A casa onde nasceu o cantor Roberto Carlos, há 80 anos, em Cachoeiro do Itapemirim, Sul do Espirito Santo, é objeto de um grande projeto de revitalização, plano que já incluiu a desapropriação de dois imóveis vizinhos e prevê a criação de uma nova praça à frente da residência e a requalificação das áreas públicas na vizinhança.

Segundo informou a administração de Cachoeiro, as duas desapropriações somam R$ 765 mil. A estimativa de obra, que vai ser feita em duas fases, tem custo estimado de R$ 600 mil. A parte de trás, que prevê a criação da Casa do Artesão, sala de oficinas e partes estruturais está estimada em R$ 1.195.000,00.

Hoje, a primeira moradia de Roberto (ele viveu ali até os 13 anos com os pais, Laura e Robertino, e os irmãos Lauro, Carlos Alberto e Norma) abriga um modesto centro cultural que abriga um curso de música para crianças e expõe fotografias e objetos que remontam à fase formativa da trajetória do cantor: um contrabaixo acústico tcheco que pertenceu ao Regional de José Nogueira, seu primeiro mestre na música; fotos de infância e cópias de documentos (o que inclui até o comprovante de matrícula no ginasial em Niterói, em 1956, quando foi para o Rio); um transmissor da Rádio Cachoeiro (ZYL-9), onde ele cantou pela primeira vez como profissional; a máquina de costura de de Lady Laura (Laura Moreira Braga, mãe do cantor), entre outros itens. Como ele canta em O Portão, uma de suas mais belas canções: “Meu retrato ainda na parede/Meio /amarelado pelo tempo/Como a perguntar por onde andei”.

Mas a casa é inegavelmente a joia da coroa dos primeiros passos do artista até a progressiva entronização de Roberto Carlos como soberano maior da MPB. Emoldurada pelo flamboyant que é símbolo da canção-hino Meu Pequeno Cachoeiro (de Raul Sampaio), a antiga moradia, até 2019, antes da pandemia, era o ponto turístico mais visitado da cidade, recebendo fãs de todo o mundo – segundo levantamento da Secretaria de Cultura de Cachoeiro, entre os líderes de visitação, havia um empate entre cachoeirenses e fãs do Rio e São Paulo, com mais de 3,5 mil visitantes cada grupo (por ano).

Entretanto, é consenso entre gestores públicos e privados que são acanhados esses números e também os atrativos hoje, e que há um grande potencial ali para que se solidifique essa contribuição à história do artista. Para começar, a Prefeitura planeja identificar os principais pontos da vida cachoeirense de Roberto Carlos com placas e totens que descrevam a importância de cada local – há diversos lugares, como o Conservatório Musical, o Colégio Cristo Rei (locais onde estudou), a Casa do Estudante (onde cantou com o Regional de Zé Nogueira), a antiga sede da Rádio Cachoeiro, o local onde gravou a primeira canção (uma radiotécnica), a relojoaria de Robertino Braga (pai do artista), entre outros.

Também se pensa em dar destaque a outros artistas de grande relevo na cultura nacional que nasceram igualmente em Cachoeiro, como o escritor Rubem Braga, o cantor Sérgio Sampaio, o produtor Carlos Imperial, a dançarina e ativista Luz del Fuego e outros que viveram ali, como a atriz Darlene Glória e o ator Jece Valadão.

A Casa de Roberto Carlos tem acesso complicado e é difícil de ser fotografada pelos fãs, porque está imprensada entre um grande muro e um casarão abandonado, encravada na ladeira da Rua João de Deus Madureira, ladeada pela Escadaria Lady Laura. A casa de Roberto pertence à prefeitura e foi tombada pelo Estado do Espirito Santo em 2009.

Cachoeirenses contam de memória que a casa chegou a ser objeto de atrito entre a cidade e Roberto Carlos, que pretendia comprá-la mas foi ultrapassado pelo poder público na negociação (acredita-se que isso explique uma relação por vezes instável entre o ‘Rei’ da música popular e seus concidadãos).

