Foto: Davi Pinheiro
Fausto Nilo e Moraes Moreira, parceiros em mais de 40 canções Foto: Davi Pinheiro

Foi assim que começou: o jovem arquiteto Fausto Nilo participava das noitadas do Pessoal do Ceará, em Fortaleza, nos idos de 1970. Mas não se aventurava a escrever letras nem compor músicas, apenas fazia coro para as farras. Um dia, um amigo, Raimundo Fagner, o convenceu a escrever uma letra para levar consigo para o Rio de Janeiro, onde estava iniciando um plano de conquistar a MPB ao lado de outro aventureiro cearense, Antonio Carlos Belchior. “Faz, Fausto! Tô precisando de letra!”. Fausto Nilo escreveu então Fim do Mundo.

Parece que chorando eu chego perto
E nós nesse deserto
Filhos nascidos do Sol, da noite, da Lua
Parece o fim do mundo, o fim

Fagner levou a canção para o Rio de Janeiro e a gravou no compacto Cavalo Ferro, pela gravadora Philips. Corria o ano de 1972. A cantora Marília Medalha então ouviu e pediu para também gravar em um LP, e Fim do Mundo acabou se tornando o cartão de visitas do novo compositor Fausto Nilo em 1973. “Era uma musiquinha lá do começo”, lembra modestamente o arquiteto e compositor, que, naquele mesmo ano, também compôs, com Petrúcio Maia, um hino das noites de Fortaleza, Dorothy Lamour.

De lá para cá, Fausto Nilo Costa Júnior, 78 anos, cearense de Quixeramobim (criado na mesma casa onde viveu Antonio Conselheiro), já contabiliza entre 500 e 600 composições sozinho ou em parceria com os maiores nomes da MPB. Não é exagero dizer que é um dos maiores compositores de todos os tempos da música brasileira. Há prodígios nesse ramo, como por exemplo Toquinho e Vinícius, que fizeram mais de 100 músicas juntos. Ou Paulo Coelho e Raul Seixas, que fizeram 40 canções juntos. Mas Fausto Nilo também fez 40 canções somente com Moraes Moreira, por exemplo.

Se o folião está se esbaldando no Carnaval da Bahia, tem que saber que vai necessariamente dançar ao som de canções de Fausto Nilo, como por exemplo Eu também quero beijar (Fausto Nilo, Pepeu Gomes e Moraes Moreira), Bloco do Prazer (Fausto e Moraes Moreira), Chão da praça (Fausto e Moraes Moreira) e Coisa Acesa (Fausto e Moraes Moreira). Com Armandinho, fez clássicos como Zanzibar (O azul de Jezebel no céu de Calcutá/Feliz constelação) e Vida Boa. Mas como um cearense acabou se tornando um bambambã do Carnaval da Bahia?

Fausto já contou bastante essa história, que se deu por causa do visionarismo de Moraes Moreira (1947-2020). No final dos anos 1970, Moraes – que Fausto tinha conhecido por intermédio de Fagner – pediu ao letrista cearense uma letra para o Carnaval da Bahia. Fausto tentou recusar a oferta, argumentando que suas letras em geral eram melancólicas, nada tinham a ver com o Carnaval. “Eu não vou conseguir, cara”, disse a Moreira. Mas o baiano retrucou: “Veja, aquelas músicas de Recife também são tristes, dá vontade de chorar às vezes, mas são lindas”. Fausto então fez uma letra para Moreira que batizou como Chão da Praça. Algum tempo depois, Moraes ligou para o letrista dizendo que tinha acabado de compor uma música de Carnaval. Foram se encontrar na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. “Ele pôs a minha letra em cima da perna, pegou o violão, mas olhava o papel e não tocava nem cantava. Ficou aquele silêncio”. Foi quando Moraes interrompeu o silêncio falando repetidamente: “Mas o que que é isso, cara? O que é isso, cara?”. Moraes estava assombrado ao constatar que a letra e a música tinham casado perfeitamente, embora feitas separadamente. Estava cristalizada a parceria por desígnios do destino.

