Luiz Gonzaga Jr. (1945-1991), o Gonzaguinha – fotos divulgação
Luiz Gonzaga Jr. (1945-1991), o Gonzaguinha – fotos divulgação

O documentário Gonzaguinha, da Maior Liberdade estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira, 3 de setembro, demonstrando que os inúmeros sucessos radiofônicos do cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha (1945-1991), não são mais que a ponta de um maciço submerso ainda por ser conhecido e estudado.

A diretora do filme, Susanna Lira, é autora, entre vários, dos documentários Mussum, um Filme do Cacildis (2019), sobre o músico, compositor e humorista Mussum, e o crucial Torre das Donzelas (2018), sobre as mulheres progressistas (Dilma Rousseff entre elas) que, no início dos anos 1970, foram encarceradas no Presídio Tiradentes, em São Paulo, por serem classificadas como inimigas públicas pela ditadura civil-militar instalada em 1964. Em Da maior Liberdade, Susanna apoia-se quase exclusivamente em depoimentos legados pelo artista em vídeo e na imprensa – além, obviamente, das canções de Gonzaguinha.

Primeiro traço de identidade, o filme de Susanna Lira não usa como matéria principal os “greatest hits” do filho de Luiz Gonzaga. Estão ali dois clássicos inevitáveis – “Explode Coração” (1978) e “É” (1988) –, alguns sucessos intermediários –, como “Comportamento Geral” (1972), “Palavras” (1973), “Galope” (1974), “Geraldinos e Arquibaldos” (1975), “Espere por Mim, Morena” (1976), “Recado” (1978), “Com a Perna no Mundo” (1979) –, e só.

Ausência

Não se espere ouvir no cinema standards gonzaguinianos como “Mundo Novo, Vida Nova” (1969), “Moleque” (1969), “A Felicidade Bate à Sua Porta” (1973), “Chão, Pó, Poeira” (1976), “Começaria Tudo Outra Vez” (1976), “Petúnia Resedá” (1978), “Sangrando” (1980), “Eu Apenas Queria Que Você Soubesse” (1981), “O Que É, o Que É?” (1982), “Lindo Lago do Amor” (1984)…

Não estão tampouco em Da Maior Liberdade as canções pungentes que fizeram de Gonzaguinha, até hoje, um favorito dos (e, especialmente, das) intérpretes de MPB. Maria Bethânia, a tradutora mais constante e trovejante da verve do compositor, não aparece no filme, como também não estão presentes canções que ela eternizou como “Gás Neon” (1974), a já citada “Explode Coração” (1978), “Grito de Alerta” (1979), “Maravida” (1981)…

Não se ouvem standards gonzaguinianos lançadas por Claudia e Luiz Américo (“Pois É, Seu Zé”, 1973), Simone e Wanderléa (“Eu Nem Ligo”, 1975), Gal Costa (“O Gosto do Amor”, 1978), Alcione (“Salve a Lama Negra”, 1978, “E Vamos à Luta”, 1980), Frenéticas (“O Preto Que Satisfaz”, 1978), Agnaldo Timóteo (o inspirador de “Grito de Alerta”, atropelado por Bethânia), Joanna (“Agora”, 1979), Angela Maria (“Apenas Mulher – Mulher e Daí”, 1980), Elis Regina (“Redescobrir”, 1980), Nana Caymmi (“De Volta ao Começo”, 1980), Zizi Possi (“Libertad Borboleta”, 1980, “Viver, Amar, Valeu”, 1982), Fagner (“Guerreiro Menino – Um Homem Também Chora”, 1983)…

Não se fala em Milton Nascimento, provavelmente o compositor que mais influenciou Gonzaguinha, além de Luiz Gonzaga. Não é objeto direto nem protagonista do filme a relação conflituosa com o pai (filho da dançarina Odaléa, Gonzaguinha nasceu no Morro de São Carlos, bairro do Estácio, berço do samba carioca, e foi criado como filho adotivo de outro casal).

Gonzaguinha e Gonzagão cantam e conversam em cena de “Da Maior Liberdade”

O forrozeiro sertanejo Gonzagão só aparece em moovimento numa eloquente sequência televisiva, ao lado do filho que se tornou (emedebista) universitário, chamando-o de “menino inteligente, travesso”, “um artista universitário”, “um rapaz muito sério”. Gonzaguinha devolve os elogios com aspereza comparável à da própria voz cantada, “meu pai é sertanejo, sertanejo é na dureza”, “se você quisesse que eu tocasse sanfona devia ter me criado”.

Não estão no filme as várias composições de Gonzaguinha lançadas por Gonzagão, seu primeiro intérprete, antes mesmo de o filho se tornar um nome conhecido nacionalmente, de “Lembrança de Primavera” (1964, composta pelo filho aos 14 anos), “Matuto de Opinião” (1965), “Festa” (1968, recuperada por Bethânia em 1976), “Pobreza por Pobreza” (1968), “Morena” (1971), “From United States of Piauí” (1972), nem as parcerias com o filho que Gonzagão gravou até morrer, em 1989.

Presença

Mas então, se quase tudo parece ausência, o que está presente em Gonzaguinha, da Maior Liberdade? O que parece nortear a narrativa e a seleção de músicas feita por Susanna Lira é o conteúdo de suas letras, sejam elas de lados A, B ou Z. A diretora mostra que Gonzaguinha, um dos compositores mais censurados pela ditadura, mora nas entrelinhas da MPB.

