Ferreira Gullar
O poeta maranhense Ferreira Gullar, morto em 2016, que tem os 90 anos de seu nascimento celebrados em 2020

Neste ano de 2020 completam-se 90 anos do nascimento do poeta maranhense Ferreira Gullar. Morto há 4 anos, em 2016, Ferreira Gullar deixou a atividade intelectual de seus últimos anos marcada pelo reacionarismo e pelo espírito de vendetta, além de não ter feito nenhum livro especialmente mencionável no período final.

Mas é impressionante a influência das primeiras obras de Gullar, especialmente a coletânea Dentro da Noite Veloz (1962-1974) e Poema Sujo (1975), na mais nova e vibrante poesia que se faz no País hoje, autores como Mailson Furtado (À cidade) e Félix Alberto Lima (filarmônica para fones de ouvido).

Ferreira Gullar era o pseudônimo do dramaturgo, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta (assim como um dos mentores do neoconcretismo) José de Ribamar Ferreira, nascido em um porta-e-janela da Rua dos Prazeres em São Luís do Maranhão, em 10 de setembro de 1930. “Mais que nordestino: maranhense”, definiu-se Gullar, destacando a qualidade insular de seu DNA cultural.

A notável consciência de Gullar na formulação de seu primeiro clássico, Dentro da noite veloz, decretou a eternidade dessa obra, mas é sobretudo no ritmo de rua e no coloquialismo modernos que estão as principais forças e atualidade daqueles versos fundacionais de uma poesia consequente, cheia de coragem, pronta para o confronto (e irônica em relação ao poema resignado, beletrista, dependente da beleza e da metáfora), treinada para o combate:

“Só cabe no poema/O homem sem estômago/A mulher de nuvens/A  fruta sem preço/O poema, senhores, não fede/Nem cheira”, ironiza Gullar, em Não há vagas (1963).

Fustigado pela repressão, alvo da ira dos paranoicos de quartel, Gullar fez de seus poemas dos anos 1960 e 1970 aríetes de uma nova expressão formal e política, um coquetel molotov de indignação e imagens de esclarecimento:

“O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud, relógios de lilases, concretismo, neoconcretismo, ficções da juventude, adeus, que a vida eu a compro à vista aos donos do mundo.  Ao peso dos impostos, o verso sufoca, a poesia agora responde a inquérito policial militar” (Agosto 1964).

Também é possível enxergar nos poemas dessa coletânea a influência de Ferreira Gullar na poesia cantada que sobreveio à sua obra inicial, como por exemplo a canção Pequeno Perfil de um Cidadão Comum, de Belchior, bastante aparentada de Notícia da morte de Alberto Silva (1969), ou Peter Gast, de Caetano Veloso, que ecoa Homem Comum, de 1963. “E podemos formar uma muralha/Com nossos corpos de sonho e margaridas”, escreveu Gullar. Outra qualidade são os diálogos intertextuais. “Estou preso à vida como numa jaula” evoca “Estou preso à vida e olho meus companheiros”, do poema Mãos Dadas, de Drummond, de 1940.

A formulação política desses poemas iniciais está, evidentemente, permeada pela doutrinação comunista de Gullar, mas não carrega nenhum ranço de arregimentação, CPCzista, muito menos pieguice. É um tipo de eulogia, uma louvação dos atributos da rebelião individual (embora ele conclame a uma tomada de posição coletiva).

Chega a doer nos olhos saber que um autor que legou um poema imortal totalmente formulado em cima de uma manchete de jornal (“No Piauí de cada 100 crianças que nascem 78 morrem antes de completar 8 anos de idade”) tenha se tornado no final da vida um dos mais figadais inimigos do Bolsa Família, programa que erradicou a mortalidade infantil em sua terra, e que foi resgatada pela nova ordem política nacional nos últimos três anos. E o poeta o fez usando argumentos totalmente equivocados, eivados de preconceito e desinformação.

