A ministra da Cultura, Margareth Menezes, e a presidenta do Ibram, Fernanda de Castro

Em resposta a um pedido de explicações da presidenta da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Andréa Luisa Zhouri Laschefski, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão do Ministério da Cultura que gere 30 museus nacionais, se manifestou pela primeira vez sobre a demissão do presidente do Museu da República, Mario Chagas, em julho, no Rio de Janeiro. A resposta, assinada pela presidenta do Ibram, Fernanda Santana Rabello de Castro, e por quatro subordinados seus, foi enviada no último dia 22 à ABA.

A carta do Ibram é vaga em argumentos e ligeiramente nonsense – chega a pedir à ABA que ajude o Ibram “no combate à disseminação de notícias falsas veiculadas em redes sociais e na imprensa” sobre o caso. Como notícia falsa, o instituto menciona a informação de que Fernanda de Castro, presidenta do Ibram, teria ordenado a demissão de pessoal terceirizado no Museu da República, possível motivação da dispensa do ex-diretor Mario Chagas (que teria se oposto à intenção), mas não cita a fonte de tal notícia.

Segundo o Ibram, o motivo oficial alegado para a demissão de Mario Chagas, o de “não alinhamento” com as diretrizes do governo, “diz respeito a procedimentos técnicos e administrativos de gestão que têm fortalecido o Instituto em conjunto com todas as suas unidades museológicas no cumprimento de sua missão e no desenvolvimento de processos que estejam de acordo com as premissas legais de registro; controle interno e externo; a boa e regular aplicação dos recursos públicos, sob orientações gerais do Ibram, do MinC e do Governo Federal“. A explicação prossegue sendo uma abstração, porque não especifica em que Chagas teria agido para “enfraquecer” o instituto, “descumprir” sua missão institucional e deixar de desenvolver projetos ou coisa parecida.

O epicentro da demissão de Mario Chagas é a coleção Nosso Sagrado, composta de itens preciosos da história dos cultos afro no Brasil (e a consequente perseguição que sofreram). Essa coleção chegou ao museu em 2020 e, a partir de então, foi tratada com distinção pela instituição por se tratar de um tema especialmente caro a Chagas, homem negro, escritor, museólogo e ativista cuja dissertação de mestrado tinha o título Há uma gota de sangue em cada museu. A intempestiva demissão do diretor levou os grupos ativistas a desconfiar de motivações sombrias, e a sequência de acontecimentos veio corroborar essa sensação: uma reunião agressiva entre a direção do Ibram e o grupo de Gestão Compartilhada do acervo, a ausência de justificativa plausível para a decisão, a pressa em enterrar o assunto.

O Ibram asseverou que reconhece a importância do acervo Nosso Sagrado, constituído principalmente pelos itens da cultura afrodiaspórica, “como um símbolo do racismo institucional que se encontra arraigado ainda hoje nas instituições”, e diz que vai garantir sua gestão compartilhada com as lideranças dos coletivos e religiões afro. Mas uma gestão compartilhada só pode ser repartida com a sociedade se for democrática, e a demissão de Chagas não foi democrática, porque os representantes dos terreiros (11 deles participam do grupo) não foram ouvidos sobre sua dispensa. “Quanto à propagação de outros ataques como racismo religioso e represália às ações de participação social e valorização da atuação de segmentos sociais historicamente marginalizados no Museu, as atividades desenvolvidas pelo Instituto reforçam o nosso compromisso com a sociedade e o campo”, afirma a nota.

O Ibram trata a exoneração de Chagas, em seu texto, como um trâmite burocrático. “Fundamental destacar que a dispensa da função comissionada ocupada não exclui o servidor (Mario Chagas) do quadro do Ibram, que poderá, a seu critério, dar continuidade à sua atuação na unidade museológica, inclusive com ações relacionadas ao acervo Nosso Sagrado”, afirma o documento.

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