Da Maior Liberdade olha com cuidado para as mães de Gonzaguinha. Mostra “É Preciso” (1974), sobre a mãe adotiva, “minha mãe no tanque lavando roupa/ minha mãe na cozinha lavando louça/ lavando louça, lavando roupa”) e “Com a Perna no Mundo” (1979), idem, “ô, Dina, teu menino desceu o São Carlos/ pegou um sonho e partiu”).

A mãe biológica surge no retrato apaixonado de “Odaléa, Noites Brasileiras” (1978), “minha cantora esquecida/ das noites brasileiras/ te amo/ compositora esmagada/ dessas barras brasileiras/ te amo/ minha heroína doente do peito/ minha menina da luta/ minha morena catita/ ah, minha preta/ furando cartão, cantando nos becos/ tossindo nos cantos, o lenço na boca, o sangue”, “Léa, retrato guardado em meu quarto/ minha Dalva, minha estrela-guia”.

Gonzaguinha evoca o início como cantor-compositor nos festivais televisivos dos anos 1960, por exemplo em “O Trem (Você Se Lembra Daquela Nega Maluca Que Desfilou Nua pelas Ruas de Madureira?” (1969), vencedora vaiada do I Festival Universitário de Música Popular, da TV Tupi. Dali teria surgido, segundo ele afirma, sua fama de “fechado”, “antipático”, “carrancudo”, “cantor rancor” – “que eu sou mesmo”, observa. Cenas de uma das entrevistas de TV expostas no filme contradizem essas palavras, mostrando-o sorridente, sereno, autoconfiante, perspicaz, espirituoso.

O “carrancudo” Gonzaguinha sorri na televisão, em cena de “Da Maior Liberdade”

Da Maior Liberdade oferece vislumbres da complexidade do personagem Gonzaguinha, talvez explicando com delicadeza motivos para que ele fosse tão carrancudo, tão censurado, tão libertário, tão breve (Luiz Gonzaga Jr. morreu em acidente automobilístico, em 1991, dois anos após a morte de Luiz Gonzaga). “Você deve lutar pela xepa da feira/ e dizer que está recompensado/ você deve estampar sempre um ar de alegria/ e dizer ‘tudo tem melhorado’/ você deve rezar pelo bem do patrão/ e esquecer que está desempregado/ você merece, você merece/ tudo vai bem, tudo legal”, canta “Comportamento Geral”, trilha sonora excruciante para o governo de Emílio Garrastazu Médici.

“Craque mesmo é o povo brasileiro/ carregando esse time de terceira divisão”, diz “E por Falar no Rei Pelé?!” (1978), enquanto Gonzaguinha conta sobre a censora que vetou, sabe-se lá por quê, a palavra “Maracanã”. “Já não basta esta coisa rolando aí fora/ nos castrando com garras e dentes/ nos forçando a viver tão somente de meias verdades/ o importante é que o nosso coração sinta, através do respeito/ o que é ser uma pessoa do meu jeito”, confessa a canção que dá título ao filme, “Da Maior Liberdade” (1980).

“Achados e Perdidos” (1980) fala, pela voz da cantora da era dos festivais Marília Medalha, sobre desaparecidos insepultos da ditadura civil-militar: “Quem me dirá onde está/ aquele moço fulano de tal/ filho, marido, irmão, namorado/ que não voltou mais/ insiste um anúncio nas folhas dos nossos jornais/ achados, perdidos, morridos, saudades demais/ mas eu pergunto e a resposta/ é que ninguém sabe, ninguém nunca viu/ só sei que não sei quão sumido ele foi/ sei é que ele sumiu” (emendada a essa canção no LP De Volta ao Começo, o samba-enredo “Pequena Memória para um Tempo sem Memória – A Legião dos Esquecidos” fala pelo próprio título). “O Começo da Festa” (1975) não fala nada, é apenas instrumental – e mesmo assim foi censurada, depois des-censurada, conta Gonzaguinha no filme, entre divertido e irônico.

“Meu pai foi muito utilizado pelo poder, muito”, afirma o protagonista a certa altura, referindo-se às afinidades de Gonzagão com o regime civil-militar. Curiosamente, o filho voltou a cantar as “cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas” da suíte “Amanhã ou Depois” (1974)/ “Achados e Perdidos”/ “Pequena Memória…” no show e álbum ao vivo que dividiu com o pai, em 1981. Um ano antes, nos primeiros tempos da chamada abertura política, Luiz Gonzaga havia surpreendido regravando o hino (proscrito pela censura, por “subversivo”) “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores (Caminhando)“, do ex-inimigo número um da ditadura, Geraldo Vandré.

Se nem o pai nem o filho sobreviveram à mal-chamada redemocratização, a permanência da obra áspera de Gonzaguinha é um dado curioso sobre o mesmo Brasil que ele descrevia com acidez. A título de curiosidade, a música mais ouvida em sua voz no Spotify, “O Que É, o Que É”, acumula 87 milhões de reprodução; a segunda colocada, a idílica e quase romântica “Lindo Lago do Amor”, passa dos 35 milhões de visualizações; a terceira é uma música do pai, “A Vida do Viajante”, gravada pelo filho em 1979. Susanna Lira, em seu filme, promove um balanço rápido, mas profundo, sobre o que diziam nas entrelinhas Gonzaguinha, Gonzagão, Odaléa, Dina, o Brasil.

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