O jornalista e escritor Mário Magalhães. Retrato: Daniel Ramalho/ Divulgação
O jornalista e escritor Mário Magalhães. Retrato: Daniel Ramalho/ Divulgação

O jornalista e escritor Mário Magalhães participa hoje (26) de mais uma edição do Diálogos Insurgentes, evento promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

Repórter tarimbado, Mário Magalhães é autor de “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras, 2012), em que se baseia o filme dirigido por Wagner Moura e estrelado por Seu Jorge, que estreia no Brasil em novembro, e “Sobre lutas e lágrimas – Uma biografia de 2018” (Record, 2019).

2018, autoritarismo, democracia e resistência são os temas do debate de hoje. “Eu acho bem bacana o nome desse projeto, Diálogos Insurgentes. Por que governos autoritários, com vocação para ditadura, a primeira coisa que eles tentam interditar é a livre expressão do pensamento, e portanto tentam impedir o diálogo. Dialogar, pensar, no Brasil de hoje, é uma forma de resistir. Quando não querem que a gente pense, a gente pensa, quando não querem que a gente fale, a gente fala, quando não querem que a gente dialogue, a gente dialoga”, provocou Mário Magalhães.

Após o debate ele autografa “Sobre lutas e lágrimas”. Ele conversou com o Farofafá, em parceria com o Radioletra, programa apresentado por Suzana Santos e Zema Ribeiro, veiculado aos sábados na Rádio Universidade FM, com retransmissão pela Rádio Timbira AM (ouça aqui a participação de Mário Magalhães).

ENTREVISTA A SUZANA SANTOS E ZEMA RIBEIRO

O jornalista e escritor Mário Magalhães. Retrato: Daniel Ramalho/ Divulgação
O jornalista e escritor Mário Magalhães. Retrato: Daniel Ramalho/ Divulgação

Zema Ribeiro – Mário, eu queria começar falando sobre o “Marighella”. Teu livro inspirou o filme do Wagner Moura, foi bem recebido em festivais internacionais, mas ainda sem data de estreia no Brasil. Qual a sua opinião sobre a covardia da Paris Filmes?
Mário Magalhães
– O que eu posso contar a essa altura do campeonato é uma notícia boa. O filme “Marighella”, como você falou dirigido pelo Wagner Moura, vai estrear nos cinemas brasileiros no dia 20 de novembro, Dia de Zumbi, Dia Nacional da Consciência Negra. Não foi fácil, foi um percurso complicado se chegar até essa definição, mas nesta terça-feira passada (20) foi divulgado primeiro o trailer, o teaser do filme, que está confirmado para 20 de novembro. O que a gente tinha antes era uma pressão do governo muito forte contra o filme e que foi confirmada, havia vários indícios, várias denúncias. Mas, essa pressão do governo, o ato de transformar o filme “Marighella” em questão de governo e de Estado, ele foi exposto pela suspeita figura do deputado federal Alexandre Frota antes de romper com o bolsonarismo ou com o presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, o ambiente de ar rarefeito, de pouco oxigênio democrático no Brasil destes tempos, um filme se transformou numa questão cara para o governo e, por sorte, graças a pressões e ações democráticas de muita gente, o filme já tem data marcada para estrear. Ninguém é obrigado a ir ao cinema, mas é uma questão elementar de tolerância, de direitos humanos e de liberdade permitir que quem queira ver o filme, possa vê-lo.

