A compositora, cantora e escritora Karina Buhr - foto Priscilla Buhr
A compositora, cantora, atriz e escritora Karina Buhr - foto Priscilla Buhr

O que tinha ali naquelas águas do Recife entre o final dos anos 1980 e 1990 para ter criado uma cena cultural tão pujante e diversa já pertence à história. O manguebit, a torre em torno da qual orbitavam roteiristas, diretores, atores e atrizes, videoartistas, jornalistas, intelectuais e, sim, uma diversidade de músicos e bandas, se dissolveu ali pouco depois da morte ultraprecoce de Chico Science, aos 31 anos, em 1997. O trauma da perda do companheiro, amigo e agitador cultural à frente da Nação Zumbi, no entanto, não paralisou a usina pernambucana de ideias, sons, palavras e imagens.

Até pouco tempo atrás, no entanto, a produção literária era mais esparsa — ou, talvez, estivesse mais restrita à circulação local. Ano passado, Otto lançou um livro de poemas, Meu Livro Vermelho (editora Impressões de Minas). Neste ano, a cantora, compositora e atriz Karina Buhr estreia com um livro que deverá estar em qualquer lista de melhores da ficção brasileira de 2022.

Impregnado de imaginação e numa prosa que flui fácil, Mainá talvez seja o romance de formação mais original da literatura contemporânea. Em primeiro lugar, porque é escrito por uma mulher sobre uma menina; uma criança cuja idade não adivinhamos com facilidade e que faz a travessia do amadurecimento existencial e emocional, como é a característica do romance de formação.

Ainda que não seja inédita a iniciativa na literatura brasileira – a primeira referência que vem à memória é o extraordinário Minha Vida de Menina, de Helena Morley -, é ainda raro que uma escritora mulher consiga dar uma voz tão potente para uma criança e se sair com uma narrativa que nada tem de infantil.

Em segundo lugar, Mainá fala da gestação de uma rebeldia e de uma potência femininas, que se descobre com a ajuda dos ancestrais, das divindades anímicas e da religiosidade sincrética, entre as benzedeiras e rezadeiras, nas águas e nas visões da menina. Nesse sentido, a narrativa se aproxima da mitologia, em camadas sucessivas dos santos, emissários e mensageiros. Ou seja, só uma autora feminista contemporânea estaria aí nesse lugar de observação e narração – e será enorme pena se Mainá for lido apenas por mulheres.

E, por fim, ao contrário de muitas tentativas mais ou menos bem-sucedidas de falar desse universo da religiosidade afrodescendente, dos rituais e das transformações imaginárias que perpassam as festas e os batuques, nada em Mainá soa artificial ou “pesquisado”.

A facilidade com a qual a autora, por exemplo, parece passar do registro de relato de sonho ao das quase alucinações de Mainá e dos sons que ela percebe como chamados ou avisos sugere que essa história que Buhr, artista de múltiplas linguagens, nos conta neste volume de pouco mais de 130 páginas é quase que um inventário de seu próprio percurso musical e de iniciada.

A jornada de Mainá, aquela que vê antes e se antecipa, que espera e espreita, é de uma menina em busca de uma voz autônoma, apesar de viver rodeada de ditos e conversas, com a mãe e o irmão, e com as vizinhas que vai nomeando e cujas histórias vai partilhando, e, na falta de tudo isso, consigo mesma. No entanto, é contada de tal maneira que acaba por se assemelhar à luta pela expressão pessoal da artista em formação, aquela que tem de dar forma ao barro da sensibilidade.

Se há traços autobiográficos em Mainá, isso fica como segredo bem guardado na elaboração ficcional – e nada mais longe da autoficção que assolou a literatura brasileira dos anos 2000 do que essa estreia de Karina Buhr no romance. São pequenas pistas aqui e ali, intervenções quase da escritora sobre a narradora Mainá, que revelam uma autora que nasce já velha: “Eu sou uma criança velha, um gosto pela lama que me guia, que aparece e se cria. Monto uma casa de tijolos moles com o gosto frio da noite. Uma menina que já passou, às vezes insiste que está ali, mas já foi”.

"Mainá" (2022), de Karina Buhr

Bia Abramo é jornalista e pesquisadora de música. Escreve sobre cultura e comunicação digital para a revista Focus. Este texto foi publicado orginalmente na edição 68.

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