Caricatura do escritor norte-americano Jack London

Um novo vírus que contamina fatalmente os mais velhos e os adultos, poupando as crianças, devastou o país nas primeiras décadas dos anos 2000. Durante anos, a fome e a orfandade levaram as crianças a reaprenderem a vida na natureza, buscarem refúgio em ritos selvagens e retomarem estratégias rústicas de sobrevivência e comportamentos tribais.

Falamos do Brasil de 2021? Não, da São Francisco de 1912. É de lá que vem o misteriosamente profético livrinho A Praga Escarlate, do escritor e ativista Jack London (1876-1916), redescoberto neste ano dois do coronavírus pela alcateia literária universal. A distopia de ficção científica de Jack London avançou um século adiante para contemplar o ambiente de regressão que marca um ambiente pandêmico de tal envergadura. Ele aborda a questão da disseminação de germes e vírus,  “mundo microorgânico”, e dos ambientes e sociedades em que são gerados (“Em 1984, por outro lado, houve a Peste Pantoblástica, uma epidemia que surgiu num país chamado Brasil e que matou milhões de pessoas”).

O engenho do livrinho de Jack London encanta tanto pelo que tem de antecipador, face à nossa realidade mais imediata (por exemplo: ele previu, com um século de antecedência, que a população mundial teria cerca de 8 bilhões de habitantes em 2012) quanto pelo que apresenta de laboratório reflexivo. O personagem central é o único adulto num mundo controlado pelos Meninos Perdidos de Peter Pan – o que é igualmente assombroso se considerarmos que Peter Pan, o livro de J.M. Barrie, foi publicado justamente naquele ano. Mas tem mais: o avô dos Meninos Perdidos é, ironicamente, um professor de literatura num mundo em que a língua e a cultura perderam subitamente o valor.

Nesse cenário, livros guardados em cavernas e a cultura oral se apresentam como elementos de manutenção da persistência humanista.  John Griffith “Jack” London (nascido John Griffith Chaney) foi um dos grandes autores, como se sabe, das aventuras da imaginação. Foi, desde garoto, um aventureiro ele mesmo: trabalhou em um emprego semi-escravo numa fábrica de enlatados e engajou-se na Marinha aos 17 anos. Ganhou dinheiro com o êxito de livros como O Chamado Selvagem (1903), O Lobo do Mar (1904), Caninos Brancos (1906) e Martin Eden (1909). Mas era, sobretudo, um socialista (filiado ao Partido Social Trabalhista), um cultor da emancipação social. Com A Praga Escarlate, inaugurou um gênero de literatura de ficção científica pós-apocalíptica, assentando bases para muito do que vimos nascer depois.

A Praga Escarlate. De Jack London. Tradução de Roberto DeNice. Veneta Editora, 2021, 103 pág., 22 reais.

 

 

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