Suzana Santos – Para escrever “Marighella” você largou emprego para se dedicar exclusivamente a esse projeto. Gostaria que você comentasse um pouco a experiência.
MM
– É o seguinte, o “Marighella” me tomou nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em regime de dedicação exclusiva. Eu entrevistei 256 pessoas, mais de 60 já faleceram, não por eu ser pé frio, mas por terem sido contemporâneos de um homem nascido em 1911. Até uma professora do Marighella no fim da década de 20, no Ginásio da Bahia, Dona Heddy Peltier, eu entrevistei. Eu tive acesso a dezenas de milhares de páginas de documentos de 32 arquivos públicos e privados de cinco países, trabalhei com uma bibliografia de 500 títulos, ou seja, foi uma trabalheira gigantesca, um trabalho de vida e isso só foi possível porque eu larguei o emprego, quer dizer, eu era repórter especial da Folha de S. Paulo, no meio dessa aventura da biografia “Marighella” eu voltei a trabalhar na Folha, quando meu pé de meia acabou, até sair de vez do jornal em 2010 e lançar em outubro de 2012 a biografia “Marighella”. Do ponto de vista financeiro, se dedicar assim a um livro é um péssimo negócio. Quem quiser conhecer um pouco mais da desgraça que é abrir mão de salário pra escrever livro, tem nas redes, basta digitar no Google o meu nome com o título de um artigo em que eu conto o meu buraco econômico quando fiz a biografia “Marighella”. O título desse artigo é “Caixa Preta de um biógrafo falido”.

Marighella. Capa. Reprodução
Marighella. Capa. Reprodução

ZR – Você viu o resultado do “Marighella”, sem tentar fazer aquele exercício impossível de “o livro é melhor do que o filme” ou vice-versa. O resultado do filme do Wagner Moura te agradou?
MM
– Vou te fazer uma confidência, eu vi cinco ou seis sequências, somando 15 minutos do filme, eu não vi mais que isso. Eu me reuni com o elenco, fiz palestra para o elenco do filme, eu acompanhei filmagens, eu troquei ideias com o Wagner, mas a minha contribuição fundamental foi escrever o livro. Eu acho importante enfatizar isso que você tá falando, ou seja, são artes diferentes, linguagens diferentes, a literatura, como a minha de não-ficção, e a do cinema, então é incomparável, não dá para comparar. O Wagner se baseia para fazer o filme dele na terceira e última parte do meu livro, que é a parte que vai de 1964 a 1969, os últimos anos do Marighella, ex-deputado, militando de armas na mão, um guerrilheiro contra a ditadura que vigorava, vigia então no Brasil. Então, o Wagner, primeiro, faz cinema onde eu fiz literatura e jornalismo. E o filme do Wagner não é um documentário, ele é um filme de ficção baseado em fatos reais. Um montão de episódios que eu descrevo no livro está no filme. O Marighella resistindo a prisão no cinema do Rio, o 9 de maio de 1964 tá no filme, o assalto ao trem pagador por guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional, organização dirigida pelo Marighella, tá no filme, o Marighella assaltando o banco tá no filme, um guerrilheiro urbano gritando que estão matando um brasileiro, um patriota quando é torturado por beleguins da ditadura, isso tudo tá no filme, mas a linguagem de ficção permite determinadas licenças. Por exemplo, para dar uma ideia prática, eu explico que quando a ALN assalta o trem pagador é pra roubar dinheiro, não pra ir pro bolso dos guerrilheiros ou fazer reforma na casa dos guerrilheiros, não, é pra somar recursos para poder combater a ditadura. Como isso virá no filme: até explicar isso tudo num filme de 2h35min é muito complicado, então o assalto é diretamente para armas, são roubadas armas que estão no trem. Você tá me entendendo? O Marighella participa do levantamento pro assalto no trem, ele faz o planejamento, mas ele não tá dentro do trem. No filme o Marighella está dentro do trem. Ou seja, é ficção baseada escrupulosamente em fatos reais. Mas, de fato, não dá para comparar uma coisa com a outra. Do que eu vi, o Wagner fez um filmaço de ação. Muita gente na equipe, a começar da preparadora de elenco, participou de “Cidade de Deus”, o diretor de “Cidade de Deus”, o Fernando Meirelles, é um dos produtores do filme “Marighella”, e também gente de “Tropa de Elite”, como o Wagner, estreando como diretor de longa-metragem, é o protagonista de “Tropa” 1 e 2. Então, é um filme que é um drama, mas é marcadamente um filme de ação. Ele é muito denso e o que eu vi foi impressionante, com um elenco exuberante.

