Juçara Marçal
Juçara Marçal - foto Pablo Saborido

Delta Estácio Blues expande o lado autoral do trabalho de Juçara Marçal, que até este momento atuava de modo bissexto como compositora, em parcerias como “Canto pra Aurora” (2013, com Chico Saraiva), “Jatobá” (2007, com Kiko Dinucci), “Enquanto as Freiras Se Divertem” (2017, com Edgar),”Lua Ciranda” (com Alice Coutinho, gravada em 2019 por Lia de Itamaracá), “Rompeu o Coro” (2020, composição coletiva gravada por Marcelo D2) ou na solitária “Odoya” (da estreia solo Encarnado, de 2014). A princípio só intérprete do Metá Metá, só no terceiro disco do trio, MM3 (2016), ela apareceu como coautora das canções, em “Angoulême”, “Mano Légua”, “Angolana” e “Corpo Vão”.

Agora, Juçara toma as rédeas autorais em grande parte do novo álbum, exceto o maracatu industrial (se é que isso é possível) “Vi de Relance a Coroa”, composto por Siba, “Ladra”, de Tulipa Ruiz, “Crash”, de Rodrigo Ogi, “Oi, Cat”, criação de Tantão e Os Fita, e o cover “La Femme à Barbe” (1995), da veterana vanguardista francesa Brigitte Fontaine. A produção musical de Kiko reforça a identidade e a irmandade entre ambos, bem marcada aqui pelas referências ao antigo rock industrial e à música eletrônica mais pesada, que cada vez mais vestem a tradição afro-brasileira da dupla (como atesta a afro-suave-barulhenta “Iyalode Mbe Mbe”) com uma casca áspera, incômoda e incomodada, bordada pelos samples de Juçara e por guitarra, viola, samples, synth e programação de Kiko.

A assinatura dos parceiros aparece forte em momentos como as ferozes “Sem Cais” e “Corpus Christi”, co-escritas respectivamente por Negro Leo Douglas Germano. Contraparte do “Cais” (1972) de Milton Nascimento, “Sem Cais” fala do “ventre que ninguém mais quer semear” (o ventre brasileiro?), de “filhos e netos amesquinhados”, do “sangramento da terra” e da “intolerância, a loucura de todos nós”, que “emojis não vão qualificar”. “Corpus Christi” aborda São Paulo num manguebeat que lista lugares praieiros como Boqueirão, Mongaguá, Gonzaga, Peruíbe, Praia Grande – e a Serra do Mar, o trânsito, a pressa, o feriado, a fuga.

Primeiro single, “Crash”, de Ogi, aumenta o desconforto com o pique de heavy rap, o não-canto cuspido de Juçara e versos como “eu faço tudo pra não entrar numa guerra/ mas se entrar não vou parar de guerrear/ ninguém mandou você vir me aperrear”. Em “Ladra”, Tulipa apresenta uma neta vivaz do Beleléu/”Nego Dito” (1980) de Itamar Assumpção, com estratagemas musicais que evocam de perto a vanguarda paulistana do início dos 1980. A voz feminina do álbum se impõe em “Baleia”, que sobrepõe a parceria no feminino com Maria Beraldo à música-enquanto-barulho do imaginário Metá Metá.

"Eu Sou o Rio" (1988), de Black Future"
“Eu Sou o Rio” (1988), de Black Future

A estranheza persegue a sequência cia formada pela francesa “La Femme à Barbe” e pela carioca “Oi, Cat” (do trio Tantão e Os Fita), ambas egressas do repertório dos shows em tributo a Brigitte Fontaine, protagonizados por Juçara, Kiko e Thaís Nicodemo. Em “Oi, Cat”, Juçara processa a voz para tons gravíssimos e brinca com o afrofuturismo primordial do grupo oitentista de Tantão, o Black Future. Tais momentos afinam a música de Juçara menos com as vozes femininas da vanguarda dos 1980 (Ná Ozzetti, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros, Suzana Salles) que com os experimentalismos históricos de figuras como Brigitte, Nico, Patti Smith Laurie Anderson – a aspereza, em detrimento dos estereótipos de “delicadeza feminina”, as une.

O vibrante “Delta Estácio Blues”, em parceria com Kiko e Rodrigo Campos, relaxa a tensão musical enquanto emparelha as gêneses e os pactos com o demônio do blues e do samba, no Mississippi de Robert Jonhson e no Estácio de Ismael Silva, Bide Baiaco. “Robert Johnson escreveu/ 29 canções/ era um homem medíocre/ tocando violão/ no Estácio pagão,/ Bide, Baiaco e Ismael,/ fez trato com três malandros/ e desapareceu”, condensa a faixa-título.

Certo lirismo (cortado por imagens como “minha alma revoltada” e “minha casa abandonada”) só vai se instalar quase ao final, em “Lembranças que Guardei”, colaboração de Juçara e Kiko com Fernando Catatau (da banda cearense Cidadão Instigado), também presente nos vocais: “Que venha a brisa leve/ outra recordação/ que possa me mostrar/ o que eu busquei ou não/ e se eu trouxer de volta/ lembranças que guardei/ mesmo que estejam mortas/ que eu saiba onde deixei”. A melodia sedutora abranda por poucos instantes a atmosfera de não-canção instalada por Juçara, Kiko e nove entre dez artistas da vanguarda paulista dos anos 2000/2010/2020. Juçara Maçal e seus parceiros não querem dourar a pílula dos dias cascudos que vivemos.

 

Delta Estácio Blues. De Juçara Marçal. Natura Musical/QTV Selo/Mais Um Discos/Goma Gringa. Nas plataformas digitais a partir de 30 de setembro. Leia aqui entrevista com Juçara Marçal.

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome