Cerca de 250 pessoas participaram, no início da tarde desta quarta-feira, 15, da inauguração da estátua do cantor e compositor paulista Itamar Assumpção (1949-2003) no Centro Cultural da Penha, na Zona Leste de São Paulo. Estiveram lá a cantora Céu, o músico e produtor Curumin, o filósofo, poeta, curador e produtor Tiganá Santana, a radialista e pesquisadora Patricia Palumbo, o jornalista e radialista Jersey Gogel, entre outros. O primeiro ato da manhã foi uma missa no interior da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a 100 metros do centro cultural, por volta das 11 horas da manhã.

Por causa da chuva, a cerimônia externa foi inicialmente transferida para dentro do Teatro Martins Penna, no interior do Centro Cultural, e por volta das 13h os convidados saíram em direção à peça, forjada em bronze e com cerca de 1m70 de altura, instalada no jardim externo do Centro Cultural, no Largo do Rosário, 20. A imagem, do artista Leandro Junior, mostra Itamar em movimento de cena, segurando um microfone e com seu lendário óculos de shows.

O ex-ministro da Cultura, o cantor e compositor Gilberto Gil foi o convidado de honra da cerimônia, e participou do descerramento da imagem ao lado da Secretária de Cultura de São Paulo, Aline Torres. O ato era uma ação de caráter celebratório e também reparatório – a estátua de Itamar é uma das cinco de artistas que serão instaladas pela Prefeitura de São Paulo para começar a diminuir um déficit de representação de personalidades negras na metrópole.

Em seu discurso, Gilberto Gil ponderou que, apesar de ressaltarem a vida breve de Itamar, ele não a considerava tão breve assim, porque proporcionou ao artista paulista poder trabalhar “canções, sonoridades, pensamentos fixados em versos, aforismas” e outras formas artísticas. Gil também salientou a dupla militância de Itamar Assumpção, tanto no campo da arte quanto da cidadania, ocupando um lugar pioneiro naquilo que hoje chamam de artivista (mistura de artista com ativista). “É o que ele foi e continua sendo, através de sua obra. Um artista maior, de profundas responsabilidades com o seu povo, a sua tradição, os seus antepassados, com o futuro”, disse o cantor baiano.

Gil saudou a espiritualidade presente no evento, a presença da fé como um elemento importante da celebração. “A fé transcende a própria ideia de religiosidade; a fé nasce e brota da própria força existencial de cada um, o fato de cada um estar comprometido necessariamente com a vida, com essa dimensão extraordinária que é estar no mundo, vivendo essa vida cheia de tanta coisa, tanta alegria, tanta beleza, tanta tristeza, tanto sofrimento. Tudo que a vida nos proporciona, reserva para nós e nos convida à fruição”.

Uma exposição no saguão do Centro Cultural mostrava a trajetória de Itamar Assumpção e sua prodigiosa atuação em diversos fronts da música e da cultura, com seus relacionamentos com Jards Macalé, Luiz Melodia, Paulo Leminski, Arrigo Barnabé, Edvaldo Santana, Ademir Assunção, entre outros muitos. Era possível ver documentos da vida do artista, que trabalhou no bairro entregando carnês de IPTU durante um período da existência – da certidão de casamento ao certificado de dispensa do serviço militar.

Agora há pouco, a filha de Itamar, a cantora Anelis Assumpção, postou em uma página de rede social a seguinte mensagem ao pai, morto quando ela tinha 23 anos.

Pai,

Não sei quantas vezes você nos disse que por ser incompreendido, sua obra e existência teriam valor póstumo. Tive que aprender o q significava ‘póstumo’ pra te compreender completamente. Tive que sentir a sua falta.

Hoje, inaugurando tua estátua que ficará por tempos, espero que muitos, no chão de uma Penha onde me criaste pra ser honesta, na humildade e riqueza que só as periferias nos dão, entendo teu presságio.

Tu fostes grandioso. Inédito, criador, militante, lutador. Levaste à risca a necessidade de ser livre. Criou linguagens e estímulos com provocações únicas.

Seu totem na cidade simboliza todas as suas batalhas e dos seus de antes que também são meus.

Significa.

Te agradeço por ser sábio.

Por ter sido pai integral, inteiro. Por nunca abandonar sua missão. Por viver e morrer sendo Itamar Nego Dito Pretobrás Afro Brasileiro Puro.

Daqui pra onde você estiver no espiral do tempo na nossa África sentida, esse calor de agora já foi brasa de tua matéria e ainda será clareira para os que ainda nem encarnaram.

Circular e adiante.

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