Sobre lutas e lágrimas. Capa. Reprodução
Sobre lutas e lágrimas. Capa. Reprodução

SS – “Sobre lutas e lágrimas” tem inspiração no Zuenir Ventura de “1968: o ano que não terminou”, mas ao contrário daquele não tem distanciamento temporal, foi escrito no calor da hora, de dentro do furacão. O que foi mais difícil em escrevê-lo?
MM
– Na verdade o que tem de inspiração no clássico, espetacular livro do Zuenir no meu é o título do meu prólogo, da abertura do meu livro, que se chama “O ano que tão cedo não vai terminar”, eu me referindo a 2018, e também a abertura do meu livro. O Zuenir abre o livro dele sobre 68 contando como foi a festa de virada do ano de 67 para 68, uma festa na casa da professora Heloísa Buarque de Holanda, no Rio de Janeiro. Eu abro o meu livro com o réveillon da Marielle com a Mônica, companheira dela. Essas foram as inspirações. O Zuenir escreveu o livro 20 anos depois dos acontecimentos, ou seja, o livro dele sobre 68 foi lançado em 1988. Eu fiz, como você disse, no calor da hora, no olho do furacão. Não é mais fácil e nem mais difícil, é simplesmente diferente. É claro que se eu for escrever daqui a 20 anos um livro sobre 2018, não vai ser igual a um livro que eu fui escrevendo semana por semana. Daqui a 20 anos, um livro meu sobre 2018 teria muito mais cabeça do que coração. O livro escrito, o livro que eu escrevi, tem muito coração. Isso não significa que eu escreva uma narrativa adocicada, cheia de adjetivos, não, não, a minha prosa, pelo contrário, é mais seca. Mas, eu vivo intensamente aquilo. Eu começo o livro com aquela loucura de gente matando macaco, supondo que macaco transmite febre amarela, o que é falso, e com milhões de pessoas fugindo da vacina contra febre amarela, achando que a vacina mata, e aí eu vou vivendo no calor dos acontecimentos: a paralisação dos caminhoneiros, o incêndio no Museu Nacional, a Copa do Mundo, a intervenção no Rio, a morte da Marielle, a prisão do Lula, a facada no Bolsonaro, a violência política exacerbada, ou seja, eu vou viver 2018 da maneira mais intensa que pode ser vivida, que é durante, durante aqueles acontecimentos. Então, o livro expõe isso claramente, que dizer, eu tô narrando em junho/julho como o Bolsonaro se fortaleceu junto ao empresariado, mas eu não sei ainda qual vai ser o resultado da eleição. Eu estava certo em dizer, por exemplo, que era uma estupidez considerar o Bolsonaro um candidato sem chance, muitos analistas disseram que ele não teria chances de vencer, mas obviamente nem todas as avaliações se confirmam. Então, quando eu falo sobre censura, eu tô no Festival Lula Livre, que ocorreu no Rio de Janeiro em meados do ano, com dezenas de milhares de participantes, quando Chico Buarque e Gilberto Gil cantam “Cálice”, que foi uma música deles proibida pela ditadura em 1973, e aí vou contando o que acontecia naqueles dias de censura a peças de teatro, a exposição de arte, a manifestações em universidade, a lançamento de livro, a publicação de reportagens, ou seja, o livro escrito no calor dos acontecimentos é mais quente do que um livro escrito muito tempo depois.