Por isso mesmo, a prefeitura festejou quando, em abril, recebeu uma ligação do próprio Roberto Carlos, que vive na Urca, no Rio de Janeiro. Ele procurou o atual prefeito, Victor Coelho, assim que soube do projeto, e ligou para palpitar. Mas Roberto ligou preocupado. Como a cidade vai receber, no que vem, a equipe de filmagem do longa-metragem oficial sobre a vida de Roberto Carlos, o artista temia que a intervenção urbanística pudesse descaracterizar o ambiente que marca sua memória de infância. Imediatamente, a prefeitura acolheu suas sugestões – um dos pedidos era para que não se alterasse o quintal e não se instalasse na parte de baixo um café, como tinha sido cogitado inicialmente. Assim, o moderno café deverá agora ir para o galpão anexo, a uns 200 metros, local que abrigará o centro de artesanato regional.

São poucas as canções em que Roberto Carlos relembra a casa de Cachoeiro, e talvez a mais importante delas seja Aquela casa simples, na qual canta: “Naquela casa simples/Você falou pra mim/Que eu tivesse cuidado/E não sofresse com as coisas desse mundo”.

Segundo a Prefeitura, os recursos para a obra na Casa Roberto Carlos e a intervenção urbanística já estão disponíveis, e a única questão agora é desenvolver o projeto em sintonia com os desejos do cantor, que tem prevista uma apresentação na cidade, no Estádio do Estrela do Norte, em abril de 2022, para festejar o seu 81º aniversário. O estádio também abriga um dos mitos das “desinteligências” entre Roberto e seus conterrâneos: décadas atrás, em um dos seus shows na região, por causa de uma disputa política na qual se viu inadvertidamente enredado, gestores mal intencionados teriam aberto os portões para causar tumulto bem na hora de sua apresentação. Não se sabe se isso é verdade, mas é um rumor bem espalhado.

Em um seminário realizado nas últimas terça, 3, e quarta, 4, em Cachoeiro, especialistas em turismo defenderam a adoção de uma política de divulgação e organização intensiva que abrace e enalteça o vínculo entre Roberto e sua terra natal. Em sua palestra, o produtor, crítico musical e jornalista Edu Henning citou os casos muito bem-sucedidos de alguns artistas como pólos atrativos de suas cidades de origem – caso de Tupelo, no Mississippi, e Memphis, Tennessee, terras natal e adotiva de Elvis Presley, e Liverpool, Inglaterra, terra dos Beatles (Henning é integrante de uma das mais festejadas e longevas bandas cover dos Beatles, os Big Beatles).

“A história de Roberto é dele, mas também é nossa”, afirmou à plateia do simpósio Revelar Cachoeiro de Itapemirim, organizado pelo portal regional AquiNotícias.com. Também exemplificou com a romaria ao cemitério de Père-Lachaise em Paris, para fundamentar a ideia de que a cultura é a maior âncora turística do Planeta. É possível encontrar os vínculos entre a cidade e Roberto pór todo lugar: o contrabaixo da Casa Roberto Carlos, por exemplo, foi doado pelo músico Rui Guedes, pai do Coronel Ruy Guedes, atual vice-prefeito de Cachoeiro.

O zelo de Roberto Carlos pela possibilidade de celebração de sua imagem de forma anômala acaba inibindo a definitiva simbiose entre seu legado e seus conterrâneos. As pessoas temem desagradá-lo com a venda de souvenires e lembrancinhas. Mesmo um grupo de 8 bordadeiras da cidade, as Bordadeiras do Rei, ao iniciar seu trabalho de tributo ao ídolo, achou prudente esperar um sinal positivo de Roberto, que aconteceu numa de suas últimas visitas. Assim, os turistas que desembarcam ali em busca de sua mitologia acabam saindo sem qualquer item que identifique a sua passagem pelo berço do ‘Rei’ da música popular brasileira. Nem um boné.

 

O repórter, editor e escritor Jotabê Medeiros, autor de Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha (Todavia Livros), integrou o simpósio Revelar Cachoeiro de Itapemirim como convidado do Grupo Folha do Caparaó para conversar sobre a obra e vida do mais célebre artista nativo

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