A controvérsia do momento foi desencadeada por João Bosco, que, em meio às justas celebrações por seus 80 anos de vida, fez a defesa veemente de uma canção que compôs ao lado do letrista Aldir Blanc e lançou há exatos 50 anos, chamada “Gol Anulado”, incluída num antológico LP chamado Galos de Briga (1976). “Quando você gritou ‘Mengo’/ no segundo gol do Zico/ tirei sem pensar o cinto/ e bati até cansar”, dizem os versos iniciais de “Gol Anulado“, que com 50 anos de atraso provocam discussão cerrada nas redes sociais em torno do caráter misógino da história narrada em primeira pessoa masculina.
Depois de tantas águas turbulentas que passaram por debaixo da ponte, João defende a canção e sua letra com unhas e bico de galo de briga, respondendo indagação do jornal Estado de São Paulo com uma série de argumentos equivocados, insensíveis, desconectados do tempo atual. João tira o corpo fora e joga a bomba em colo alheio, atribuindo status de vilania ao famigerado “identitarismo”, um nome inventado em tempos recentes para justificar a mesma perseguição discriminatória de sempre contra mulheres, negros, indígenas, lésbicas, gays, transexuais, trabalhadores braçais, pobres etc. etc. etc.
O debate-boca gira em torno da validade ou não de João Bosco cantar “Gol Anulado” em 2026, ou do eu-lírico que não deveria se confundir com a voz que o interpreta (mas todo mundo sabe que na vida real comezinha se confunde, sim, o tempo todo), ou de um machismo arraigado aflorando da boca do pai de Francisco Bosco. Pouca gente parece ter estabelecido o nexo entre a retirada súbita de “Gol Anulado” das gavetas do esquecimento e uma pesquisa desenvolvida pela socióloga (com formação em direito) Isabella Matosinhos e publicada nestes mesmos dias de final de Copa do Mundo.
Segundo a pesquisadora apurou, as agressões físicas contra mulheres aumentam numa taxa de 21% em dias de jogo de futebol. É exatamente o que acontecia, 50 anos atrás, no dia de um jogo de futebol entre Flamengo e Vasco, na fábula de terror narrada futebolisticamente por João e Aldir.
Talvez pudesse causar mais espécie nos corações e mentes de 2026 a evidência de que somos hoje tão antigos, retrógrados, violentos e misóginos quanto éramos há 50 anos (se não formos mais). Em meio à atual explosão de casos de feminicídio em nível internacional, ao eclodir de ovos fascistas em todos os cantos e a um novo punhado de “guerras” genocidas locomovidas por Israel, Estados Unidos e Europa, debatemos “Gol Anulado” mais preocupados com o que pensavam ou pensam Aldir Blanc e João Bosco do que com as mulheres que estão morrendo agora mesmo, em dias festivos de jogos da Copa e também em outros dias quaisquer.
Graças a esse episódio ocorrido num oceano de violência e feminicídio, hoje nos lembramos mais de “Gol Anulado” que de “Maria da Vila Matilde (Porque se a da Penha É Brava, Imagina a da Vila Matilde)”, cantada por Elza Soares, ou da “Maria da Penha” interpretada por Alcione, ou da “Maria da Penha” cantada por Angela Ro Ro. Essas são canções deste século, não dos 1900.
“Comigo não, violão/ na cara que mamãe beijou zé ruela nenhum bota a mão/ se tentar me bater vai se arrepender”, cantava Alcione em 2007. “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, prosseguiu Elza em 2015, convocando todas as mulheres violentadas a ligar para o 180 para se defender e denunciar. “Maria da Penha, venha/ desce o morro pra ajudar, iaiá/ não cansei do meu amor, não/ mas cansei de apanhar”, finalizou Angela em 2017. “Baixe o tom da tua voz/ que eu não tolero lero-lero/ muita marra de feroz/ na minha vida eu não te quero/ você tem que aprender a respeitar uma mulher/ vê se se atualiza, eu não sou uma qualquer/ vá de retro, seu machista/ que eu também sou confusão”, reiterou Alcione em “Marra de Feroz“, de 2024.