ZR – Os personagens centrais deste teu novo livro são Marielle Franco, Lula e Jair Bolsonaro. 2019 tem sido um ano tão ruim que, tragédia após tragédia, também parece merecer uma biografia. Caso você a escreva, os protagonistas serão os mesmos ou se acrescentam nomes a este núcleo central?
MM
– O que eu sustento no livro é que 2018 foi um ano tão marcante pro Brasil, que as suas consequências não vão ser percebidas, 2018 não vai influenciar só os anos vindouros, vai influenciar o Brasil por décadas. O que tá se perdendo de floresta queimando, isso não tem volta e esta bola tava cantada em 2018, tá no livro, livro que eu concluo no dia 31 de dezembro de 2018. O ataque à tecnologia e à ciência, isso também era bola cantada de 2018. A ditadura fez isso, quer dizer, em 1964 a ditadura afastou um sem número de cientistas de Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz. E eles foram pro exílio e passaram 15 anos produzindo ciência em outros países, muitos nunca voltaram. Ou seja, os acontecimentos de 2019, um por um, eles já estavam cantados no ano passado. Então, eu não vou escrever um livro sobre 2019, agora o que eu acho é que 2019, na verdade, é a continuação não apenas cronológica de 2018. É a continuação existencial, porque você pode me citar um fato de 2019 e eu vou mostrar como isso já tava decidido, encaminhado em 2018. Por exemplo, nesta semana tivemos o caso do secretário nacional de Cultura pedindo as contas, por que o presidente da república interferiu num edital de financiamento de cinema. Ora, isso tava claro no ano passado. Eu estava falando agora há pouco, eu tenho um capítulo que é exclusivo sobre o recrudescimento da censura nas artes, na educação, na política. Nesta semana o governo anunciou o pacote de empresas que vão ser privatizadas. Ora, tenho um capítulo que abre com o perfil do Paulo Guedes, o Paulo Guedes é um banqueiro, esse super ministro da economia. O Bolsonaro, que em tempos passados teve veleidades de proteção do patrimônio público, já tava claro no ano passado, nas declarações dele, que isso tinha acabado, e é isso, vão vender os Correios, vão vender empresas estatais superavitárias. Esse discurso obscurantista, todo ele, já estava com a “bola cantada”, ou seja, nitidamente para mim, o que a gente tá vivendo é o ano que tão cedo não vai terminar, é 2018, porque daqui a 50 anos, não tenho dúvidas, a gente vai lembrar no Brasil de 2018, como em 2018 a gente recordou o ano de meio século antes, o ano dramático de 1968.

ZR – O jornalista Luiz Maklouf Carvalho publicou recentemente “O cadete e o capitão” (Todavia, 2019), que remonta o processo que culminou com a expulsão de Jair Bolsonaro do exército, que um fato que tu também aborda no teu livro novo. Você leu o livro? O que achou?
MM
– Não, eu ainda não li. Eu tou com o livro do Maklouf na minha mesinha de cabeceira, esperando para ler. Não tenho a menor dúvida que é um ótimo livro, basta considerar a história do Maklouf como grande repórter que ele é, e trazendo, investigando um assunto relevante. Eu, em “Sobre lutas e lágrimas” eu faço um resumo muito grande do processo a que respondeu o então capitão Jair Messias Bolsonaro no Superior Tribunal Militar, na década de 80. Eu li duas vezes as 765 páginas do processo em que o Bolsonaro foi acusado de uma série de indisciplinas. Eu te confesso o seguinte: que o Bolsonaro era um militar indisciplinado, eu já sabia, antes de ler o processo; que o Bolsonaro tinha, segundo uma repórter com credibilidade, segundo laudos da polícia federal, de um croqui de um plano de explosão de uma bomba, que o Bolsonaro planejou estourar artefatos em dependências militares para obter soldos maiores, reivindicar salários maiores no exército, tudo isso eu já sabia. O que eu não sabia era das duas testemunhas oficiais, superiores do Bolsonaro, chefes do Bolsonaro no exército brasileiro, falando da obsessão que o então capitão tinha por enriquecer, por fazer dinheiro. Um capitão do exército brasileiro que aproveitava as férias para ir pro garimpo atrás de ouro, pra bamburrar, ou seja, de acordo com esses dois testemunhos, o negócio do Bolsonaro era acumular patrimônio. A gente vai chegar no início de 2018 e Bolsonaro e os três filhos, que só tiveram fundamentalmente receitas como funcionários públicos durante a vida, já são donos de 15 imóveis registrados. O leitor está livre para associar aquela antiga ambição, diagnosticada no exército, à fabulosa acumulação patrimonial da família Bolsonaro.

