“Clodo, Climério e Clésio: A profissão do sonho” - capa/ reprodução
“Clodo, Climério e Clésio: A profissão do sonho” - capa/ reprodução

É inacreditável que diante da longa folha de serviços prestados pelos irmãos Ferreira à música popular brasileira, somente agora ganhem uma biografia: “Clodo, Climério e Clésio: A profissão do sonho” (Ed. do Autor, 2025, 212 p.), de Dea Barbosa e Severino Francisco joga luz sobre a vida e obra dos piauienses que se radicaram na então nascente nova capital federal, ainda no início dos anos 1960.

Os três ingressaram nas fileiras da também nascente Universidade de Brasília (UnB), onde dedicaram-se ao magistério, sem nunca abandonar a música, pelo contrário: parceiros entre si e com outros luminares da MPB, são autores de clássicos como “Revelação” (Clodo e Clésio), “Cebola cortada” (Clodo e Petrúcio Maia), “Ave coração” (Clodo e Zeca Bahia), sucessos de Fagner, “Enquanto engoma a calça” (Ednardo e Climério), “Por um triz” (Clodo, Climério e Clésio), gravada por Nara Leão (1942-1989) e, entre muitas outras, “Silêncio agrário” (Clodo, Clésio e Climério), de onde vem o verso do subtítulo do livro. A amizade com Nara Leão foi tão grande que a única música assinada pela cantora (em parceria com Fagner e Fausto Nilo), é “Cli-Clê-Clô”, em que brinca com os apelidos/diminutivos dos nomes dos irmãos Ferreira.

Os autores (ela assina a organização e pesquisa, ele o texto) perpassam aspectos da vida no Piauí (revelando a importância da geografia em seu fazer artístico: saíram do Piauí, mas o Piauí nunca saiu deles), a mudança e as vivências em Brasília, o convívio com a classe artística, em espaços como o Açougue Cultural T-Bone, a Peixaria, o Feitiço Mineiro etc., e os colegas nos corredores da UnB, sua importância para a consolidação de Brasília como uma cidade musical, para além de burocrática e política — que eles afinal rechaçavam como único mérito do projeto de Oscar Niemeyer (1907-2012) e Lúcio Costa (1902-1998) —, e a edificação de um cancioneiro que invariavelmente cantarolamos e assobiamos mesmo sem saber o nome de seus compositores.

Aliás, outra característica dos irmãos Ferreira (e de artistas como Rodger Rogério, do Pessoal do Ceará, para citar grupos distintos que afinal de contas acabaram por orbitarem-se mútua e simultaneamente): a falta de vaidade e pretensão de construir uma carreira artística, ainda que com êxitos dos quilates citados, levou-os a certa inércia (proposital), no sentido de prospectarem outros intérpretes, tendo tudo acontecido muito naturalmente (poderiam ter sido gravados por Elis Regina (1945-1982) e Roberto Carlos, por exemplo).

Clodo (1951-2024), Climério e Clésio (1944-2010) não formavam exatamente um trio, embora tenham gravado alguns discos juntos, com a assinatura na ordem em que os nomes aparecem no título do livro, destaques para os três primeiros: “São Piauí” (RCA Victor, 1977, produzido por Ednardo), “Chapada do Corisco” (CBS, 1979, produzido por Fagner) e “Ferreira” (RCA Victor, 1981, produzido por Dominguinhos).

Há também histórias deliciosas (e engraçadas), como a de como foi composta “Enquanto engoma a calça”: Climério, Dominguinhos e Ednardo fizeram uma aposta para ver quem faria mais músicas em um mês, quando estiveram hospedados próximos, em Fortaleza/CE. Após 30 dias, empate. Iam sair, quando a esposa de Ednardo, notando a calça amarfanhada do marido, pediu para engomá-la. Foi a senha para o desempate e o nascimento de um clássico da MPB.

“Climério teve uma surpresa ao ouvir pela primeira vez a gravação de “Enquanto engoma a calça”. Sem avisar, Ednardo acrescentou os versos de “Baderna”, canção para uso interno que Climério fez em forma de brincadeira com a despedida de amigos do projeto quando fazia mestrado no INPE, em São José dos Campos. A Vilma que aparece nos versos finais comandava a gerência do projeto. Era tão competente que foi contratada pela Editora Abril e teve de se mudar para São Paulo. Já Maria Helena, uma das produtoras de rádio, casou-se com o dentista que atendia aos alunos e funcionários em São José dos Campos. Ao perceber o desmonte do projeto pela debandada das pessoas queridas, Climério respondeu com humor na canção “Baderna”: “Foi a maior baderna/ quando Vilma foi embora/ a vida perdeu a perna/ a saudade deu o fora/ Apagou-se o riso largo/ e eu fui tomar um trago/ no mesmo dia/ Ai, pobre de nós/ Nós que só vivemos de ilusão/ que temos que ouvir rádio sem voz/ e sem imagem assistir televisão/ Ah, como é triste/ essa nossa vida de artista/ depois de perder Vilma pra São Paulo/ perder Maria Helena pro dentista” (p. 162-3).

E outra: “Climério foi distinguido com uma homenagem em Brasília, ao lado de Fagner e Paulinho da Viola, mas recusou porque a cerimônia exigia que ele vestisse fraque. Só veste camiseta. Fagner compareceu e, durante o ritual, em solidariedade a Climério, tirou e atirou o fraque no chão. Logo em seguida, Climério escreveu os versos perpassados de humor e lirismo: “Não sei se por timidez, poesia ou usura/ na vida nunca usei terno/ só ternura” (p. 146).

Ao imprescindível “Clodo, Climério e Clésio: A profissão do sonho” faltou apenas uma revisão mais acurada, de modo a checar dados (aqui e acolá um mesmo disco é citado com datas de lançamento diferentes, por exemplo) e evitar repetições.

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Ouça a playlist “A profissão do sonho”, com músicas citadas neste texto:

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