Há uma coisa prodigiosamente simbólica na vitória do esquiador Lucas Pinheiro-Braathen nos Jogos Olímpicos de Inverno de Cortina, na Itália. Ao invés do País que expulsa, do País que nega a cidadania e persegue com algemas pelas ruas e lanchonetes, Lucas mostra ao mundo o que significa o País que acolhe, que reconhece, que se orgulha dos seus muitos (e diferentes) filhos, que deixa ir quando é melhor e que aceita de volta quando é requerido. Em meio às ondas xenofóbicas crescentes do mundo, Pinheiro-Braathen representa um símbolo de uma aliança improvável, entre a neve nórdica e a picardia do interior de São Paulo, a suposta “frieza” européia e o calor tropical. Num cenário de divisão e intolerância, seu beijo na neve, seu soco de Pelé no ar, seu sorriso de mini-Haaland agradecido, tudo conspirou para fazer dessa manhã de sábado uma manhã inesquecível.  

Ao receber sua medalha de ouro, a primeira do gênero para o Brasil e a América Latina, Lucas emocionou um País inteiro. No pódio, mesmo com um português imperfeito, ele fez questão de cantar o Hino Nacional Brasileiro, fez questão de abraçar o Brasil todo, chorar com um País que ama, consciente do tamanho de sua façanha. Que não significava apenas uma vitória do esporte, mas da cidadania, do respeito mútuo, das junções de famílias longamente separadas pela distância, mas unidas pela confiança, pelo afeto, pela solidariedade, pela diversidade cultural. 

Nascido na Noruega, de mãe brasileira e pai norueguês, infância passada em Paulínia, perto de Campinas, exemplar bem-acabado de um País lindamente mestiço, o rapaz tinha ali nos seus calcanhares, na competição, três feras suíças, três competidores de excelência provada. Ao vencê-los, abraçou-os seguidamente como um menino que se sente aceito no clube, sem arrogância, sem transformar adversário em inimigo, em antagonista. No sábado do Carnaval, festa pública mais sagrada do país, Lucas sambava na frente do mundo não apenas como um novo fenômeno do esqui, mas por significar uma evidência milagrosa do significado maior do esporte: o congraçamento, a aproximação, a festa da alteridade.

Isso sem falar na beleza de sua prova, também fruto de uma determinação extraordinária, driblando como se fosse um peladeiro a queda em uma curva de neve desgastada para assomar como um vencedor imparável no final. Terra consagrada como a do futebol, o Brasil sempre assiste a heróis sazonais surgindo em esportes menos populares, como o tênis, o judô, as corridas de F1. Mas a neve de cartão-postal de Cortina, dessa vez, trouxe mais do que um novo fenômeno para a idolatria, trouxe um filho da terra de volta a sua casa. “No Brasil, eu sempre fui o gringo. Na Noruega, eu era o brasileiro. Mas agora eu sei que essa diferença é meu superpoder”, ele disse, em uma entrevista.

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