SS – O repórter é a alma do jornalismo, como você escreve nos agradecimentos do novo livro. O que te move, no exercício profissional, como jornalista e escritor, num momento político tão conturbado, de profundo desprezo pelo conhecimento e pela ciência?
MM
– Segunda-feira [hoje, 26], aí em São Luís, eu vou falar sobre 2018, autoritarismo, democracia e resistência. Pra um repórter a resistência suprema é contar. Contar também é resistir. “Sobre lutas e lágrimas – Uma biografia de 2018”, que é o meu novo livro, é um esforço pra contar, pra contar a história com os olhos não de quem difundiu, alardeou o obscurantismo em 2018, mas os olhos de quem combateu. As lutas do título se referem às lutas contra as trevas, as lágrimas são as lágrimas de quem defendeu a tolerância e não o ódio. O que um repórter pode e deve fazer de mais importante é registrar escrupulosamente o seu tempo, o tempo em que vive. Isso vai desde um esforço como o meu, de contar um ano inteiro, semana a semana, até o escrúpulo que o repórter tem que ter ao cobrir os debates sobre a chamada reforma previdenciária, tem de ouvir opiniões divergentes. A gente vê que muitos repórteres e muitas publicações, telejornais colocam três especialistas para falar de reforma da previdência e os três têm a mesma opinião. O jornalismo é um serviço público, mesmo quando exercido por empresas privadas, que consiste essencialmente em informar. Se os repórteres informarem, com escrúpulos, já terão prestado um grande serviço público.

ZR – Há um trecho muito bonito em “Sobre lutas e lágrimas” em que você ousa uma diferenciação entre parente e família, já que defender torturas e execuções, a barbárie enfim, não é mera questão de opinião política, de lado. Ninguém tem fórmula, mas qual seria a sugestão do Mário Magalhães para superar a polarização em que o Brasil se encontra?
MM
– A humanidade já viveu períodos assim. É por isso que “Sobre lutas e lágrimas” vai e volta tanto no tempo. O Bolsonaro não é um fenômeno exclusivo, a extrema direita no poder não é um fenômeno exclusivo no Brasil, há vários países na Europa que estão passando por isso e mesmo os Estados Unidos. O nazifascismo, não que tenha se iniciado, mas ele chega ao poder na Alemanha e consolida o poder na Itália depois da crise econômica de 1929, o célebre crash da bolsa de Nova York. O que a gente vive hoje são consequências diretas da crise econômico-financeira de 2007-2008, em que a democracia ou o liberalismo tiveram a credibilidade profundamente atingida. Em todo mundo houve o recrudescimento, um crescimento de organizações extremistas. O fundamental, que eu acho, na defesa da democracia, na defesa da civilização contra a barbárie, é não naturalizar o que não é natural. As pessoas tendem a achar, “não, isso é assim mesmo”, não, não é assim mesmo. Um governo como se tem hoje, não é mais um governo autoritário. É um governo que tem um líder que já disse que as minorias desapareçam. Quem disse que as minorias desapareçam está pregando o extermínio. Quem conhece história sabe o que aconteceu nas décadas de 30 e 40 do século passado. Quando alguém pesa um ser humano em arrobas, que é medida usada para pesar animais, está evidentemente ferindo os direitos humanos. Como eu conto no livro, tem um capítulo inteiro para feminicídio, o atual presidente considera feminicídio mimimi e prometeu, se presidente, chegando ao Planalto, acabaria com a lei do feminicídio. Não explicou como, tem que passar pelo Congresso. Uma coisa fundamental é não naturalizar, não considerar natural uma série de atitudes que vão ocorrendo. Por exemplo, dizer que organizações não-governamentais estão colocando fogo na Amazônia não é só mais uma aparente maluquice, é algo muito grave. Na verdade o propósito é não tomar uma só iniciativa para interromper a devastação da floresta, pelo contrário, incentivar a devastação da floresta. Ou seja, não se pode aceitar as coisas como elas são. Bom, a História não acabou. Um dos subtítulos do meu livro é “o ano em que o Brasil flertou com o apocalipse”. Algumas pessoas perguntam: “por que flertou e não o ano do apocalipse?”. Por que o apocalipse significa o fim da História e a História não acabou, como a gente pode ver recentemente em manifestações por todo o país em defesa da educação pública.

