George Boyd comemorou seus 67 anos trabalhando no piano do Teatro Arthur Azevedo. Retrato: Zema Ribeiro
George Boyd comemorou seus 67 anos trabalhando no piano do Teatro Arthur Azevedo. Retrato: Zema Ribeiro

George Boyd está em São Luís. O pianista que afina (ou o afinador que toca) – o que é uma exceção: a maioria dos afinadores não toca – veio para um conserto. Com s mesmo: veio reparar e afinar o piano Steinway de cauda do Teatro Arthur Azevedo – a empreitada é patrocinada pela TVN. Um novo, do modelo, tem o valor estimado em R$ 1,5 milhão.

O instrumento do teatro tem 26 anos, mas “vai viver muito mais do que a gente”, assegurou o nova-iorquino, radicado no Brasil há quase a idade do piano. No misto de ourivesaria e cirurgia, Boyd trabalha o tempo todo sorrindo, alegre com o que faz, felicidade talvez potencializada por ter completado ontem (25) 67 anos de idade. Em plena oficina do Arthur Azevedo.

Ele tentou fugir da comemoração – a equipe do teatro comprou-lhe bolo e refrigerante para cantar-lhe os parabéns: “isso é mentira. Só por que a coisa sai no jornal não significa dizer que é verdade”, troçou, em referência sutil às fake news propagadas maciçamente desde a última campanha eleitoral. “É uma honra minha estar em São Luís hoje. Adoro a cidade, faz 20 anos que não chegava aqui. É um lugar abençoado, sinceramente”, derreteu-se.

Trabalha o tempo inteiro rindo e presenteou os que passaram pela oficina com execuções de um trecho de um movimento de “Partida nº. 1”, de Bach, e “Baião malandro”, de Egberto Gismonti, de quem declarou-se muito fã e com quem já trabalhou diversas vezes. Em suas próprias palavras, não é “muito amigo do palco”. E continua: “se estou reprimido ou tenso, vou transmitir isso na música, e não é o que eu quero. Eu gosto de certos momentos tocando para os outros, momentos mais íntimos”. Era o caso.

Boyd é o único capacitado pela própria fábrica Steinway & Sons em seu ofício no Brasil – é um dos mais conceituados profissionais da área no mundo. Ele mesmo já formou uma porção de gente. Mas comparou seu ofício ao de um dentista. “Às vezes você vai ao dentista e ele diz que é preciso fazer isso e aquilo, quando na verdade você só precisa escovar e usar o fio dental”.

“Eu estou há 24 anos no Brasil e adoro. Me disseram: como você deixou Nova York para isso? E eu falei: paraíso”, trocadilha ao declarar seu amor pelo país que o adotou. “Eu costumo dizer que o Brasil é o país mais rico do mundo vestido de mendigo”, alfinetou.

Sábio, ensinou: “a vida é muito mais que uma carreira. Quando eu cheguei ao Brasil, havia uma onda de violência muito grande no Rio de Janeiro. Quando eu relatava, as pessoas perguntavam por que eu ficava. E eu dizia: a mesma liberdade que o bandido tem, eu também tenho, só que eu uso a minha liberdade para criar. Eu posso fazer o que eu quero. Não é uma questão de ficar rico”.

Pergunto-lhe se ele sente essa liberdade ameaçada pelo governo de Jair Bolsonaro. “Às vezes eu sinto. Eu tenho lido tanta coisa, o que ele falou sobre o governador daqui. O Flávio Dino é um político de visão ampla. Eu sou um visitante, um visitante no planeta. Em vez de colocar esse poder na mão de poucos, a gente precisa assumir nosso poder no dia a dia, viver com ética. Se Deus é nosso pai, eu sou pai, um pai quer que o filho brinque no quintal e não se machuque. Todo mundo tem inveja do Brasil, por que a gente vai tratar o Brasil como lixo?”

Em sua visita a São Luís, George Boyd visitará ainda diversas instituições, para um diagnóstico da situação e afinação de seus pianos. Na lista estão a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, o Palácio dos Leões e o Restaurante do Senac, entre outras.

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