A ex-presidenta Dilma Rousseff filosofa sobre o cárcere - Foto Divulgação

Um documentário reencena a violência de Estado contra 31 ex-presas políticas da ditadura de 1964, entre elas Dilma Rousseff

O paradoxo está em cartaz. O mesmo neoBrasil que opera para censurar livros didáticos, beijos gays em histórias em quadrinhos, charges políticas e filmes de periferia deixa vir à tona Torre das Donzelas, fortíssimo documentário de Susanna Lira sobre as mulheres de esquerda que, no início dos anos 1970, foram encarceradas no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Entre 31 mulheres que evoluem dolorosamente pela tela está Dilma Rousseff, ex-presidenta (o filme grafa o final com A mesmo) da República deposta em 2016 pelo neoBrasil. 

O título Torre das Donzelas remete ao apelido do Tiradentes antes de ser demolido (em 1972), quando utilizado para recolher mulheres tidas como inimigas do regime ditatorial. O ambiente é reconstituído em estúdio, por onde passeiam em diversas situações as ex-presas que, adiante, puderam seguir suas vidas como advogadas, arquitetas, ativistas dos direitos humanos, dentistas, economistas, fotógrafas, historiadoras, jornalistas, médicas, produtoras culturais, pedagogas, professoras, sociólogas. 

Pelo status que adquiriu antes de ser golpeada, e mesmo depois, Dilma age como regente dos depoimentos reunidos no filme. Cabem-lhe as mais fortes e impactantes frases. “Ginástica e trabalhos manuais? Não era pra isso que eu estava presa. Chega de estarmos presas, não faremos disto um cárcere”, exclama, descrevendo a rebeldia contra regulamentos dentro do presídio. “Mesmo fora da sociedade, nós criamos um ambiente em que eles não interferiam. Mesmo quando a gente é frágil, é possível resistir. Fomos capazes de fazer isso, sem culpa. Como se a culpa de estar lá fosse nossa. Nós fugimos de uma visão penitente da cadeia.” E acrescenta: “Demos felicidade para nós na pior situação possível”. Colhidas antes da eleição e posse de Bolsonaro, as lições de Dilma parecem endereçadas diretamente a Lula, ou a todos nós que resistimos ao neoBrasil presos aqui fora.

Não só com Dilma, Torre das Donzelas mescla o documental com o poético, com grande intensidade. Juntas e emocionadas no espaço de representação, as mulheres voltam a cantar a Suíte dos Pescadores de Dorival Caymmi, minha jangada vai sair do mar…, usada quando uma companheira de cela era libertada. Uma delas relembra a fala da jovem Dilma nessas ocasiões: “Volta! Não é justo! Nasceu voltada pra lua!”.

Memórias muito femininas voltam à tona. Mulheres de cabelos brancos lembram das rodas de discussão sobre o orgasmo e a vagina. Ex-presas que hoje são mães e avós evocam a gravidez em cela, o peito cheio de leite, as injeções dadas pelos carcereiros para interromper a lactação. Saem das catacumbas a Oban, o Dops, o DOI-Codi. Uma das mulheres abre a chave de todo nosso segredo e de toda nossa tragédia: “O grande inimigo é o silêncio. Essa foi a grande vitória da ditadura. Quebrar o silêncio é uma forma de denunciar”. Algumas contam que só conseguiram se libertar do torturador quando se puseram a falar, 30 ou 40 anos depois da tortura. Paradoxalmente, elas desaguam a falar em pleno tempo de interdição.

Torre das Donzelas. De Susanna Lira. Brasil, 2018, 97 min.

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