Com exceção de Angela Ro Ro, uma expert em denunciar feminicídio desde muito antes da palavra vir à tona e autora de sua própria “Maria da Penha”, os compositores envolvidos nessas músicas são todos homens. E hoje estamos debatendo o que João e Aldir pensavam, faziam ou meramente narravam cinco décadas atrás.
Como sabemos, em pleno 2026 ainda é comum e fatídico que se preste muito menos atenção ao que mulheres já se cansaram de dizer do que no que diga um homem heterossexual branco (ou não negro), seja ele João Bosco, Aldir Blanc, Chico Buarque, Francisco Bosco ou o mimado filho caçula da família de quem está lendo este texto, seja o que foi dito a estultice grosseira que for.
Exemplos não faltam. Está em cartaz um belo filme documentário ficcionalizado chamado A Noite de Alaíde, dirigido no feminino por Liliane Mutti e focalizado na figura rara e ímpar da cantora carioca-paulistana Alaíde Costa, uma mulher negra hoje com 90 anos, que desde o final dos anos 1950 elegeu cantar bossa nova branca, em vez de optar por sambas como aqueles já citados nas vozes de João, Elza, Alcione e Angela. “Você é negra, e negro tem que cantar samba”, diziam para Alaíde, segundo ela própria conta no filme. O passado distante e recente tentou confinar mulheres negras ao gênero tal como homens de todo lugar tentaram e tentam calar mulheres de todas as formas, até mesmo puxando o cinto da calça para “corrigir” comportamentos que fujam de seu controle.

Os argumentos tolos de João Bosco em 2026 parecem deslocados deste tempo, por mais que ele e o parceiro Aldir sejam autores de uma enormidade de sambas excepcionais, com letras e melodias geniais (não é o caso de “Gol Anulado”, nem em termos de letra nem de melodia). No mesmo Galos de Briga, há exemplos como “Incompatibilidade de Gênios“, outra crônica matrimonial aparentemente conduzida pelo mesmo narrador de “Gol Anulado”, mas em situação de desvantagem diante da “conja”: “Dotô/ jogava o Flamengo e eu queria escutar/ chegou/ mudou de estação, começou a cantar/ tem mais/ um cisco no olho ela em vez de assoprar/ sem dó/ falou que por ela eu podia cegar/ se eu dou/ um pulo, um pulinho, um instantinho no bar/ bastou/ durante dez noites me faz jejuar”.
Também gravado, espetacularmente, por Clementina de Jesus, “Incompatibilidade de Gênios” prossegue, perspicaz apesar de ambíguo, ambíguo embora perspicaz: “Se eu peço feijão ela deixa salgar/ calor/ mas veste casaco pra me atazanar/ e ontem/ sonhando comigo mandou eu jogar/ no burro/ e deu na cabeça a centena e o milhar/ ai, quero me separar”. Quem apanha aqui é o homem, ainda que apenas metaforicamente.
Galos de Briga evolui entre obras-primas nos idiomas da época em que surgiu, como o samba socialista “O Ronco da Cuíca” (“roncou, roncou/ roncou de raiva a cuíca, roncou de fome”), o sambolero “Transversal do Tempo” (do célebre verso “acho que o amor é a ausência de engarrafamento”, eternizado em seguida por Elis Regina, a mesma intérprete do não-samba semi-feminista “Essa Mulher“, de Joyce Moreno) e a marcha-rancho proletária “O Rancho da Goiabada” (canção-mãe – ou pai? – do Movimento Sem Terra, “os boias frias/ quando tomam uma birita espantando a tristeza/ sonham com bife a cavalo, batata frita/ e a sobremesa é goiabada cascão com muito queijo”).
