"Tightrope Dancer". Capa. Reprodução
"Tightrope Dancer". Capa. Reprodução

Em 1974 o equilibrista francês Philippe Petit usou um cabo de aço para transitar entre as então inacabadas Torres Gêmeas, em Nova York – sim, as mesmas do 11 de setembro de 2001. Ele conseguiu entrar ilegalmente na construção e realizou a travessia sem nenhum aparato de segurança, a 411 metros de altura do solo. O feito foi abordado no documentário “O Equilibrista” (2008), de James Marsh, baseado no livro “To Reach the Clouds” (“Para Alcançar as Nuvens”, em tradução livre), do próprio Petit.

O “crime” artístico de Petit completa 50 anos em 2024. Lembro do episódio por ocasião do lançamento de “Tightrope Dancer” (“Dançarina na Corda Bamba”, em tradução livre), disponível nas plataformas de streaming, vinil e cd, álbum que reúne a flautista brasileira Mariana Zwarg e o pianista alemão Johannes von Ballestrem, colegas de Sexteto Universal, com quem lançaram o ótimo “Nascentes” em 2020.

“Tightrope Dancer” é ponte. No plural: ponte entre os artistas, entre seus países natais, entre suas línguas, entre a música clássica e a música popular, entre as influências do jazz e de Hermeto Pascoal. Estas pontes estabeleceram-se muito rapidamente: Mariana Zwarg (flautas e voz) e Johannes von Ballestrem (piano, sintetizador e voz) conheceram-se em 2017 e logo estabeleceram uma intensa relação de trabalho que já conta dois álbuns (este em dueto e o do sexteto).

A relação se aprofundou durante a pandemia de covid-19: confinados em casa – ela no Rio de Janeiro, ele em Berlim –, desenvolveram um sólido trabalho, fruto de muitas horas ensaiando e tocando juntos, da maneira que fosse possível.

As 10 faixas do álbum são autorais, composições solitárias de Mariana Zwarg (a faixa-título, que abre o álbum, “Forró na Armação”, “Suíte Rio-Berlin” e “No Caminho”), de Johannes von Ballestrem (“Sunday’s Lament”, “Whitout Words”, “Gandria” e “Eckard”) e parcerias dos dois (“There’s No Rain” e “Teresa”).

Ouvir “Tightrope Dancer” – realizado com apoio de uma bolsa do Instituto Goethe – é atestar a maturidade musical de ambos, que se equilibram numa corda bamba entre dois mundos distintos, resultando em interseções jazzísticas ao mesmo tempo brasileiríssimas, à base de muito improviso e sentimento. Estas interseções – ou deveríamos dizer pontes? – são mais uma prova de que a arte salva, inclusive do ódio e da xenofobia reinantes, de qualquer forma de preconceito e discriminação.

Diverso, “Tightrope Dancer” unifica os universos da flautista e do pianista, sem reduzi-los ou simplificá-los. Adentre! Equilibre-se! Dance como se estivesse num salão, mas tenha cuidado para não acordar a criança. E que o barulho das bombas lá fora não se sobreponha ao som da música necessária de Mariana Zwarg e Johannes von Ballestrem.

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Ouça “Tightrope Dancer”:

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