ser um dos setores culturais mais organizados. Isso o tornou, durante o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro, um dos maiores alvos daquela gestão antidemocrática. A Ancine chegou a paralisar por dois anos a destinação de recursos ao setor. Agora, seus apoiadores, confiantes em uma vitória no segundo turno, já estão açodados em relação a uma nova fase de desabrida perseguição ao audiovisual nacional.

Em 2025, as salas de cinema no Brasil exibiram mais de mil filmes nacionais. O cinema brasileiro ganhou destaque no mundo, recebeu prêmios inéditos, como o Oscar, e reestruturou uma indústria que emprega mais de 600 mil pessoas (em empregos diretos e indiretos).

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