Entre essas há no álbum de 1976 um sambão de nome curioso, “Feminismo no Estácio“, mais uma crônica matrimonial, longe de ser feminista, mas ainda assim intrigante: “Saiu só com a roupa do corpo num toró danado/ foi pros cafundó do Judas, apanhou um resfriado/ voltou com a blusa rasgada, entrou, não disse nada/ tô com dor-de-cotovelo e com a cabeça inchada/ é de amargar, é de amargar/ mas ela é maior e vacinada”. A violência antifeminina se entranha no relato de liberação feminina, desta vez limítrofe: “Nega sem modos/ só não chio nem te dou pancada/ porque você é maior e vacinada”. Violência verbal machuca menos que a física?
O conjunto das canções de Galos de Briga faz emergir um cozido que mistura samba, futebol, alcoolismo, cornitude, amor, paixão, sexo, engarrafamento, descontrole, misoginia, violência masculina. Em 1976, pressionados por uma onda feminista que enriqueceria a MPB na virada dos anos 1970 para os 1980, Bosco e Blanc falavam de um Brasil (de um mundo) que vigorava em 1976, mas que ainda existe em 2026, e muito. Talvez a fúria masculina no presente pudesse nos fazer envergonhar e indignar mais que uma canção desastrada que criou teia de aranhas (mas ainda assim é um testemunho inflamado de um tempo que já se foi, ou não). A julgar pelos debates de rede social, não é o que está acontecendo.
No documentário A Noite de Alaíde, que passa silenciosamente nos cinemas, sem despertar celeumas públicas, a protagonista se rende aos encantos (musicais) de um rapaz “de bem”, negro, cantor, como ela condutor de musicalidade mais próxima da bossa-jazz que do samba-exaltação. Na verdade um inaugurador da bossa, tão ejetado do cercado da zona sul carioca quanto a própria Alaíde, Johnny Alf é tratado com ternura e respeito pela diretora do filme. Por sinal, ela faz o mesmo com Milton Nascimento, padrinho de Alaíde no álbum Coração (1976), ou com Elza Soares, que mil anos antes de cantar “Maria da Vila Matilde” cresceu na mesma comunidade pobre que Alaíde, Água Santa, e que desenvolveu rivalidade com a colega e vizinha que o filme prefere escancarar que escantear.
Johnny Alf, em especial, aparece no filme tentando convencer Alaíde, na longínqua virada dos anos 1950 para os 1960, de que ela deveria, além de cantar, compor suas próprias canções (Alaíde o fez, mostrando o lado de autora tímida e ocasionalmente, em especial no álbum Canções de Alaíde, de 2014). No início dos anos 1960, década e meia antes do advento de “Gol Anulado”, Johnny soava mais moderno, mais arejado e mais feminista que João Bosco em 2026, um dado que talvez nos soe perturbador. Além de preto era gay, e morreu no esquecimento, em 2010, aos 80 anos. “Identitarismo!”, gritarão os (hidro)fóbicos de todo tipo.
Tal como “As Mariposa” de Adoniran Barbosa, cá estamos nós dando voltas esturricadas em torno da lâmpada do pensamento equivocado de João Bosco, quando poderíamos estar tomando o sol ofertado sem tempo nem espaço fixos pelo discurso de Alaíde Costa, Johnny Alf, Elza Soares, Alcione, Joyce Moreno, Angela Ro Ro (ou, para ficar neste século XXI, de Bia Ferreira, Liniker, Rico Dalasam etc. etc. etc.). Todas essas personagens estão sujeitas a proferir besteiras, assim como Bosco & Blanc espalharam fagulhas de acurácia e beleza além de grosserias machistas. O que elegemos destacar no tempo presente, aquilo que selecionamos iluminar ou ocultar na sombra, diz mais a respeito de nós mesmos, aqui e agora, que qualquer gol anulado congelado no tempo-espaço.

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