O Brasil se despediu hoje de duas atrizes que foram fundamentais na fundação da moderna teledramaturgia brasileira: Laura Cardoso (1927-2026), aos 98 anos, e Glória Menezes (1934-2026), aos 91. Sua invejável longevidade e as despedidas simultâneas devido a causas naturais nos impelem a pensar em um simbolismo: ambas resistiram incansavelmente ao cerco dos modelos masculinos de interpretação, que sempre impuseram o papel de “escadas” às atrizes, para criar seus legados com absoluta elegância. E se foram mansamente, sem conturbações ou legados de ambiguidade ética.
De certa forma, elas se desenvolveram em territórios antagônicos. Laura sempre foi uma guerreira solitária, sem dependência de dotes físicos ou histriônicos, e Glória se uniu umbilicalmente ao companheiro, Tarcísio Meira (1935-2021), na conquista da memória nacional. Laura se reinventou continuamente ao longo de uma carreira de 74 anos, e Glória, diva de primeira hora das novelas de TV, manteve-se até o fim mais próxima daquela construção de beldade que ela mesma inventou lá nos anos 1970, sob a batuta de Janete Clair (1925-1983).
Versátil pela própria natureza, Laura Cardoso, nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, no italiano Bixiga, foi mãe sertaneja, cigana, bacana da burguesia, retirante, marofeira tardia, mãe e madrasta. Glória, cujo nome real era Nilcedes, gaúcha de Pelotas, investiu-se com certa autoridade do papel recorrente de madame, quase um destino lombrosiano de Laurinha Figueroa. O País as amou igual, possivelmente pelo que exalavam de generosidade no seu trabalho, de aplicação, de rigor na discrição e na distinção entre vida e arte. E por encarnarem, em seus trabalhos, as diferentes expressões da mulher brasileira. “Vestiu cada personagem como se fosse sua própria pele. Sempre radiante”, afirmou, de Laura, o dramaturgo Walcyr Carrasco, que a teve como atriz em seis produções.
Ambas começaram no teatro, como seria de se supor. Laura começou pelas mãos do lendário Antunes Filho. Tinha trânsito fácil entre as linguagens todas, mas na TV ela inaugurou um tipo de convicção realista que virou uma escola em si, e inspirou dezenas de seguidoras, como a discípula Dira Paes. Glória, formada pela Escola de Arte Dramática, saiu do palco direto para o teste do cinema – e não foi uma estreia trivial, ela ladeou Leonardo Villar no filme O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte (vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 1962), uma espécie de batismo estético do cinema brasileiro. Depois, sapateou na idade de ouro das novelas como o primeiro caso de tripla personalidade da ficção nacional, em Irmãos Coragem. “Demos juntas os primeiros passos na TV Tupi”, afirmou Glória.
Apesar de serem politicamente esfinges, por decisões pessoais, nunca pisaram na bola embarcando em decisões notoriamente retrógradas na sua vida pública (ao contrário, por exemplo, da maior rival de Glória na Era das Mocinhas da TV, a Sra. Pum de Palhaço). Não as procurem na célebre campanha das atrizes de preto que protestaram contra a decisão do STF de garantir ampla defesa a acusados, em 2013. Glória aplaudiu a coragem de Ainda Estou Aqui. Laura Cardoso deixava claro sua visão a cada frase em entrevistas. “Se lhe fosse dada a possibilidade de reencarnar, onde você reencarnaria?”, lhe perguntou Antonio Abujamra. Ela foi cristalina: num País onde houvesse Justiça, no qual as pessoas tivessem direitos iguais, sem violência.
As despedidas de Laura & Glória, curiosamente, não vieram acompanhas de um chororô imenso, aquele que vem do inconformismo das perdas inexplicáveis. Saem de cena com doçura, já reverenciadas como afetos transversais por todos os quadrantes, ícones de acolhimento ecumênico. Viveram intensamente, e marcaram o seu tempo com invenção e legitimidade.

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