Imagem montada de cenas da peça "Ana Lívia", de Caetano Galindo - Foto: Matheus Jose Maria/ Divulgação
Imagem montada de cenas da peça "Ana Lívia", de Caetano Galindo - Foto: Matheus Jose Maria/ Divulgação

Finnegans Wake, de James Joyce, exige um esforço do leitor. Em uma estrutura fragmentada, não linear, experimental do começo ao fim e fora das convenções da linguagem e da narrativa, a obra, que levou 17 anos para ficar pronta, até hoje desafia estudiosos e o público em geral. Caetano W. Galindo, tradutor de James Joyce, faz sua estreia no teatro com Ana Lívia, uma clara referência ao personagem Anna Livia Plurabelle, entregando um texto igualmente difícil de ser decifrado.

A peça Ana Lívia traz para o palco do Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, o embate de duas atrizes. Bete Coelho é Ana; Georgette Fadel (Lívia) – Iara Jamra fará esse papel nos dias 24 de novembro e 7 de dezembro. A primeira personagem quer contar algo terrível, enquanto a segunda prefere falar de uma nova peça. As pulsões de morte e vida ficam evidentes logo de início, com potenciais disputas verbais entre uma e outra. Uma quer partir; a outra, não tem tempo para isso. Como pano de fundo, o teatro, já que é sobre essa arte que as personagens se digladiam.

Tal como em Finnegans Wake, uma história que não deixa de ser sobre o sonho – e, por que não, às múltiplas interpretações dele – Ana Lívia também recorre à metáfora da água, presente na protagonização do rio Liffey, em Dublin (na Irlanda), como fez James Joyce. Porém, com uma cenografia assinada pela diretora Daniela Thomas, o que se vê no palco é apenas uma grande mesa escura, três cadeiras, uma luz sem pirotecnia, as coxias visíveis. Tudo para que Ana e Lívia enfrentem suas questões particulares.

Descrita como uma tragicomédia, Ana Lívia é uma montagem corajosa para um mundo que caminha para o encurtamento das ideias. Galindo, como Joyce, não facilitou a vida do espectador, mesmo para o fã de carteirinha do teatro. E isso é digno de aplauso. Bete Coelho e Georgette Fadel realmente se entregam aos seus papéis, com notas muitos distintas uma da outra. Mas o notável é que, ao final, as personagens caminham para se fundir em uma só, ou talvez trocarem de papéis. E o que é o teatro senão uma grande fragmentação da vida?

Ana Lívia. De Caetano W. Galindo. No Teatro Anchieta, sextas-feiras e sábados (às 20 horas); domingos (18h); e sessão na quinta-feira 7/12 (15h). Até 17 de dezembro. Ingressos a 50 reais.
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