SS – O vazamento de diálogos comprometedores de agentes da operação Lava Jato pelo site The Intercept Brasil, onde você publicou a maioria dos textos de “Sobre lutas e lágrimas”, arranhou, mas não abalou o governo, numa demonstração de que as instituições não estão funcionando no Brasil. Há uma saída?
MM
– A saída é defender uma justiça constitucional, imparcial, e não agente político-partidária. Como eu conto no livro, no fim de janeiro de 2018, um dos três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, ao julgar o processo do tríplex do Guarujá, um dos réus era o ex-presidente Lula, esse desembargador disse mais ou menos o seguinte: “quem responde a processo é por que alguma coisa aprontou”. Ora, levando à frente esse tipo de raciocínio, em qualquer lugar do planeta e em qualquer época, não existiria um só inocente. Fora que a Constituição assegura ou deveria assegurar a presunção de inocência. Já estava claro que não havia, que não houve um processo justo no caso do ex-presidente Lula e o livro conta muitas e muitas e muitas e muitas e muitas passagens de como a justiça acabou funcionando como um agente político. A operação Lava Jato sob a aparência de um inquérito, um processo judicial, foi na verdade uma operação política que levou à presidência da República um representante da extrema-direita. Essas revelações da Vaza Jato, do Intercept, são de enorme relevância para que cidadãs e cidadãos possam entender isso. Mas não custa lembrar que os elementos todos já estavam dados no ano passado. Já estava claro que não havia um processo justo do Lula no processo no caso do tríplex. Eu acho o seguinte: a pessoa pode achar o Lula herói ou vilão, pode se identificar com ele ou não, pode achar que ele era o dono, sim, do tríplex ou não, que em troca, sendo dono, cometeu corrupção ao oferecer favor a quem pagou o tríplex, teria pago o tríplex, cada um pode achar o que quiser, mas já era insustentável supor a versão de que o Lula foi submetido a um processo justo. E não foi, por que era preciso retirá-lo da eleição. De todos os fatores que contribuíram para a eleição do Jair Bolsonaro, o mais importante, o decisivo, foi a proibição de participação no pleito daquele que venceria o Bolsonaro com larga margem.

ZR – Quais os próximos planos de Mário Magalhães?
MM
– Eu estou correndo o Brasil inteiro lançando “Sobre lutas e lágrimas” e falando de 2018, como eu vou fazer nessa próxima segunda-feira [hoje, 26] em São Luís. Junto com isso, desde 2015, eu preparo uma biografia do Carlos Lacerda, que foi um dos mais controversos e apaixonantes personagens da história da República no Brasil. Estou mergulhado nisso, a biografia vai sair em dois volumes. Se tudo der certo, o primeiro sai no finzinho de 2020.

Serviço

O quê: Diálogos Insurgentes
Quem: o jornalista e escritor Mário Magalhães
Onde: Auditório do Palácio Henrique de La Rocque (Av. Jerônimo de Albuquerque, Calhau)
Quando: hoje (26), às 17h30
Inscrições: pelo site Participa Maranhão

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