
A diretoria da Agência Nacional de Cinema (Ancine) “sumiu” com a gravação em video de uma das suas sessões administrativas, transcorrida na quinta-feira, 15 de setembro, que tratou da revisão do Orçamento de 2022 da instituição. A censura ao conteúdo do vídeo atenta contra o artigo 16 da Resolução 102/2020, que determina a publicidade obrigatória, em meio eletrônico, de todas as reuniões da diretoria colegiada da Ancine.
O fato foi denunciado por servidores ao Ouvidor-Geral da Ancine, João Paulo Machado Gonçalves, mas há pouca expectativa de que Gonçalves tome alguma providência a respeito – seu currículo já foi amplamente divulgado aqui no Farofafá. A diretoria também decretou sigilo sobre o processo 01416.008349/2022-94, o que é ilegal (contraria a lei 12.527/11), por se tratar de matéria orçamentária e uso de recursos públicos aos quais deveria ser dada ampla publicidade. Há suspeitas de que a agência não tenha recursos disponíveis para cumprir com os compromissos da infinidade de editais que divulgou desde o ano passado, com ampla publicidade da imprensa mais amiga, mas sem resultados até agora.
“Infelizmente não se trata de caso isolado, já que a Ancine ainda não cumpre o Plano de Ação acordado com o Tribunal de Contas da União (TCU) em razão do mau desempenho da última avaliação do Índice Integrado de Governança e Gestão Públicas nem do Plano de Ação do Programa Nacional de Combate à Corrupção, que prevêem a publicidade do orçamento da agência e dos respectivos contratos administrativos firmados”, diz o ofício da associação de servidores da agência ao Ouvidor-Geral. A atual diretoria da Ancine tem negado repetidamente os recursos de pedidos de informação em 2022, sempre por unanimidade entre os diretores.
CONDECINE SOB NOVO ATAQUE
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QUERO APOIARAlém da ameaça de extinção da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) no texto do Orçamento da União de 2023, proposta pelo governo de Jair Bolsonaro, o tributo que financia todo o cinema nacional sofreu uma nova e surpreendente investida essa semana.
Dessa vez, o ataque vem pela via judiciária. Há anos, o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e Serviços Móvel Celular e Pessoal (Sinditelebrasil) vem brigando na Justiça para declarar inconstitucional a Condecine das Teles e fazer com que as empresas filiadas não se sujeitem à sua cobrança. O sindicato tinha conseguido liminar em 2016 para suspender o recolhimento, mas a liminar foi derrubada no STF, com o mérito julgado em 1ª instância em 2017 (quando então o mandado de segurança foi negado). Desde então o Sinditelebrasil entrou com novos recursos que vinham sendo negados, e o processo estava parado desde maio de 2021.
A má notícia veio justamente na mesma semana em que o governo enviou ao Congresso Nacional a proposta orçamentária prevendo a extinção da Condecine: o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) realizou um novo julgamento no dia 13 de setembro, e o resultado foi a declaração da nulidade da sentença de 1ª instância (sob uma argumentação nonsense de que teria havido “prestação jurisdicional incompleta e fundamentação deficiente”), determinando um novo julgamento. Acontece que, dessa vez, a sentença do TRF1 se mostra previamente favorável aos argumentos do Sinditelebrasil – e a relatora do caso, desembargadora Gilda Maria Sigmaringa Seixas, remeteu o processo para a Corte Especial do TRF1 para análise da Arguição de Inconstitucionalidade.
Para observadores do setor, a reviravolta no caso demonstra uma nova inclinação do tribunal e a coincidência de datas faz crer na possibilidade de um acordo com o governo – a previsão de extinção da Condecine para 2023 pode estar baseada não num novo projeto de lei, mas numa “dobradinha” entre governo e tribunal para a declaração de inconstitucionalidade da Condecine. Para se ter uma ideia, só a Rede Globo teria um lucro de R$ 200 milhões com o término da cobrança.
De qualquer forma, segue sendo bizarro, no mínimo, que a diretoria atual da Ancine siga fingindo de morta sobre a proposta de Orçamento 2023 pelo governo federal ou a respeito deste último recurso do Sinditelebrasil (que resultou na declaração de nulidade da sentença anterior). Esclarece barbaramente acerca de qual lado se posiciona a diretoria que Bolsonaro fez aprovar no Congresso Nacional. A extinção da Condecine significaria a consequente extinção de todo o cinema independente brasileiro, mas tal ameaça não é vista com indiferença pela sociedade civil – nesta sexta, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, a Firjan, por intermédio do seu presidente em exercício, Luiz Cesio Caetano, se posicionou contrária à extinção do tributo. As entidades de classe já sabem o impacto de uma medida dessas nos índices nacionais de emprego e renda.





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