Cássia Nascimento (Tati) em
Cássia Nascimento (Tati) em "Pacificado" (2019), de Paxton Winters

A controversa série de filmes ambientados em comunidades cariocas ganha mais um capítulo com Pacificado, em cartaz nos cinemas a partir do dia 11 de agosto, três anos depois de receber o prêmio de melhor filme de ficção pelo júri popular da 43ª Mostra Internacional de São Paulo. Um complicador em relação aos marcos fixados por Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles Katia Lund, e Tropa de Elite (2007), de José Padilha, reside no fato de que Pacificado tem como diretor um norte-americano, o também jornalista e fotógrafo texano Paxton Winters. No contexto das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, ele se mudou para o Morro dos Prazeres, que viria a se tornar locação do filme, ao que consta com aprovação e colaboração dos moradores da favela.

Se em Tropa de Elite o Bope (Batalhão de Operações Especiais) foi alçado à condição de protagonista, a força especial da Polícia Militar torna-se figurante em Pacificado, apesar do pano de fundo de “pacificação” implantado em 200 favelas cariocas a partir de 2008, pelas chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Tal como em Cidade de Deus, os protagonistas são os moradores da comunidade, e mais uma vez o tráfico de drogas domina enredos, ações e sentimentos dos personagens. Jaca (Bukassa Kabengele) é um ex-chefe do tráfico que passou 14 anos na prisão e volta para casa disposto a não mais retornar às malhas do crime e tenta se reintegrar à comunidade entre personagens como o pupilo Nelson (o global José Loreto), que o sucedeu na chefia do morro, a ex-namorada Andréa (a global Débora Nascimento) e a filha Tati (Cássia Nascimento, descoberta no próprio Morro dos Prazeres), de 13 anos, que só agora ele vem a descobrir e conhecer.

Bukassa Kabengele (Jaca) em "Pacificado"
Bukassa Kabengele (Jaca) em “Pacificado”

Mais sensível que Cidade de Deus e muito mais sensível que Tropa de ElitePacificado tropeça, no entanto, em clichês e preconceitos semelhantes aos que atravessaram os antecessores, em geral não percebidos à época do sucesso dos filmes. De Cidade de Deus, o filme de Winters herda alguns cacoetes que em 2002 chegaram a ser apelidados de “cosmética da fome”, em contraste com a “estética da fome” de Glauber Rocha. Com Tropa de Elite, Pacificado guarda em comum a espetacularização da brutalidade (uma “cosmética da violência”?), que, embora alegadamente combatida pelo ideário do filme, explode em detalhes nas cruas e insistentes cenas de violência contra crianças e em estilizações duvidosas da vida nas favelas. No mais, hoje são bem sabidas as armadilhas em que os filmes anteriores jogaram seus espectadores (no caso de Tropa de Elite, a estetização do militarismo e do neofascismo que explodiriam dez anos depois).

A cosmética da violência, aprendida pelo acúmulo nauseabundo de filmes de “ação” de Hollywood, mostra-se gozosa na ostentação da indústria armamentista aprendida na matriz. Nisso, Pacificado se afina dramaticamente com a política de “armas para todos” (inclusive bem longe das favelas) praticada pelo bolsonarismo no poder desde 2018. “Quanto pior for a economia, mais o povo bebe, se droga e vai pro cinema”, constata o atormentado Jaca, num recado sobre o status quo não apenas brasileiro, que se mistura e confunde com um chiste interno cinematográfico. Nesse recorte, o filme rodado em 2017 é puro 2022.

Os lampejos de sensibilidade, não muitos, denotam a evolução social que, à revelia do neofascismo, acompanha as primeiras décadas do século 21. Irmão mais novo de Jaca e soldado do tráfico, Dudu (Raphael Logam) revela personalidade de alguma profundidade, mais afeita à psicologia que ao maniqueísmo: o nome do estado de espírito que o domina e aprisiona é depressão. Algo parecido acontece com Andréa, sempre às voltas com a dependência química. Tati, adolescente oprimida por uma tonelada de pequenas e grandes violências, e Jaca, que teve o sorriso sequestrado pelo sistema penitenciário, exploram densidade extra, valorizada pelos atores que os interpretam.

A certa altura, vislumbra-se pela janela de uma casa nos Prazeres uma pichação de “fora Temer”, sintonizada no pós-Olimpíadas, mas tristemente anacrônica neste longínquo 2022. Incrustado entre o golpe de Estado em Dilma Rousseff e as pandemias de coronavírus e bolsonarismo, o filme constitui-se por inteiro no retrato de um período histórico em que o Estado de exceção se intensificou nas favelas e extravasou corrosivamente pelo dito asfalto brasileiro, para gosto do aparato transnacional de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Atemporal e onipresente, a câmera explora a anatomia dos Prazeres com minúcia, em tomadas de impacto. Para turistas cinematográficos, há as cenas-mostruário do baile funk e do terreiro de candomblé frequentado por Dona Preta (a extraordinária Léa Garcia).

A câmera de Payton Winters sobrevoa o Morro dos Prazeres em "Pacificado"
A câmera de Payton Winters sobrevoa o Morro dos Prazeres em “Pacificado”

O que Pacificado tem de mais próximo dos filmes que os precederam é a invariável idealização negativa da favela e da população preta do Brasil. Esse lugar simbólico, de 2002 a 2022, não deixou jamais de ser traduzido pela sociedade branca (racista) como mero teatro de guerra (e por vezes locação publicitária). No desamparo absoluto de Pacificado, não cabe um suspiro de alívio, um rasgo de satisfação ou um laivo de alegria. Nessa alegoria, o filme do estadunidense nômade Paxton Winters espelha não só os pequenos dramas e grandes tragédias das favelas e periferias, mas sim a sociedade brasileira como um todo. Esse Brasil, como o de Cidade de Deus Tropa de Elite, é aquele país que provoca em “gringos” (como os que no filme circulam felizes pelo Morro dos Prazeres e por sua vizinha Santa Teresa) ou em conterrâneos brancos aquele desconforto difuso, aquela compaixão distanciada, lá no fundo talvez aquele prazerzinho inconfessável de ver o “outro” se estrepar. “Eu preciso de paz”, asfixia-se Jaca-Brasil, sem nunca encontrá-la.

"Pacificado" (2019), de Paxton Winters

PacificadoDe Paxton Winters. Brasil, 2019, 119 min.

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