Mas o leitor não acha curioso que quase ninguém saiba que essas músicas são de Fausto Nilo? “Sabe não”, concorda o compositor. “Quando passei a ser letrista, pensei muito nisso. Os caras da MPB mais antiga todos eram conhecidos por suas letras, e eu nunca seria. Mas sabe que achei legal? Nunca reclamei do anonimato, o cara do palco é que é nosso parceiro, ele que tem a função de transformar aquilo num espetáculo. Às vezes é como os tramoistas do teatro, os caras que movem a cena lá no fundo do teatro para que o espetáculo aconteça”, diz o letrista.

Em 1981, Dominguinhos e Fausto Nilo fizeram uma música sob encomenda para Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Depois da Derradeira é o nome dessa música. Na noite de 30 de abril de 1981, nos bastidores de um show no Riocentro, em Jacarepaguá, no Rio, Fausto sentou-se ao lado de Dominguinhos e de Gonzaga, que estava calado com sua sanfona no colo. Até que Gonzaga olhou para o letrista e disse a ele, com voz grave:

“Fausto, aquela letra que você me deu… Tem um escandalozinho ali no meio, não tem não?”. Gonzagão então cantou o trecho da música que supunha conter um duplo sentido:

Lá no verde do capim
Lá você pode até amanhecer

“Bem aí, você quis dizer ‘fode’ até amanhecer, não foi?”. Fausto morreu de rir.  A intenção não fora aquela, mas o que se pode dizer a um rei?

Naquela noite, como sabemos hoje, houve um atentado terrorista movido pelo Exército brasileiro contra o público e os artistas presentes no Riocentro (entre eles, Chico Buarque, Alceu Valença, Gonzaguinha e Gal Costa), que festejavam o trabalhador. Os militares encarregados do ataque, no entanto, fracassaram: uma das três bombas que pretendiam explodir ali detonou precocemente no carro dos oficiais no estacionamento do Riocentro, matando um sargento e ferindo gravemente outro oficial. Havia no veículo outra bomba que não explodiu. Uma terceira bomba explodiu na central de energia do local.

“Nós só ficamos sabendo do atentado no dia seguinte. A organização conseguiu segurar a notícia, a informação de que iam jogar a bomba lá dentro”, contou Fausto. À parte as maquinações da extrema direita, Fausto Nilo segue construindo sua monumental obra de compositor de um Brasil fabuloso e refinado. Dificilmente o ouvinte da boa música terá passado batido por uma canção dele. E até de sua lírica em cima da dos outros, como  em Romance no Deserto (Bob Dylan/Jacques Levy/Fausto Nilo), a versão de uma canção de Bob Dylan, Romance in Durango, a versão do bardo de Duluth mais tocada no Brasil. “Vejo cidades, fantasmas e ruínas A noite escuto o seu lamento/São pesadelos e aves de rapina/ No sol vermelho do meu pensamento”.

Como arquiteto, Fausto já é uma instituição da paisagem construída do Nordeste, começando pelo Centro Cultural Dragão do Mar. Mas não só. Também ilustrador, é dele a capa do belo disco Samba Doce, do contrabaixista Jorge Helder.

Entre algumas parcerias sagradas, podemos lembrar algumas, abaixo (mas aqui o jogo é amplo; o leitor também pode eleger as suas melhores de Fausto Nilo):

Cidade Nua (com Fagner)

Retrato Marrom (com Rodger Rogério)

Barco de Cristal (com Clodo Ferreira)

Dezembros (com Zeca Baleiro e Fagner)

Dona da Minha Cabeça (com Geraldo Azevedo)

Sétimo Céu (com Geraldo Azevedo)

Um paraíso sem lugar (com Geraldo Azevedo)

Trem do interior (com Ednardo)

Um desejo só não basta (com Francisco Casaverde, gravada por Simone)

Pedras que cantam e Casa Tudo Azul (com Dominguinhos)

 

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