O Maranhão é parte fundamental de toda a obra do poeta, a infância às margens do Bacanga, o tijuco da Camboa, o Anil, Alcântara e suas ruínas, mas é interessante salientar que a obra inicial está muito ligada ao Rio de Janeiro, para onde Gullar mudou-se em 1950, aos 20 anos, sendo bastante impactada pela crônica metropolitana, o Leblon, as notícias do Vietnã, a Guerra Fria, as lutas raciais, o capitalismo, o consumismo, a corrida atômica.

Já o Poema Sujo, um texto de um corpo só em 92 páginas escrito no exílio do poeta em Buenos Aires e publicado em 1976, é uma canção do exílio na qual a lonjura do Maranhão materializou-se como uma iluminação e fez os maiores buracos no espírito do poeta, ele passando a estimar tudo que era reminiscência.

“Me extravio
Na Rua da Estrela, escorrego
No Beco do Precipício.
Me lavo no Ribeirão.
Mijo na Fonte do Bispo.
Na Rua do Sol me cego.
Na Rua da Paz me revolto.
Na do Comércio me nego
Mas na das Hortas floresço;
Na dos Prazeres soluço
Na da Palma me conheço
Na do Alecrim me perfumo
Na da Saúde adoeço
Na do desterro me encontro
Na da Alegria me perco
Na rua do Carmo berro
Na Rua Direita erro
e na da Aurora adormeço.

Ao mesmo tempo, é o Poema Sujo que se tornou a obra mais encharcada de atos de ruptura de toda sua produção. Agora sim, tratava-se do exame da condição do poeta em sua rota de colisão com o conceito total de poder, sua angústia face às escolhas a que o submeteram. “Prego a subversão da ordem poética, me pagam. Prego a subversão da ordem política, me enforcam junto ao campo de tênis dos ingleses/Na Avenida Beira-Mar”.

Para a posteridade dos verbetes, o Poema Sujo sempre será citado por sua desinibição escatológica (“Atravessado de cheiros de galinheiro e rato/Na quitanda ninho de rato/Cocô de gato/Sal azinhavre sapato/Brilhantina anel barato/Língua no cu na buceta cavalo-de-crista chato/nos pentelhos/Corpo meu corpo-falo/Insondável incompreendido/meu cão doméstico meu dono/Cheio de flor e de sono”).

Ferreira Gullar desafia não apenas os poderes instituídos, mas outras prerrogativas de opressão, como a do próprio leitor, o juízo pronto do leitor, sua expectativa confortável da literatura. “Azul era o gato azul era o galo azul o cavalo azul teu cu/Tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana/Entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)…”.

Biópsia existencial, o Poema Sujo possui também uma engenharia de composição orquestral (tonal em alguns momentos, dodecafônica em outros), com sugestão até mesmo de trilha sonora em determinados andamentos poéticos onomatopaicos (no caso, a Bachiana nº 2, da Tocata, de Villa-Lobos).

As profecias do Poema Sujo soterraram o próprio autor, que diz nos versos temer terminar “deputado e membro da Academia Maranhense de Letras” (terminou dono da cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras). Por conta de sua conversão reacionária, foi “anistiado” por velhos adversários da direita, como jornais a quem tinha processado quando operário do texto, e que o nomearam arauto remunerado de suas convicções (deles, os jornais). Mas, mesmo enlaçado pelas capitulações e egoísmos que sua poesia combateu em primeira hora, Ferreira Gullar é um legado grande demais para ser simplesmente cancelado, como virou moda, ou deixado de lado.

Talvez apenas dois livros da poesia brasileira tenham sido inimigos tão violentos dos condicionamentos, livres como atos de extrema-unção e tão solitários em seu radicalismo: o Poema Sujo, de Gullar, e Paranoia, de Roberto Piva.

“Cientistas esquartejam Púchkin e Baudelaire/Exegetas desmontam a máquina da linguagem/A poesia ri.”

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