O candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, que pediu dinheiro a banqueiro corrupto, tentou emplacar "mogul" do Congresso no TCU, mas fracassou. Ela exerce influência na Ancine

O flagrante cinematográfico em Flávio Bolsonaro na conversa fraterna com o banqueiro-presidiário Daniel Vorcaro (em seus “atalhos” para extrair recursos ilícitos de uma suposta produção cinematográfica), encontra diversos precedentes na estrutura do fomento audiovisual do País. Essa semana, registrou-se mais um: o diretor-presidente da Ancine, Alex Braga, nomeou como seu assistente na agência de cinema um ex-assessor parlamentar da deputada Soraya Santos (PL-RJ), Erick Rocha Caciquinho, do Distrito Federal. Poderia ser apenas o resultado de mais uma indicação política na estrutura do governo, mas é preciso examinar com atenção o histórico dessas nomeações. O próprio Alex Braga chegou à Ancine por indicação de Soraya Santos. Antes dele, chegou a diretor substituto na agência um pastor, Edilásio Barra, o Tutuca, coordenador de campanha bolsonarista. E o que vem a representar Soraya Santos?

A foto que ilustra essa reportagem pode esclarecer um pouco a questão. Soraya Santos é uma das principais figuras do Centrão, eixo político de extrema-direita que tem como função precípua negociar vantagens e emendas no Congresso Nacional, enquanto impõe atrasos institucionais e democráticos ao País. Soraya dedica grande atenção, há alguns anos, ao setor audiovisual do Rio de Janeiro, Pernambuco e São Paulo. Na gangorra do toma lá, dá cá da política fisiológica, o candidato Flávio Bolsonaro se empenhou pessoalmente em garantir para Soraya Santos um cargo de ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), mas felizmente ele perdeu a parada.

A extrema direita brasileira nunca conseguiu produzir artefatos culturais de relevância. Sua maior expressão recente foi a do cineasta Josias Teófilo, produtor de alguns filmes propagandísticos da sua seara política, e já com financiamento ideológico. Mas, desde Leni Riefenstahl, o fascismo não tem logrado fazer produções de monta, a não ser financeira. No entanto, o caso do filme Dark Horse (O Azarão), futuro agitprop do bolsonarismo, chama a atenção pelos vultosos valores envolvidos (só de Vorcaro, o filme teria levado 61 milhões de reais). Filmado de forma canhestra, em condições questionadas, a produtora do filme no Brasil, a Go Up Entertainment, foi acionada no Ministério Público do Trabalho (MPT) pelo SindCine (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e Audiovisual dos estados de SP, PR, C, RS, MT, MS, GO, TO e DF) por impor condições impróprias para o trabalho de sua equipe. Em 26 de fevereiro, a produtora tentou arquivar o processo, mas o MPT negou.

Na Ancine, uma das decorrências desse aparelhamento se fez sentir essa semana. A Apaci (Associação Paulista de Cineastas) divulgou na quarta (13) um comunicado no qual aponta responsabilidade da Ancine (Agência Nacional do Cinema) no manuseio de uma “regulamentação propositalmente frouxa” da Cota de Tela, mecanismo legal que obriga a exibição de filmes brasileiros no cinema, para permitir que circuitos exibidores driblassem a legislação e exibissem filmes antigos ou infantis para burlar a obrigatoriedade.

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Mas as joias da coroa do audiovisual, para a extrema direita, está nesse momento repousando no Senado Federal. Trata-se da Lei do Streaming, que tramitou nas duas casas legislativas do Congresso sob controle total do lobby das plataformas internacionais. Atualmente, está em vias de ser votado no Senado Federal um texto urdido pelo deputado dr. Luizinho, bolsonarista do Rio de Janeiro, que essa semana tentou se esconder no banco traseiro de um carro ao ser flagrado saindo da mansão do senador Ciro Nogueira, denunciado pela polícia federal no caso Banco Master (também apontado pela polícia como beneficiário do esquema de Daniel Vorcaro). Como se vê, é uma estruturada aliança no intuito de queimar o filme do cinema nacional.

Filme sobre Jair Bolsonaro já é o mais caro do cinema feito no Brasil, mas valores podem ser ainda mais elevados, já que não há transparência da produção e recursos vêm de fontes anônimas (algumas já reveladas, como a Prefeitura de São Paulo)

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